





Morte entre Runas
Agatha Christie

Ttulo original
APPOINTMENT WITH DEATH





"Compreendes que ela tem de ser morta, no compreendes?
 A pergunta flutuou no parado ar nocturno, pairou
um momento e depois afastou-se, perdeu-se na escurido, para os
lados do mar Morto.
 De testa franzida, Poirot deteve-se, com a mo no
fecho da janela. Depois fechou-a com um gesto decisivo, a impedir
a entrada aos malefcios do ar da noite.
A educao que levara convencera-o de que o ar exterior ficava
melhor fora de casa e de que o ar nocturno
era especialmente perigoso para a sade.
 Correu o reposteiro da janela, com cuidado, e encaminhou-se
para a cama, a sorrir para consigo de modo tolerante.
 Compreendes que ela tem de ser morta, no compreendes?
 Curiosas palavras para o detective Hercule Poirot
ouvir na sua primeira noite em Jerusalm! Aonde
quer que v, h sempre qualquer coisa a recordar-me
a existncia do crime!, pensou. Continuou a sorrir, ao
lembrar-se de uma histria que ouvira uma vez, acerca
do romancista Anthony Trollope. Trollope viajava pelo Atlntico,
nessa altura, e ouvira dois passageiros a
discutir a ltima parte publicada de um dos seus folhetins.
Muito bem, disse um dos passageiros, mas
ele devia matar aquela velha maadora. O romancista
sorrira e dirigira-se-lhes: Agradeo-lhes muito, cavalheiros.
Vou mat-la imediatamente!

 Hercule Poirot perguntou-se o que teria originado
as palavras que ele prprio acabara de ouvir. Tratara-se
possivelmente de duas pessoas que escreviam uma
pea ou um livro de parceria.
 Aquelas palavras talvez um dia sejam recordadas
com um significado mais sinistro, pensou, sem deixar
de sorrir.
 Recordou que a voz possura uma curiosa intensidade nervosa,
uma tremura que denunciava qualquer
tenso emocional muito intensa. Era uma voz de homem ou de rapaz.
 Ao apagar a luz da mesa-de-cabeceira, Poirot pensou, ainda:
Reconheceria aquela voz, se a voltasse a
ouvir...

 Com os cotovelos no parapeito e as cabeas unidas, Raymond e
Carol Boynton mergulhavam o olhar
no abismo azul da noite. Raymond repetiu, nervosamente:
 - Compreendes que ela tem de ser morta, no
compreendes?
 Carol Boynton mudou um pouco de posio e
murmurou, em voz rouca e nervosa:
 -  horrvel!
 - No  mais horrvel do que isto!
 - Creio que no...
 - As coisas no podem continuar assim, no podem! - exclamou
Raymond, violentamente. - Temos
de fazer qualquer coisa... e eu no vejo outra soluo.
 - Se nos pudssemos libertar... - disse Carol,
mas a sua voz no tinha convico, e ela sabia-o.
 - No podemos. - O tom de Raymond era vazio
e sem esperana. - Sabes que no podemos, Carol.
 A rapariga estremeceu.
 - Eu sei, Ray... eu sei.
 Raymond soltou uma gargalhada curta e amarga.
 - As pessoas julgar-nos-iam loucos, se soubessem
que no podemos ir-nos pura e simplesmente embora...

 - Talvez sejamos loucos - redarguiu Carol, muito devagar.
 - Suponho que sim... ou, pelo menos, no tardaremos a s-lo.
Tenho a certeza de que no faltaria
quem afirmasse que j o ramos. Eis-nos a planear calmamente, a
sangue-frio, a morte da nossa prpria
me!
 - Ela no  a nossa me! - emendou Carol, rspida.
 - Tens razo. - Seguiu-se uma pausa, finda a
qual Raymond perguntou, em voz que se tornara calma e prtica:
- Concordas, Carol?
 - Sim... penso que ela deve morrer - respondeu
a rapariga, sem hesitar. -  louca, tenho a certeza de
que  louca! Se o no fosse no nos torturaria como
tortura. H anos que dizemos: Isto no pode continuar!
E, contudo, tem continuado. Ela h-de morrer, um
dia!, pensvamos. Mas ela no morreu. Suponho at
que nunca morrer, a no ser...
 - A no ser que ns a matemos! - concluiu Raymond, com firmeza.
 - Sim. - Carol cerrou os punhos, no parapeito
da janela, e o irmo continuou, em tom frio e prtico,
apenas com um leve tremor a denunciar a sua profunda excitao:
 - Compreendes por que motivo ter de ser um de
ns, no compreendes? No caso de Lennox, temos
de ter Nadine em considerao... e no podemos envolver a Jinny
no assunto.
 - Pobre Jinny! Tenho tanto medo...
 - Bem sei. Est a tornar-se grave, no est?  por
isso que temos de fazer qualquer coisa depressa, antes
que ela perca de todo a razo.
 Carol endireitou-se bruscamente e afastou da testa
o cabelo castanho rebelde.
 - Ray, no crs que seja realmente errado, pois
no?
 - No - respondeu o rapaz, no mesmo tom aparentemente
desapaixonado. - Creio que  o mesmo
que matar um co raivoso... que afastar algo que est
a prejudicar o mundo e tem de ser detido. S h uma
maneira de o deter.
 - Mas... mas mandar-nos-o para a cadeira elctrica do mesmo
modo - gaguejou Carol. - Quero dizer, no poderamos explicar
como ela . Pareceria to
fantstico! De certo modo, est tudo no nosso esprito.
 - Mas ningum saber, jamais. Tenho um plano,
estudei tudo muito bem. Procederemos com toda a segurana.
 Carol voltou-se, de sbito, para o irmo e fitou-o.
 - Ray, acho-te diferente, no sei como. Aconteceu-te qualquer
coisa! Quem te meteu tudo isso na cabea?
 - Porque teria de me acontecer qualquer coisa?
- redarguiu o rapaz, mas olhou para o lado.
 - Porque sim! Ray, foi aquela rapariga do comboio?
 - Claro que no! Porque pensas semelhante coisa?
No digas tolices, Carol. Voltemos a... a...
 - Ao teu plano? Tens a certeza de que  um bom
plano?
 - Suponho que sim. Evidentemente que teremos
de esperar pela oportunidade conveniente. E depois,
se tudo correr bem, estaremos todos livres!
 - Livres?
 Carol suspirou e olhou para as estrelas. De sbito,
uma onda de choro sacudiu-lhe todo o corpo.
 - Que tens, Carol?
 - A noite, o azul do cu e as estrelas...  tudo to
belo! - exclamou, entre soluos. - Se ao menos pudssemos
compartilhar essa beleza, se pudssemos ser
como as outras pessoas em vez de sermos como somos... criaturas
estranhas, nevrticas... erradas!
 - Mas tudo se recompor, seremos pessoas normais... quando ela
morrer.
 - Tens a certeza? No ser j demasiado tarde?

 - No, no!
 - Duvido...
 - Carol, se preferes no...
 A jovem afastou o brao em que ele quis envolv-la, para a
confortar, e respondeu:
 - No, estou contigo... estou definitivamente contigo! Por
causa dos outros... sobretudo por causa da
Jinny. Temos de a salvar!
 - Ento... seguiremos para a frente?
 - Sim!
 - ptimo. Vou-te explicar o meu plano... - inclinou a cabea
para a dela.


II

 Miss Sarah King, bacharel em Medicina, estava
junto da mesa da sala do Solomon Hotel, em Jerusalm, a folhear
distraidamente jornais e revistas. Tinha
o cenho franzido e parecia preocupada.
 O francs alto e de meia-idade que entrou na sala,
vindo do vestbulo, observou-a um momento, antes de
se dirigir para o lado oposto da mesa. Quando os seus
olhos se encontraram, Sarah esboou um sorriso de reconhecimento.
Recordava-se de que aquele homem a
auxiliara quando vinham do Cairo e transportara uma
das suas malas.
 - Estava a pensar em pedir caf - disse o
Dr. Gerard. - Quer fazer-me companhia, Miss... ?
 - King. Chamo-me Sarah King.
 - E eu... com licena - estendeu-lhe um carto.
 Ao ler o nome, os olhos de Sarah dilataram-se num
espanto agradvel.
 - Doutor Theodore Gerard? Oh, mas encanta-me
conhec-lo! Li todas as suas obras, evidentemente. As
suas opinies acerca da esquizofrenia so tremendamente
interessantes.

8 9


 - Leu todas as minhas obras... evidentemente? - O Dr. Gerard
arqueou as sobrancelhas, curioso.
 -  que tambm vou ser mdica! - explicou Sarah, contente. -
Acabo de me bacharelar.
 - Ah, compreendo!
 O Dr. Gerard pediu o caf e sentaram-se a um canto da sala. O
francs estava menos interessado nos conhecimentos mdicos de
Sarah do que no cabelo preto
ondulado, penteado para trs, e na boca vermelha, de
lindo desenho. Divertia-o o ar de visvel respeito com
que ela o olhava.
 - Demora-se por c muito tempo? - perguntou-lhe.
 - Alguns dias. Depois quero ir a Petra.
 - Tem graa, mas tambm tenoienva l :r, se no
fosse muito demorado. Preciso de estar em Paris no
dia catorze.
 - Suponho que leva cerca de uma semana. Dois
dias l, dois dias de permanncia e dois dias para c.
 - Esta manh irei  agncia de viagens ver o que
se pode arranjar.
 Entrou na sala um grupo de pessoas, que se sentaram. Sarah
olhou-as com um certo interesse e baixou
a voz:
 - Reparou nas pessoas que entraram e que viajaram no mesmo
comboio em que viajmos? Partiram
do Cairo quando ns.
 O Dr. Gerard ajustou um monculo e olhou na direco indicada.
 - Americanos?
 - Sim,  uma famlia americana. Mas... muito estranha, creio.
 - Estranha? Em que sentido?
 - Olhe para eles. Sobretudo para a mulher de
idade.
 O Dr. Gerard fez-lhe a vontade.
 Reparou primeiro num homem alto e desengonado, que deveria ter
cerca de 30 anos. O rosto era agradvel, mas denotava fraqueza
e a sua atitude parecia
estranhamente aptica. Havia tambm dois jovens interessantes,
um dos quais, o rapaz, tinha uma cabea
quase grega. Mas passa-se tambm qualquer coisa
com ele, pensou o Dr. Gerard. Sim, nota-se um estado
inequvoco de tenso nervosa. A rapariga era,
sem dvida, sua irm, pois as semelhanas no enganavam, e tambm
denotava nervosismo. Havia ainda
outra rapariga mais nova, com uma cabeleira ruiva-dourada que
lembrava uma aurola e cujas mos puxavam nervosamente o leno
que tinha no colo, e uma
mulher jovem, calma, de cabelo escuro, tez branca e
rosto plcido, que lembrava uma madonna de Luini.
Essa, pelo menos, no demonstrava qualquer nervosismo. E o centro
do grupo... Cus!, pensou o Dr. Gerard com a franca
repugnncia de um francs. Que
pavor de mulher! Velha, inchada, quase a rebentar,
parecia um velho Buda desfigurado, uma enorme aranha no centro
de uma teia.
 - La Maman no  bonita, pois no? - disse a
Sarah e encolheu os ombros.
 - H nela algo de... sinistro, no acha?
 O Dr. Gerard voltou a observ-la, desta vez com
um interesse profissional e no esttico.
 - Hidrpica... cardaca... - e acrescentou outra
frase mdica.
 - Ah, sim! - Sarah no ligou importncia ao aspecto mdico. -
Mas no nota algo de estranho na
atitude deles para com ela?
 - Sabe quem so?
 - Chamam-se Boynton. Me, filho casado, a mulher deste, outro
filho mais novo e duas filhas.
 - La famille Boynton anda a ver mundo.
 - Pois sim, mas h qualquer coisa estranha no
modo como o v. Nunca falam com ningum e nenhum
deles faz nada sem ordem dela.
 - Pertence ao tipo matriarcal.
 - Creio que  uma perfeita tirana.
 O Dr. Gerard encolheu os ombros e observou ser
facto bem conhecido que a mulher americana dominava na terra.
 - Pois sim, mas neste caso  mais do que isso. - insistiu
Sarah. - Ela ... enfim, domina-os de tal maneira, tem-nos to
positivamente debaixo do calcanhar
que ...  indecente!
 -  mau para as mulheres possurem demasiado
poder - concordou o mdico, com sbita gravidade,
a abanar a cabea.
 Olhou Sarah de soslaio e verificou que ela estava a
observar a famlia Boynton - ou melhor, um membro
especfico da famlia. Esboou um sorriso compreensivo e
perguntou, a tentar tirar nabos da pcara:
 - Falou com eles?
 - Sim... pelo menos com um deles.
 - Com o filho mais novo?
 - Sim. No comboio, quando vnhamos para c.
Ele estava de p, no corredor, e eu falei-lhe.
 No havia nenhum constrangimento na atitude de
Sarah nem na maneira como encarava a vida. Interessava-se pelas
pessoas como seres humanos e tinha uma
disposio cordial, embora impaciente.
 - Que motivo a levou a falar com ele?
 - Porque no? - perguntou, com um encolher
de ombros. - Falo muitas vezes com as pessoas,
quando viajo. Interessam-me, interessa-me o que fazem, pensam e
sentem.
 - Quer dizer, observa-as ao microscpio.
 - Talvez tenha razo - admitiu a jovem.
 - E qual foi a sua impresso, neste caso?
 - Bem... - Sarah hesitou. - E estranho, sabe,
mas o rapaz comeou por corar at  raiz dos cabelos.
 - E isso  assim to extraordinrio?
 Sarah deu uma gargalhada.
 - O que quer dizer  que me tomou por uma desavergonhada que
me estava a atirar a ele, hem? Mas
no, no creio que tivesse pensado isso. Os homens
percebem sempre, no percebem?

 Envolveu-o num franco olhar interrogador e o mdico acenou com
a cabea.
 - Tive a impresso de que ele ficou..., como dizer? ..
simultaneamente emocionado e aterrorizado.
Desproporcionadamente emocionado e apreensivo de
um modo absurdo. Ora isso  estranho, pois os Americanos
pareceram-me sempre seguros de si. Um americano de vinte anos,
por exemplo, tem muito mais
conhecimento do mundo e muito mais savoir faire do
que um ingls da mesma idade. E aquele rapaz deve
ter mais de vinte anos.
 - Sim, deve andar pelos vinte e trs ou vinte e
quatro.
 - Tanto?
 - Suponho que sim.
 - Talvez tenha razo... No entanto, no sei porqu, parece to
jovem...
 - Desajustamento mental. O factor infantil persiste.
 - Ento sempre tenho razo? Quero dizer, h nele
algo que no  completamente normal?
 O Dr. Gerard encolheu os ombros e sorriu do seu
interesse.
 - Minha querida jovem, algum de ns ser completamente normal?
Admito, no entanto, que neste caso haver provavelmente qualquer
tipo de neurose.
 - Relacionada com aquela velha horrvel, sem dvida!
 - Parece antipatizar muito com ela.
 - E antipatizo. Tem... tem um olhar malvolo.
 - Acontece o mesmo a muitas mes quando os
seus filhos se sentem atrados por jovens fascinantes.
 Sarah teve um gesto de impacincia. Os Franceses
eram todos iguais, viviam obcecados pelo sexo! No entanto, como
psicloga consciente, ela prpria era forada a admitir a
existncia de uma base sexual na
maioria dos fenmenos.
 Raymond Boynton comeou a atravessar a sala, direito  mesa,
e Sarah despertou do seu devaneio com
um estremecimento. O rapaz escolheu uma revista e,
quando passava pela cadeira dela, no regresso, a jovem
olhou-o e perguntou-lhe:
 - Andou a admirar as atraces tursticas? - Escolheu as
palavras ao acaso, pois o seu verdadeiro interesse era ver como
seriam recebidas.
 Raymond hesitou, corou, encolheu-se como um cavalo nervoso e
olhou, apreensivo, para o centro do
grupo formado pela sua famlia.
 - Eu... eu... sim, com certeza - gaguejou. - Eu...
 Depois, como se o esporeassem, voltou apressadamente para junto
dos seus, de revista estendida.
 O grotesco Buda estendeu a mo sapuda para a
aceitar e o Dr. Gerard reparou que os seus olhos perscrutavam o
rosto do rapaz. Proferiu um resmungo,
que por certo no era um agradecimento, e modificou
ligeiramente a posio da cabea, para poder ver Sarah. O seu
rosto, porm, manteve-se impassvel.
 Sarah consultou o relgio e sobressaltou-se:
 - Oh,  muito mais tarde do que supunha! - exclamou, ao mesmo
tempo que se levantava. - Muito
obrigada pelo caf, doutor Gerard. Agora tenho de ir
escrever umas cartas.
 - Espero que nos voltaremos a encontrar.
 - Sem dvida! Talvez se resolva a ir a Petra.
 - Pelo menos tentarei, com certeza.
 Sarah sorriu-lhe e deixou-o. Para sair da sala tinha
de passar pela famlia Boynton.
 Atento, o mdico francs viu o olhar de Mrs. Boynton fixar-se
de novo no rosto do filho, cujos olhos a fitaram. Quando Sarah
passou, Raymond Boynton virou um pouco a cabea para o lado
contrrio, num
movimento lento e contrafeito que deu a impresso de
que a velha Mrs. Boynton puxara um cordelinho invisvel.
 Sarah King notou o movimento da cabea do rapaz

e, como era jovem e humana, sentiu-se magoada. Tinham conversado
to amigavelmente, no corredor do
wagon-lit! Tinha trocado impresses acerca do Egipto
e rido da lngua ridcula dos rapazes dos burros e dos
vendedores ambulantes. O rapaz parecera um estudante simptico
e entusistico, embora houvesse, talvez,
algo de quase pattico no seu entusiasmo. E agora,
sem nenhum motivo, mostrava-se tmido, acanhado,
positivamente grosseiro!
 No me preocuparei mais com ele, decidiu Sarah, indignada,
pois apesar de no ser exageradamente
vaidosa tinha uma boa opinio da sua pessoa. Sabia
que exercia atraco no sexto oposto e no tolerava
que a desdenhassem.
 Talvez se tivesse mostrado demasiado cordial com
aquele rapaz porque, por qualquer motivo obscuro, tivera pena
dele. Mas agora tornava-se-lhe evidente que
no passava de um jovem americano empertigado e
grosseiro.
 Em vez de escrever as cartas que dissera precisar
de escrever, Sarah sentou-se diante do toucador a escovar o
cabelo, a observar os olhos castanhos, perturbados, e a avaliar
a sua situao na vida.
 Acabava de passar por uma difcil crise emocional:
um ms antes, quebrara o noivado com um jovem mdico quatro anos
mais velho do que ela. Apesar de se
sentirem muito atrados um pelo outro, possuam temperamentos
muito semelhantes e os desacordos e as
brigas no tinham faltado. Sarah tinha um feitio muito
imperioso, que no lhe permitia tolerar uma calma
manifestao de autocracia. Como a maioria das mulheres
temperamentais, estava convencida de que admirava a fora e
sempre afirmara a si prpria que
desejava ser dominada, mas quando encontrara um
homem capaz de a dominar verificara que, afinal, no
lhe agradava nada. Custara-lhe muito romper o noivado, mas
possua lucidez suficiente para compreender
que a simples atraco mtua no chegava. Resolvera, por isso,
oferecer a si prpria umas interessantes frias
no estrangeiro, para tentar esquecer, antes de regressar
e comear a trabalhar a srio.
 Os seus pensamentos saltaram do passado para o
presente: O doutor Gerard deixar-me- falar-lhe acerca do seu
trabalho? Tem feito coisas maravilhosas! Se
ao menos me tomasse a srio!... Talvez, se for a Petra...
Depois pensou de novo no estranho e rude jovem americano.
 Tinha a certeza de que fora a presena da famlia
que o levara a reagir de modo to singular, mas isso
no a impedia de sentir por ele um certo desdm. Era
ridculo, sobretudo num homem, estar de tal modo
subordinado  famlia!
 E, no entanto, o rapaz inspirava-lhe um sentimento confuso.
Havia algo estranho em tudo aquilo... Sem
dar por isso, exclamou, em voz alta:
 - O moo precisa de ser salvo... e eu tratarei
disso!

III

 Depois de Sarah sair, o Dr. Gerard deixou-se ficar
onde estava alguns minutos. Por fim, foi  mesa das
revistas, pegou no ltimo nmero de Le Matin e sentou-se numa
cadeira a poucos metros da famlia Boynton. A sua curiosidade
fora despertada.
 Ao princpio, sentira-se divertido com o interesse
da jovem inglesa pela famlia americana e atribura-o a
simpatia por determinado membro dessa famlia. Mas
agora ele prprio notava algo de anormal, algo que
despertava nele o interesse mais profundo e mais imparcial do
cientista.
 Observou-os discretamente, a coberto do jornal.
Comeou pelo rapaz por quem a atraente inglesa se

mostrara to interessada. Sim, pertencia, sem dvida,
ao tipo capaz de a atrair, temperamentalmente. Sarah
King possua fora, nervos equilibrados, inteligncia
fria e vontade resoluta. Em contrapartida, o jovem parecia
sensitivo, inteligente, tmido e intensamente sugestionvel. O
seu olhar de mdico permitiu-lhe discernir que, naquele momento,
o rapaz se encontrava
numa grande tenso nervosa. O Dr. Gerard sentiu-se
intrigado. Por que motivo se encontraria em tal estado,
positivamente  beira do colapso nervoso, um homem novo cuja
sade fsica era aparente e que andava
pelo estrangeiro, sem dvida em viagem de recreio?
 O mdico dedicou a sua ateno aos outros membros do grupo. A
rapariga do cabelo castanho era, indubitavelmente, irm de
Raymond. Pertenciam ao
mesmo tipo racial: pequena ossatura, perfeio de linhas e
aspecto aristocrtico. Tinham as mesmas mos
esguias e bem feitas, o mesmo queixo bem desenhado
e o mesmo porte de cabea no pescoo comprido e magro. A jovem
tambm denotava nervosismo: fazia pequenos movimentos
involuntrios, tinha olheiras vincadas e olhos muito brilhantes
e falava de modo muito
rpido e quase ofegante. Estava sempre vigilante, alerta, incapaz
de se descontrair. E tambm tem medo,
pensou o Dr. Gerard. Sim, tem medo! Ouviu fragmentos de uma
conversa banal:
 Podamos ir aos Estbulos de Salomo. No
seria extenuante para a me? O Muro das Lamentaes, de
manh? O Templo, evidentemente. Chamam-lhe Mesquita de Omar,
no sei porqu.  Porque
foi transformado numa mesquita muulmana, Lennox. 
 Simples e vulgar conversa de turistas. E, contudo,
sem saber explicar porqu, o Dr. Gerard tinha a estranha
convico de que os fragmentos de dilogo ouvidos eram todos
singularmente irreais, constituam uma
mscara, um disfarce para algo que flua e reflua abaixo da
superfcie - algo to profundo e to informe
que no se poderia exprimir por palavras. Deitou-lhes
um novo olhar disfarado, a coberto do jornal.
 Lennox? Era o irmo mais velho. Notava-se o mesmo ar de
famlia, mas havia uma diferena: Lennox
no parecia to tenso, possua um temperamento menos nervoso. No
entanto, tambm havia nele qualquer
coisa estranha. No denotava a tenso muscular dos
outros dois, pois estava sentado descontraidamente, de
modo quase flcido. Ao passar em revista doentes que
vira assim sentados, nas enfermarias dos hospitais, o
Dr. Gerard deu consigo a pensar: Ele est exausto...
sim, est exausto de sofrimento. Aquela expresso do
olhar, semelhante  que vemos num co ferido ou num
cavalo doente, aquele ar de resignao entorpecida e
animal... , de facto, estranho. Fisicamente, parece
no ter nada, no entanto  evidente que nos ltimos
tempos sofreu muito, sofreu mentalmente. Agora j
no sofre; est resignado, espera, aptico, talvez o desfechar
do golpe... Mas de que golpe? Estarei a imaginar tudo isto? No,
o homem espera, de facto, qualquer coisa, espera o fim.,
 Lennox Boynton levantou-se e apanhou um novelo
de l que a velha deixara cair.
 - Tome, me.
 - Obrigada.
 Que tricotaria aquela velha monumental e impassvel? Parecia
qualquer coisa grossa e ordinria... Mitenes para os habitantes
de um asilo ou de uma priso!,,
pensou Gerard e sorriu da sua fantasia. Desviou a
ateno para a componente mais jovem do grupo, a rapariga do
cabelo ruivo-dourado. Teria, talvez, 17 anos
e a bela tez clara que geralmente acompanha os cabelos ruivos.
Embora o seu rosto fosse demasiado magro,
era bonito. Estava sentada, a sorrir para o vcuo. Havia naquele
sorriso algo de muito estranho, to longe
parecia estar do Salomon Hotel e de Jerusalm... Recordava ao Dr.
Gerard o sorriso extico e sobrenatural
das virgens da Acrpole de Atenas, era distante, encantador e um
pouco desumano...

 De sbito, estupefacto, o Dr. Gerard reparou nas
suas mos. A mesa ocultava-as do grupo que a rodeava, mas o
mdico via-as perfeitamente, donde estava:
rasgavam o leno em tiras fininhas.
 Foi um tremendo choque para ele. O sorriso distante e vago, o
corpo imvel e as mos atarefadas a
destruir...

IV

 Ouviu-se uma tosse lenta, asmtica, sufocante, e
depois a velha monstruosa observou, sem deixar de
tricotar:
 - Ests cansada, Ginevra,  melhor ires para a
cama.
 A jovem estremeceu e os seus dedos interromperam o rasgar
maquinal.
 - No estou cansada, me.
 Gerard apreciou a musicalidade da sua voz, o doce
tom vibrante que empresta encantamento s frases
mais banais.
 - Ests, sim. Eu sei sempre quando ests cansada. No creio que
amanh estejas em condies de visitar os pontos tursticos.
 - Oh, estarei, sim! Sinto-me bem.
 Em voz spera, quase rouca, a me redarguiu-lhe:
 - No. Estars doente.
 - No estarei nada! - A jovem comeou a tremer
violentamente.
 - Subo contigo, Jinny - disse uma voz suave e
calma.
 A mulher de rosto sereno, grandes olhos cinzentos
pensativos e cabelo escuro bem penteado, levantou-se
do seu lugar.
 - No - declarou a velha Mrs. Boynton. - Deixa-a subir sozinha.
- Quero que a Nadine v comigo!
 - Nesse caso, irei. - A jovem mulher deu um
passo em frente.
 - A garota prefere ir sozinha - insistiu a velha.
- No preferes, Jinny?
 Seguiu-se uma pausa, finda a qual Ginevra Boynton respondeu,
em voz que se tornara apagada e montona:
 - Sim... prefiro ir sozinha. Obrigada, Nadine. - E afastou-se.
 O Dr. Gerard baixou o jornal e observou, demoradamente, a velha
Mrs. Boynton. Seguia a filha com o
olhar e o seu rosto gordo estava franzido num sorriso
peculiar, numa espcie de caricatura do sorriso encantador e
estranho que transformara pouco antes o rosto
da jovem. Depois a criatura virou a cara para Nadine,
que se voltara a sentar. Os olhos das duas mulheres
encontraram-se. O da mais nova mantinha-se imperturbvel; o da
outra exprimia maldade.
 Que velha e absurda tirana!, pensou o Dr. Gerard. De
sbito, porm, reparou que a hedionda criatura o observava e
conteve vivamente a respirao.
Aqueles olhos pequenos, pretos e mortios irradiavam
uma fora inequvoca, uma onda de maldade. O Dr. Gerard sabia
alguma coisa acerca do poder da personalidade e, por isso,
compreendeu que no estava perante
uma simples doente que a enfermidade tornara autoritria e
caprichosa. Aquela velha era uma fora, a malignidade do seu
olhar produzia efeito semelhante ao
de uma cobra. Mrs. Boynton podia ser velha e estar
muito doente, mas era uma mulher que conhecia o
significado do poder, que o exercera durante toda
a sua vida e que nunca duvidara da sua prpria fora.
O Dr. Gerard conhecera, em tempos, uma mulher que
desempenhava um nmero muito perigoso e espectacular com tigres.
As possantes feras rastejavam para os
seus lugares e faziam as suas degradantes e humilhantes
habilidades. Os seus olhos e os seus rugidos abafados exprimiam
o seu dio profundo, fantico, mas isso
no os impedia de se rebaixarem e obedecer. A mulher
que os dominava assim era uma jovem de arrogante
beleza morena, uma criatura que possua um olhar semelhante ao
de Mrs. Boynton.
 Uma domadora!, pensou o mdico, e compreendeu finalmente
o no-sei-qu que pressentira sob a
aparente naturalidade da conversa familiar que escutara: dio,
uma fonte inesgotvel e tumultuosa de dio.
A maioria das pessoas julgar-me-ia fantasioso e absurdo, se
lhes contasse isto, pensou. Encontro uma vulgar e dedicada
famlia americana, a viajar pela Palestina, e envolvo-a numa
histria de autntica magia
negra! 
 Depois observou com interesse a jovem serena chamada Nadine,
que tinha uma aliana de casamento na
mo esquerda. Viu-a lanar um olhar rpido e revelador ao louro
e aptico Lennox e compreendeu que
eram marido e mulher. Mas o olhar que ela lhe lanou
foi mais de me do que de esposa, foi um genuno
olhar maternal, protector e preocupado. E compreendeu, tambm,
outra coisa: naquele grupo, Nadine
Boynton era a nica a no ser influenciada pela fora
maligna irradiada pela sogra. Poderia no gostar dela,
mas no a temia, o seu poder no a impressionava.
Sentia-se infeliz e muito preocupada com o marido,
mas era livre.
 Tudo isto  muito interessante, disse para consigo o Dr.
Gerard.
 Naquela atmosfera de sinistras especulaes e tenso emocional
soprou, de sbito, uma aragem de bom
senso, que teve um efeito quase burlesco.
 Entrou um homem que, ao ver os Boynton, foi direito a eles. Era
um americano simptico, de meia-idade e tipo absolutamente
convencional. Vestia bem,
tinha uma cara comprida e escanhoada e uma voz lenta, agradvel
e um pouco montona.
 - Andava  procura de vocs - declarou, ao mesmo tempo que
apertava meticulosamente a mo a toda
a famlia. - Como se sente, Mistress Boynton? Espero que a viagem
no a tenha fatigado muito?
 A velha respondeu, em tom quase amvel:
 - No, obrigada. A minha sade nunca  boa, como sabe...
 - Infelizmente, infelizmente...
 - Mas no me sinto pior. - E Mrs. Boynton
acrescentou, com um sorriso lento e reptiliano: - A Nadine trata
bem de mim... No  verdade, Nadine?
 - Fao o possvel - respondeu a outra, em voz
inexpressiva.
 - No duvido! - exclamou o recm-chegado, em
tom entusistico. - Ento, Lennox, que pensa da cidade do rei
David?
 - Oh, no sei! - respondeu o outro, desinteressado.
 - Acha-a um pouco decepcionante, no? Confesso
que, ao princpio, foi essa a impresso que me causou.
Mas talvez ainda no tenham tido tempo de ver muitas
coisas...
 - No podemos ver muito, por causa da me. - explicou Carol
Boynton.
 - No suporto mais de duas horas por dia de passeios - disse
Mrs. Boynton.
 - Acho maravilhoso que consiga fazer tanto quanto faz! -
afirmou o desconhecido, sinceramente.
 Mrs. Boynton soltou uma gargalhada rouca e velhaca.
 - No fao a vontade ao corpo, o esprito  que
importa! Sim,  o esprito...
 Gerard viu Raymond Boynton tentar reprimir um
estremecimento nervoso.
 - J foi ao Muro das Lamentaes, Mister Cope?
 - J, foi uma das primeiras coisas que visitei. Espero ter
corrido Jerusalm de ponta a ponta daqui a
mais dois dias e encarreguei a Cook de me elaborar um
itinerrio, para visitar toda a Terra Santa: Belm, Nazar,
Tiberades, o mar da Galileia... Creio que ser
muito interessante. Tambm estou com vontade de visitar Jerash,
onde h algumas interessantes runas
romanas... e gostaria muito de ver Petra, a Cidade
Vermelha, um fenmeno natural extraordinrio. Mas
levaria pelo menos uma semana para ir e voltar e ver
tudo convenientemente.
 - Gostaria muito de ir - afirmou Carol. - Parece maravilhoso.
 - Sim, acho que vale a pena ver. - Mr. Cope calou-se, lanou
um olhar duvidoso a Mrs. Boynton e
depois prosseguiu, em voz que ao francs pareceu
muito hesitante: - Poderei persuadir alguns de vocs
a acompanhar-me? Sei que a senhora no poderia ir,
Mistress Boynton, e que, naturalmente, alguns dos
seus familiares desejariam ficar consigo, mas se dividissem as
foras, como se costuma dizer...
 Gerard ouviu o entrechocar ritmado das agulhas de
Mrs. Boynton, antes de ela responder:
 - No creio que nos desejssemos separar. Somos
um grupo muito unido. - Levantou a cabea e perguntou: - Que
dizem vocs?
 As respostas foram imediatas e unnimes:
 - No, me.
 - Oh, no!
 - Claro que no.
 Mrs. Boynton esboou, de novo, o seu estranho
sorriso.
 - Como v, no me querem deixar. E tu, Nadine?
No disseste nada.
 - No, me, obrigada. A no ser que Lennox esteja interessado.
 Mrs. Boynton virou a cabea para o filho.
 - Ento, Lennox? Porque no vais com a Nadine? Ela parece ter
vontade de ir.
 O interpelado estremeceu e levantou a cabea.
 - Eu... bem, no. Acho melhor permanecermos
todos juntos.
- No h dvida de que formam uma famlia unida! - exclamou Mr.
Cope com uma alegria que soou
a falso.
 - No nos damos... - Comeou a enrolar o novelo de l. - A
propsito, Raymond, quem era aquela
jovem que falou contigo, h pouco?
 Raymond estremeceu nervosamente, corou e depois empalideceu.
 - No... no sei como se chama. Vinha... vinha
no comboio, na outra noite.
 Mrs. Boynton tentou levantar-se, devagar, enquanto observava:
 - Espero que no tenhamos muito a ver com ela.
 Nadine levantou-se e ajudou a velha a erguer-se
com uma eficincia profissional que no passou despercebida a
Gerard.
 - So horas de dormir. Boas noites, Mister Cope.
 - Boas noites, Mistress Boynton. Boas noites,
Mistress Lennox.
 Partiram, a formar um pequeno cortejo. No pareceu ocorrer,
sequer, a nenhum dos membros mais jovens da famlia deixar-se
ficar. Mr. Cope seguiu-os,
com uma expresso intrigada.
 Como o Dr. Gerard sabia por experincia, os Americanos tm
tendncia para travar amizade sem grandes cerimnias, sem a
constrangedora desconfiana do
Ingls em viagem. Com o seu tacto, o Dr. Gerard no
teve dificuldade em travar conhecimento com Mr. Cope. O americano
estava s e apetecia-lhe companhia...
Os cartes de visita do mdico entraram de novo em
aco.
 Ao ler o nome, Mr. Jefferson Cope mostrou-se devidamente
impressionado.
 - Doutor Gerard? Esteve nos Estados Unidos h
pouco tempo, no esteve?
 - No Outono passado. Discursei em Harvard.
 - Lembro-me perfeitamente. O seu nome  um
dos mais distintos da sua profisso e, em Paris, est 
cabea da lista, na sua especialidade.

 - Meu caro, est a ser excessivamente amvel.
Protesto!
 - De modo nenhum!  uma grande honra para
mim conhec-lo. Por coincidncia, neste momento encontram-se
diversas pessoas famosas em Jerusalm.
O doutor; Lorde Welldon; Sir Gabriel Steinbaum, o
financeiro; Sir Manders Stone, o veterano arquelogo
ingls; Lady Westholme, uma senhora muito proeminente na poltica
britnica, e o famoso detective belga,
Hercule Poirot.
 - O pequeno Hercule Poirot est c?
 - Li no jornal da terra que chegara havia pouco.
Parece que veio toda a gente parar ao Solomon Hotel... que por
sinal  excelente.
 Mr. Cope estava visivelmente encantado e o Dr. Gerard era um
homem que sabia ser encantador, quando
queria. A breve trecho, tinham-se mudado os dois para o bar.
 Depois de tomarem duas bebidas, o mdico perguntou-lhe:
 - Diga-me, era uma tpica famlia americana,
aquela com quem esteve a falar?
 Jefferson Cope sorveu pensativamente o seu usqui, antes de
responder:
 - Bem, no diria que se trata exactamente de uma
famlia americana tpica...
 - No? Pelo menos  uma famlia muito dedicada.
 - Quer dizer que parecem girar todos  volta da
velha senhora, no ? Sem dvida...  uma senhora
deveras extraordinria.
 - Sim?
 Mr. Cope precisava de pouqussimo encorajamento
para falar...
 - No me importo de lhe confessar, doutor Gerard,
que tenho pensado muito naquela famlia, ultimamente.
Se me permite, creio que me aliviaria conversar consigo
a esse respeito. No o enfadaria?
 O Dr. Gerard apressou-se a dizer que no e Mr. Jefferson Cope
prosseguiu, com uma expresso de perplexidade a toldar-lhe o
rosto simptico:
 - Confesso-lhe desde j que estou um pouco preocupado. Mistress
Boynton  uma velha amiga... isto ,
a Mistress Boynton mais jovem.
 - Ah, sim, aquela encantadora senhora de cabelo
escuro!
 - Exactamente. Nadine, Nadine Boynton. Conheci-a antes de se
casar e sei que possui um excelente carcter. Trabalhava num
hospital, como enfermeira,
depois foi passar umas frias com os Boynton e casou
com Lennox...
 - Sim?
 Mr. Jefferson Cope bebeu outro gole de usqui.
 - Gostaria de lhe contar um pouco da histria da
famlia Boynton.
 - Teria muito interesse em ouvir.
 - O falecido Elmer Boynton, homem muito conhecido e uma pessoa
encantadora, casou duas vezes.
A sua primeira mulher morreu quando Carol e Raymond eram
pequenos. Pelo que me consta, a segunda
Mistress Boynton era uma mulher muito atraente,
embora j no muito nova, quando ele a desposou.
A quem a v, agora, custa a crer que tenha podido ser
atraente, mas assim mo tm afirmado pessoas dignas
de todo o crdito. Fosse como fosse, o marido tinha-a
em alta conta e aceitava o seu critrio acerca de quase
tudo. Esteve vrios anos incapacitado antes de morrer,
e foi ela, praticamente, quem criou os filhos e governou a
famlia.  uma mulher muito competente, com
boa cabea para os negcios e, tambm, muito conscienciosa.
Quando Elmer morreu, dedicou-se inteiramente aos filhos. Uma
tambm  filha dela, Ginevra,
uma ruivazinha bonita, mas um pouco fraca. Como dizia, Mistress
Boynton dedicou-se por completo  famlia e isolou-se totalmente
do mundo. No sei qual  a
sua opinio, doutor Gerard, mas no creio que semelhante
procedimento seja muito sensato.

 - Concordo consigo. , pelo contrrio, muito
prejudicial s mentalidades em desenvolvimento.
 - Exactamente. Mistress Boynton protegeu de tal
modo os garotos que nunca lhes permitiu ter contactos
com o exterior. Da resultou terem crescido... enfim,
nervosos. So acanhados, incapazes de estabelecer
amizade com desconhecidos... Isso  mau.
 -  muito mau.
 - No tenho dvidas de que as intenes de Mistress Boynton
eram boas, mas excedeu-se, exagerou.
 - Vivem todos em casa?
 - Vivem.
 - Nenhum dos filhos trabalha?
 - Oh, no! Elmer Boynton era rico. Deixou toda
a sua fortuna a Mistress Boynton, enquanto ela vivesse, mas na
condio de se destinar  manuteno da
famlia.
 - Portanto, eles dependem todos dela, financeiramente?
 -  verdade. E ela tem-nos encorajado a viver em
casa, em vez de sarem e procurarem empregos. Talvez isso no
tenha importncia, pois o dinheiro chega
e sobra... No precisam de emprego, embora eu creia
que, pelo menos para o sexo masculino, o trabalho 
uma espcie de tnico. Mas h ainda outra coisa: nenhum deles tem
qualquer passatempo. No jogam golfe, no vo a bailes nem a
outros lados onde se renem
jovens... Vivem num enorme casaro, na provncia, a
quilmetros de distncia de tudo. Confesso-lhe, doutor Gerard,
que no me parece certo.
 - Concordo consigo.
 - Nenhum deles tem o mnimo sentido da vida
social, falta-lhes o esprito de comunidade. Podem ser
uma famlia muito dedicada, mas vivem fechados em
si mesmos.
 - Nunca nenhum deles ou delas pensou em singrar sozinho?
 - Que eu saiba, no. Limitam-se a cruzar os
braos.
- Atribui as culpas disso a eles ou a Mistress Boynton?
 Jefferson Cope mudou nervosamente de posio.
 - Bem, creio que ela  mais ou menos responsvel, pois no os
criou como deveria. No entanto,
quando um jovem atinge a maturidade, depende dele
espernear e seguir o seu prprio caminho,  natural
que escolha a independncia.
 - Talvez isso seja impossvel... - observou o mdico,
pensativo.
 - Impossvel porqu?
 - H maneiras de impedir uma rvore de crescer,
Mister Cope.
 - Mas eles so saudveis, doutor Gerard!
 - O esprito, tal como o corpo, pode ser ano ou
enfezado.
 - Mas eles tambm so inteligentes!
 O Dr. Gerard suspirou e Cope prosseguiu:
 - No, doutor Gerard, um homem tem a direco
do seu destino nas suas prprias mos. Um homem
que se respeita, abre caminho sozinho e tira partido da
sua vida, no fica a um canto a torcer os polegares.
Nenhuma mulher devia respeitar um indivduo que
procede assim.
 O francs olhou-o com curiosidade e perguntou-lhe:
 - Suponho que se refere, em particular, a Mister Lennox
Boynton?
 - Sim, era em Lennox que pensava. Raymond
ainda  um rapaz, mas Lennox j tem 30 anos. E tempo de mostrar
de que  feito.
 - Deve ser uma vida difcil para a mulher?
 - Claro que  uma vida difcil para ela! Nadine 
uma excelente rapariga, que eu admiro muitssimo.
Nunca se queixou, mas no  feliz, doutor Gerard!
 to infeliz quanto pode ser.
 - Sim, creio que  muito possvel - admitiu o
mdico, a acenar com a cabea.

 - No sei o que pensa a tal respeito, doutor Gerard, mas eu
penso que existe um limite para o que
uma mulher deve suportar! Se estivesse no lugar de
Nadine, poria os pontos nos  a Lennox: ou mostrava o que
valia ou...
 - Ou, na sua opinio, ela deveria deix-lo?
 - Ela tem a sua prpria vida para viver, doutor Gerard. Se
Lennox no a aprecia como ela merece,
h outros homens que a sabero apreciar.
 - Como... o senhor, por exemplo?
 O americano corou, mas depois fitou o interlocutor
com uma dignidade simples.
 - Exactamente - respondeu. - No me envergonho dos meus
sentimentos por essa senhora. Respeito-a e quero-lhe
profundamente, mas s desejo a sua
felicidade. Se ela fosse feliz com Lennox, afastar-me-ia, sairia
de cena.
 - Mas assim...?
 - Assim, fico. Se ela precisar de mim, encontrar-me-!
 - , de facto, o perfeito nobre cavaleiro...
 - Como?
 - Meu caro, hoje em dia, o cavalheirismo s existe
na nao americana. Ao senhor basta-lhe servir a sua dama sem
esperana de recompensa, o que  muito admirvel! Que espera, ao
certo, poder fazer por ela?
 - A minha inteno  estar perto, se ela precisar
de mim.
 - E, se me permite, qual  a atitude da velha Mistress Boynton
a seu respeito?
 - Nunca tenho a certeza de nada, quando se trata
dessa senhora - admitiu Cope, devagar. - Como j
lhe disse, ela no gosta de contactos com o exterior.
Mas comigo tem sido diferente,  sempre amvel e trata-me como
se fosse da famlia.
 - Por outras palavras, aprova a sua amizade por
Mistress Lennox?
- Aprova.
 - No acha isso um pouco estranho?
 - Permita que lhe garanta, doutor Gerard, que
no h nada de desonroso em tal amizade - declarou
Jefferson Cope, em tom muito frio. -  puramente
platnica.
 - Meu caro, tenho a certeza absoluta disso. Repito,
no entanto, que  curioso o facto de Mistress Boynton encorajar
essa amizade. Sabe, Mister Cope, Mistress Boynton interessa-me...
interessa-me muito.
 -  uma mulher extraordinria, com grande fora
de carcter e uma personalidade vincada. Elmer Boynton depositava
grande f no seu critrio.
 - Tanta, que deixou os filhos inteiramente  sua
merc, no captulo financeiro. No meu pas, Mister Cope, a lei
no permite fazer tal coisa.
 - Na Amrica acreditamos muito na liberdade absoluta - declarou
Mr. Cope, e levantou-se.
 O mdico levantou-se tambm, nada impressionado com a
observao. J a ouvira antes, a pessoas de
diversas nacionalidades. O Dr. Gerard sabia que nenhuma raa,
nenhum pas e nenhum indivduo podia
ser considerado livre, mas sabia igualmente existirem
diferentes graus de sujeio.
 Foi para a cama pensativo e interessado.

V

 Sarah King estava parada no recinto do Templo, o
Haram-esh-Sherif, de costas para a Cpula do Rochedo. Chegava-lhe
aos ouvidos o murmrio de fontes,
enquanto vrios grupos de turistas passavam sem perturbar a paz
da atmosfera oriental.
 Era estranho, pensou Sarah, que um jebuseu tivesse feito
daquele cume rochoso uma eira e que David a

adquirisse por 600 ciclos de prata e nela erguesse um
altar. E agora ouviam-se ali as lnguas de turistas de
todas as naes... Voltou-se, admirou a mesquita que
cobria agora o altar e pensou se o templo de Salomo
se lhe teria comparado em beleza.
 Ouviu passos e viu um pequeno grupo sair da mesquita. Eram os
Boynton acompanhados por um dragomano tagarela. Lennox e Raymond
amparavam
Mrs. Boynton, Nadine e Mr. Cope vinham atrs e Carol fechava a
marcha. Ao afastarem-se, a jovem reparou em Sarah, hesitou e, num
impulso sbito, voltou a
correr para trs.
 - Desculpe - murmurou, ofegante. - Tenho
de... acho que lhe devo falar.
 - Sim?
 Carol tremia violentamente e estava muito plida.
 -  por causa... do meu irmo. Quando... quando lhe falou,
ontem  noite, deve t-lo considerado
muito grosseiro. Mas ele no queria... no o pde evitar... Oh,
acredite-me, por favor!
 Sarah achou tudo aquilo ridculo. Tanto o seu orgulho como o
seu bom gosto se sentiram ofendidos.
Por que motivo a abordaria uma desconhecida e lhe
pediria estupidamente desculpa pelo procedimento
grosseiro do irmo?
 Tremeu-lhe nos lbios uma resposta desabrida,
mas mudou logo de ideias. Havia algo fora do vulgar
naquele gesto e a jovem falava com uma sinceridade
ansiosa. O que levara Sarah a escolher a carreira de
mdica reagiu  atitude da jovem,  necessidade que
adivinhava nela.
 - Diga-me o que se passa - pediu, em tom encorajador.
 - Ele falou consigo no comboio, no falou?
 - Sim... pelo menos eu falei com ele.
 - Ah, sim, no poderia ser de outro modo! Mas,
compreende, a noite passada Ray estava com medo...
 - Com medo?
Carol corou.
 - Sei que parece absurdo, louco... Compreende, a
minha me est doente e no gosta... no gosta que arranjemos
amigos. Mas eu sei que o meu irmo... que
ele gostaria de ser seu amigo.
 Sarah sentiu-se interessada, mas Carol continuou,
sem lhe dar tempo de falar:
 - Sei que parece muito idiota o que estou a dizer,
mas ns somos... uma famlia estranha. - Lanou um
olhar rpido  sua volta, um olhar de medo. - No
me posso demorar... podem dar pela minha falta.
 - Porque no h-de ficar para trs, se lhe apetece?
Podamos regressar juntas.
 - Oh, no! - exclamou Carol, e recuou instintivamente. - No
posso fazer isso.
 - Porqu?
 - No posso. A minha me ficaria... ficaria...
 Sarah disse, em tom claro e firme:
 - Sei que, s vezes,  muito difcil aos pais compenetrarem-se
de que os filhos cresceram e, por isso,
continuam a tentar governar-lhes a vida. Mas no nos
devemos submeter a isso, temos o dever de defender
os nossos direitos.
 - No compreende... no faz a mnima ideia...
gaguejou Carol, a torcer nervosamente as mos.
 - s vezes cedemos porque temos medo de provocar discusses,
e as discusses so muito desagradveis. Mas eu creio que vale
sempre a pena lutar pela liberdade de aco.
 - Liberdade? - repetiu Carol, de olhos fixos. - Nunca nenhum
de ns foi livre... nem nunca ser.
 - Disparate! - exclamou Sarah, sem cerimnias.
 Carol inclinou-se para a frente e tocou-lhe no brao.
 - Escute, tenho de tentar faz-la compreender!
Antes de casar, a minha me, na realidade  minha
madrasta, era carcereira de uma priso. Meu pai era o
director e casou com ela. Bem, continuou a ser sempre
assim, ela continuou a ser carcereira, a nossa carcereira.  por
isso que a nossa vida equivale a estarmos
presos. - Olhou de novo  sua volta. - Deram pela
minha falta. Tenho de ir!
 Sarah agarrou-lhe num brao, quando ela se afastava.
 - Um momento. Precisamos de nos encontrar outra vez e de
conversar.
 - No posso. No conseguirei.
 - Pode, sim - afirmou a inglesa, em tom autoritrio. - V ao
meu quarto depois de ter subido para
se deitar.  o trezentos e dezanove.
 Largou-a e Carol correu atrs da famlia.
 Sarah ficou a segui-la com o olhar e s despertou
dos pensamentos em que mergulhara ao sentir o
Dr. Gerard a seu lado.
 - Bons dias, Miss King. Esteve, ento, a conversar com Miss
Carol Boynton?
 - Estive, sim. Deixe-me contar-lhe...
 E revelou ao mdico a sua conversa com a jovem.
 - Carcereira de uma priso, hem? - murmurou o
Dr. Gerard, pensativo. - Talvez isso seja significativo.
 - Quer dizer que  essa a causa da sua tirania?
O hbito que ficou da sua antiga profisso?
 Gerard abanou a cabea.
 - Est a encarar o assunto de um ponto de vista
errado. H uma profunda compulso subjacente. Ela
no ama a tirania porque foi carcereira. Digamos antes
que foi carcereira por amar a tirania. Na minha opinio,
foi um desejo secreto de poder sobre outros seres humanos que a
levou a adoptar tal profisso. H coisas
estranhas, como esta, sepultadas no inconsciente. Uma
fome de poder, uma fome de crueldade, um desejo selvagem de
despedaar... Tudo isto so legados das recordaes do passado
da nossa espcie. A crueldade, a
selvajaria e os desejos brutais existem, esto latentes,
Miss King. Ns recalcamo-los, negamo-lhes vida consciente... mas,
s vezes, so to fortes que os nossos esforos se perdem.
- Eu sei - murmurou Sarah, sem poder conter
um estremecimento.
 - Tudo isso nos rodeia, hoje, em credos polticos
e na conduta das naes.  uma reaco ao humanitarismo, 
piedade,  fraternal boa vontade. s vezes, os
credos soam bem, um regime  sensato ou um governo
benfico... mas so sempre impostos pela fora, assentam sempre
numa base de crueldade e de medo. Ao
abrirem as portas, esses apstolos da violncia deixam
sair a antiga selvajaria, o antigo prazer na crueldade
pela crueldade! O homem  um animal com um equilbrio muito
delicado e que tem uma necessidade primordial: sobreviver.
Avanar demasiado depressa  to
fatal como deixar-se ficar para trs. Tem de sobreviver! Tem,
talvez, de conservar uma parte da antiga
selvajaria, mas no deve, no deve de modo nenhum,
deific-la!
 Seguiu-se uma pausa, finda a qual Sarah perguntou:
 - Acha que Mistress Boynton  uma espcie de
sdica?
 - Tenho quase a certeza disso. Penso que sente
prazer em infligir dor; dor mental, note, no dor fsica. Isso
 muito mais raro e muito mais difcil de suportar. Ela gosta de
dominar outros seres humanos e
de os fazer sofrer.
 -  uma bestialidade.
 Gerard contou-lhe a sua conversa com Cope.
 - Ele no faz ideia do que se passa? - perguntou
Sarah, pensativa.
 - Como quer que faa? No  um psiclogo.
 - Claro. No tem as nossas repugnantes mentalidades.
 - Exactamente. Tem uma decente, justa, sentimental e normal
mentalidade americana. Acredita
mais facilmente no bem do que no mal. V que a atmosfera em que
a famlia Boynton vive est errada,
mas atribui esse facto a uma m aplicao da dedicao de
Mistress Boynton e no a maleficncia activa.
- Isso deve diverti-la.
 - Suponho que sim.
 - Mas porque no se libertam eles? - perguntou
Sarah, impaciente. - Podiam!
 - Est enganada. Eles no podem. Viu alguma vez
uma velha experincia que se costuma fazer com um
galo? Traa-se uma linha a giz, no cho, e encosta-se
nela o bico do galo. O bicho julga que est l amarrado e no 
capaz de levantar a cabea. Acontece o mesmo queles infelizes.
Lembre-se de que ela os tem torturado desde crianas e de que o
seu domnio tem sido
mental. Convenceu-os, hipnoticamente, de que no
podem desobedecer-lhe. A maioria das pessoas chamaria
tolice a semelhante ideia, mas ns dois sabemos que
no . Ela f-los acreditar que dependem inevitvel e
absolutamente dela. Esto presos h tanto tempo que
se as portas da priso se abrissem de repente nem dariam por
isso! Um deles, pelo menos, j nem quer ser
livre. Teriam todos medo da liberdade.
 - Que suceder quando ela morrer? - perguntou
Sarah, em tom prtico.
 Gerard encolheu os ombros.
 - Depende do tempo que isso levar a acontecer.
Se acontecesse agora... enfim, creio que talvez ainda
no fosse demasiado tarde. O rapaz e a rapariga ainda
so jovens e impressionveis e creio que se tornariam
seres humanos normais. Quanto a Lennox,  possvel
que j seja tarde de mais. Parece-me um homem que
abandonou definitivamente a esperana, que vive resignado como
um irracional.
 - A mulher dele devia ter feito qualquer coisa! - exclamou
Sarah, impaciente. - Devia t-lo arrancado
quilo.
 - Duvido... No me admiraria que tivesse tentado... e falhado.
 - Acha que ela tambm est sob... sob a influncia?
 - No. No creio que a velha tenha qualquer poder sobre ela,
o que a leva a odi-la com um dio feroz. Repare nos seus olhos.
Sarah franziu a testa.
 - No consigo compreend-la...  nora. Ela saber o que se
passa?
 - Acho que deve ter uma ideia muito ntida.
 - Oh, aquela velha precisava de ser assassinada!
Arsnico no ch matinal, seria a minha receita. - E, numa
mudana brusca de assunto, Miss King
perguntou: - E a respeito da rapariga mais nova, da
ruiva?
 - No sei. - O Dr. Gerard franziu a testa. - H, quanto a ela,
algo ainda mais estranho. Ginevra
Boynton  filha da velha.
 - Nesse caso, deveria ser diferente... Ou no?
 - No creio que - respondeu o mdico, devagar -,
quando a mania do poder (e a fome de crueldade) se
apossa de um ser humano, lhe permita poupar seja
quem for, nem mesmo aqueles que lhe so mais queridos. - Gerard
fez uma pausa, antes de perguntar: -  crist, mademoiselle?
 - No sei... Dantes pensava que no era nada,
mas agora... no tenho a certeza. Sinto que... sinto
que se pudesse apagar tudo isto - desenhou um gesto
violento, com um brao -, todos os edifcios, todas as
seitas e todas as igrejas ferozmente antagnicas, poderia ver a
serena figura de Cristo entrar em Jerusalm
montado num burro... e acreditar n`Ele.
 - Eu creio pelo menos num dos principais dogmas da f crist:
contentamento com um lugar humilde. - disse o Dr. Gerard,
gravemente. - Sou mdico e sei
que a ambio, o desejo de ter xito e poder, leva 
maioria das doenas da alma humana. Se o desejo se
realiza, conduz  arrogncia,  violncia, e por fim, 
saciedade; se no se realiza... ah, se no se realiza, que
todos os manicmios de alienados se ergam e dem o
seu testemunho! Esto cheios de seres humanos que
foram incapazes de enfrentar a sua mediocridade, a
sua insignificncia e ineficcia, e por isso criaram vias
de fuga  realidade, a fim de se isolarem para sempre
da vida.

 -  uma pena que a velha Boynton no esteja
num desses manicmios!
 - No, o lugar dela no  entre os falhados...
 pior do que isso. Ela venceu, compreende? Viu realizado o seu
sonho.
 - No deviam acontecer tais coisas - murmurou
Sarah, sem poder dominar outro estremecimento.

VI

 Sarah duvidava que Carol Boynton comparecesse
ao encontro daquela noite. Receava que a rapariga tivesse sofrido
uma reaco forte, depois das suas semi-confidncias daquela
manh. No entanto, preparou-se
para a visita: vestiu um roupo de cetim azul e acendeu a sua
lamparina a lcool, para ferver gua.
 Estava quase a desistir de esperar (passava da uma
hora da manh) e a deitar-se quando bateram  porta.
Abriu-a e recuou rapidamente, para deixar Carol entrar.
 - Receava que se tivesse deitado...
 - Oh, no! - respondeu Sarah, com o cuidado
de se mostrar despreocupada. - Estava  sua espera.
Beba uma chvena de ch.  autntico Lapsang Souchong.
 Carol, que parecera nervosa e hesitante, aceitou o
ch e um biscoito e mostrou-se mais calma.
 - Isto  divertido - comentou Sarah, a sorrir.
 Carol pareceu um pouco assustada e respondeu,
sem muita convico:
 - Sim... suponho que sim.
 - Lembra-me os banquetes da meia-noite, que
costumvamos fazer na escola... Creio que no andou
na escola?
 - No. Nunca samos de casa. Tivemos uma perceptora... diversas
preceptoras.
- Nunca saram?
 - No. Temos morado sempre na mesma casa.
Esta vinda ao estrangeiro  a minha primeira viagem.
 - Deve ser uma grande aventura - comentou Sarah, em tom casual.
 - Oh, sem dvida! Parece um sonho.
 - Que levou a sua... madrasta a resolver vir ao estrangeiro?
 Carol encolheu-se, ao ouvir falar de Mrs. Boynton.
 - Vou ser mdica - apressou-se Sarah a explicar.
- Acabo de me bacharelar. A sua me, ou melhor, a
sua madrasta, interessa-me muito... como um caso clnico.
Confesso, at, que a considero um caso patolgico.
 Carol arregalou os olhos. Era evidente que semelhante ponto de
vista lhe parecia muito inesperado.
Sarah, porm, falara com uma inteno deliberada.
Compreendia que, para a famlia, Mrs. Boynton tinha
as propores de um dolo poderoso e obsceno, e estava decidida
a priv-la da sua feio mais aterradora.
 - Sim, existe uma espcie de mania de poderio,
uma doena que se apodera das pessoas. Tornam-se
muito autocrticas, exigem que tudo se faa exactamente como
desejam e torna-se muito difcil lidar com
elas.
 Carol pousou a chvena e exclamou:
 - Oh, estou to contente por ter vindo falar consigo!
Confesso-lhe que o Ray e eu nos temos sentido...
enfim, esquisitos. Enervamo-nos muito com a situao.
 - Ajuda sempre falar com uma pessoa de fora. No
crculo familiar corremos o risco de ver as coisas muito
apaixonadamente... - E, de sbito, perguntou, no
tom mais casual possvel: - Mas, se so infelizes, com
certeza j pensaram em sair de casa?
 - Oh, no! - exclamou Carol, assustada. - Como poderamos fazer
tal coisa! Quero... quero dizer, a
me no consentiria.

 - Mas no os poderia impedir. Voc, por exemplo, j  maior.
 - Tenho vinte e trs anos.
 - V?
 - Mas, mesmo assim, no vejo como... quero dizer, no saberia
aonde ir nem o que fazer. No temos
dinheiro nenhum, compreende?
 - No tm amigos que os recebessem?
 - Amigos? Oh, no, no temos ningum!
 - Quer dizer, ento, que nunca nenhum de vocs
pensou em sair de casa?
 - Creio que no. No podamos!
 Sarah achou pattico o espanto da jovem e mudou
de assunto:
 - Gosta da sua madrasta?
 Carol abanou a cabea, devagar, e respondeu em
voz baixa e assustada:
 - Odeio-a e o Ray tambm. Temos... temos desejado muitas vezes
que morresse.
 Sarah mudou de novo de assunto:
 - Fale-me do seu irmo mais velho.
 - Lennox? No sei o que ele tem. Quase nunca
fala, parece que anda sempre a sonhar... A Nadine est preocupada
com ele.
 - Gosta da sua cunhada?
 - Gosto. Nadine  diferente, mostra-se sempre
amvel. Mas  muito infeliz.
 - Por causa do seu irmo?

 - Sim.
 - So casados h muito tempo?
 - H quatro anos.
 - E viveram sempre l em casa.
 - Viveram.
 - A sua cunhada gosta disso?
 - No... - Carol acrescentou, aps uma pausa:
- Houve uma zanga terrvel, h cerca de quatro anos.
Como lhe disse, nunca nenhum de ns sai de casa.
Quero dizer, andamos pelo jardim e pelos terrenos e mais nada.
Mas Lennox saiu, uma noite, e foi a um
baile que havia em Fountain Springs. A me ficou furiosa, quando
descobriu... Foi terrvel. Depois disso,
convidou Nadine a ir l para casa e a ficar. Nadine era
uma prima pobre, afastada, do nosso pai e andava a
estudar para enfermeira. Passou um ms connosco...
e eu nem lhe sei explicar como foi emocionante ter algum de fora
connosco. Ela e Lennox apaixonaram-se
e a me disse que o melhor era casarem depressa e ficarem a viver
l em casa.
 - E Nadine conformou-se com isso?
 Carol hesitou.
 - No creio que lhe agradasse muito, mas tambm no se pode
dizer que se importasse, realmente,
Depois, mais tarde, quis-se ir embora... com Lennox,
evidentemente. ..
 - Mas no foram?
 - No. A me nem quis ouvir falar disso. Creio
que j no gosta da Nadine. Esta ... estranha, nunca
sabemos em que est a pensar. Tenta ajudar a Jinny,
mas a me no gosta.
 - Jinny  a sua irm mais nova?
 - E. Chama-se Ginevra.
 - Ela tambm ... infeliz?
 - Jinny tem-se mostrado muito esquisita, ultimamente. No a
compreendo. Foi sempre muito fraca
e... e a me exagera nos cuidados a seu respeito e isso
ainda a torna pior. Mas nos ltimos tempos anda estranha e s
vezes... assusta-me. Nem sempre sabe o
que est a fazer.
 - J consultou um mdico?
 - No. A Nadine aconselhou-o, mas a me disse
que no e a Jinny encheu-se de nervos e gritou que
no queria mdico nenhum. Estou preocupada com
ela. - De sbito, Carol levantou-se. - Estou a incomod-la. Foi
muito amvel deixar-me vir conversar
consigo... Deve considerar a nossa famlia muito estranha.

 - Oh, bem vistas as coisas, todos somos estranhos! Volte, sim?
E traga o seu irmo.
 - No se importa?
 - Absolutamente nada! Faremos uma espcie de
conspirao secreta... Gostaria de lhes apresentar um
amigo meu, o doutor Gerard.
 - Oh, parece to divertido! - exclamou Carol,
corada. - Oxal a me no descubra nada...
 - Como havia de descobrir? At amanh  mesma
hora, est bem?
 - Oh, sim! Depois de amanh talvez partamos.
 - Ento fica definitivamente combinado um encontro para amanh.
 Carol saiu do quarto e seguiu, em silncio, pelo
corredor fora. O seu quarto ficava no andar de cima.
Quando chegou, abriu a porta e estacou, petrificada,
no limiar. Mrs. Boynton estava sentada numa poltrona, de roupo
escarlate, junto da lareira.
 - Oh! - exclamou a jovem.
 - Onde estiveste, Carol? - perguntou a madrasta, com os
olhinhos pretos mergulhados nos dela.
 - Eu... eu...
 - Onde estiveste? - A voz era doce e abafada
 ,
mas possua aquele estranho tom de ameaa latente
que enchia o corao de Carol de um terror irracional.
 - Estive com Miss King... Sarah King.
 - A rapariga que falou a Raymond, ontem  noite?
 - Sim, me.
 - Fizeste planos para te voltares a encontrar com
ela?
 Carol moveu os lbios, mas no saiu nenhum som.
Acenou afirmativamente com a cabea.
 - Quando?
 - Amanh  noite.
 - No irs. Compreendes?
 - Sim, me.
 Mrs. Boynton tentou levantar-se e, maquinalmente, Carol avanou
e ajudou-a. A velha atravessou o
quarto, devagar, apoiada  bengala, e  porta parou
e fitou a rapariga.
 - No ters mais nada a ver com essa Miss King.
Compreendes?
 - Sim, me.
 - Repete.
 - No terei mais nada a ver com ela.
 - Muito bem.
 Mrs. Boynton saiu e fechou a porta.
 Carol sentiu-se agoniada. Atirou-se para cima da
cama, com o corpo sacudido pelos soluos.
 Era como se tivesse surgido  sua frente uma paisagem de sol,
rvores e flores... e as grades negras da
priso se tivessem cerrado de novo  sua volta.

VII

 - D-me um momento de ateno?
 Nadine virou-se, surpreendida, e encontrou o rosto
moreno e cheio de vivacidade de uma mulher nova e
desconhecida.
 - Com certeza - respondeu, ao mesmo tempo
que, inconscientemente, olhava para trs, por cima do
ombro.
 - Chamo-me Sarah King.
 - Sim?
 - Mistress Boynton, vou-lhe dizer algo que lhe
deve parecer muito estranho. Anteontem  noite conversei durante
muito tempo com a sua cunhada.
 Uma tnue sombra ofuscou a serenidade do rosto
de Nadine.
 - Falou com Ginevra?
 - No. Falei com Carol.
 A sombra dissipou-se e Nadine Boynton pareceu
satisfeita, mas muito surpreendida.

 - Ah, com Carol! Como conseguiu isso?
 - Ela foi ao meu quarto... muito tarde. - Viu a
outra arquear as sobrancelhas bem depiladas e acrescentou, com
certo embarao: - Estou certa de que
lhe deve parecer muito estranho...
 - De modo nenhum. Estou satisfeita, muito satisfeita, at. 
bom para Carol ter uma amiga com quem
conversar.
 - Ns... entendemo-nos muito bem. - Sarah esforou-se por
escolher as palavras com cuidado. - Por sinal, at combinmos
encontrar-nos de novo, na
noite seguinte.
 - E ento?
 - Carol no apareceu.
 - No? - A voz de Nadine era fria e calma e o
seu rosto, to sereno e plcido, no dizia nada a Sarah.
 - No. Ontem, quando passou pelo vestbulo, falei-lhe e ela no
me respondeu. Limitou-se a olhar-me
e a afastar-se, depressa.
 - Compreendo.
 Sarah no soube que dizer. Passado um bocado,
Nadine Boynton acrescentou:
 - Sinto muito. Carol ...  uma rapariga nervosa.
 Seguiu-se nova pausa, at que Sarah se encheu de
coragem:
 - Mistress Boynton, vou ser mdica e acho que
seria conveniente a sua cunhada no... no se isolar
tanto das pessoas.
 A outra fitou-a, pensativa.
 - Compreendo...  mdica, isso  diferente.
 - Percebe o que quero dizer? - perguntou Sarah, interessada.
 Nadine inclinou a cabea, ainda pensativa.
 - Tem toda a razo, claro, mas h dificuldades.
Minha sogra est doente e possui aquilo que considero
uma antipatia mrbida pela interferncia de estranhos
no crculo da nossa famlia.
 - Mas Carol  uma mulher adulta! - protestou
Sarah, revoltada.
- Oh, no, no ! Em corpo, sim, mas em esprito, no. Se falou
com ela, deve ter notado isso. Numa
emergncia, agiria como uma criana assustada.
 - Acha que foi isso que sucedeu? Acha que ela...
teve medo?
 - Creio, Miss King, que a minha sogra ordenou a
Carol que no tivesse mais nada a ver consigo.
 - E Carol cedeu  sua vontade?
 -  realmente capaz de a imaginar a proceder de
outro modo?
 Os olhos das duas mulheres fitaram-se. Sarah sentiu que, sob
o disfarce das palavras convencionais, se
compreendiam. Nadine avaliava a situao, mas no
estava disposta a discuti-la.
 Sarah sentiu-se desencorajada. Duas noites atrs,
meia batalha parecera-lhe ganha. Esperara que os seus
encontros secretos lhe permitissem incutir em Carol o
esprito da revolta... a Carol e a Raymond tambm.
(No era, afinal, em Raymond que pensava, desde o
princpio?) E logo no primeiro assalto fora ignominiosamente
vencida por aquele monte informe de carne inchada e olhos
matreiros! Carol capitulara sem
lutar.
 - No est certo! - protestou.
 Nadine no respondeu e o seu silncio causou a Sarah a sensao
de uns dedos gelados a envolverem-lhe
o corao. Esta mulher sabe melhor do que eu que a
situao no tem remdio, pensou. "Vive com eles!
 As portas do elevador abriram-se e Mrs. Boynton
saiu, apoiada a uma bengala e amparada por Raymond.
 Sarah estremeceu, ao ver os olhos da velha passarem dela para
Nadine e voltarem a fixar-se nela. Estivera preparada para ver
neles antipatia e, at, dio,
mas no o que viu, no uma expresso de gozo triunfante e
maldoso. Sarah afastou-se e Nadine foi juntar-se aos outros dois.
 - Ol, Nadine! - saudou a velha. - Sentar-me-ei e descansarei
um pouco, antes de sair.

 Instalaram-na numa cadeira de espaldar direito e
Nadine sentou-se a seu lado.
 - Com quem estavas a falar, Nadine?
 - Com uma tal Miss King.
 - Ah, sim, a rapariga que falou com Raymond,
na outra noite! Ray, porque no vais conversar agora
com ela? Est ali, junto da escrivaninha.
 Mrs. Boynton abriu a boca num sorriso prfido, ao
olhar para o rapaz. Raymond corou, virou a cabea e
murmurou qualquer coisa.
 - Que disseste, filho?
 - No quero falar com ela.
 - Bem me parecia. No falars com ela... no poderias, por
muito que o desejasses! - Tossiu, de sbito, com uma tosse
abafada. - Estou a apreciar muito
esta viagem, Nadine. No a perderia por nada deste
mundo.
 - No? - perguntou a nora, em tom inexpressivo.

 - Ray...
 - Diga, me?
 - Vai-me buscar uma folha de papel, quela mesa
 do canto.
 Raymond foi, obedientemente. Nadine levantou a
 cabea e observou no o rapaz, mas sim a sogra.
 Mrs. Boynton estava inclinada para a frente, de narinas
dilatadas de prazer. Ray passou por Sarah, que levantou a cabea,
com uma sbita expresso de esperana. Mas a esperana
dissipou-se quando ele tirou
` uma folha de papel da caixa e retrocedeu pelo mesmo
= caminho.
<

 Raymond tinha a testa perlada de suor e estava lvido quando
se reuniu s duas mulheres.
 - Ah! - exclamou Mrs. Boynton, muito baixo e
docemente.
 Depois viu os olhos de Nadine fitos nela e os seus
brilharam, colricos.
 - Onde est Mister Cope, esta manh?
Nadine baixou outra vez a cabea e respondeu,
calma:
 - No sei. No o vi.
 - Gosto dele, gosto muito dele. Devemos conviver com ele. Isso
agradar-te-ia, no agradaria?
 - Agradaria. Tambm gosto muito dele.
 - Que tem o Lennox ultimamente, Nadine? Parece muito taciturno
e calado. No se passa nada entre
vocs, pois no?
 - Claro que no. Porque havia de passar?
 - No sei... As pessoas casadas nem sempre se
entendem bem. Talvez te sentisses mais feliz se vivesses na tua
prpria casa?
 Nadine no lhe respondeu.
 - Que dizes, hem? A ideia agrada-te?
 Nadine abanou a cabea e redarguiu, a sorrir:
 - No creio que lhe agradasse a si, me.
 Mrs. Boynton pestanejou e disse, venenosamente:
 - Foste sempre contra mim, Nadine.
 - Lamento que pense assim - respondeu a outra, imperturbvel.
 A mo da velha cerrou-se na bengala e o seu rosto
pareceu tornar-se um pouco mais vermelho.
 - Esqueci-me das minhas gotas - disse, em tom
diferente. - Vai busc-las, Nadine.
 - Pois sim.
 Nadine levantou-se e dirigiu-se para o elevador. Os
olhos de Mrs. Boynton seguiram-na. Raymond estava
sentado na cadeira, com uma expresso de estupidez e
angstia.
 Quando entrou na suite que ocupavam, Nadine encontrou Lennox
sentado junto da janela, com um livro
na mo. Mas no estava a ler.
 - Ol, Nadine! - exclamou, sobressaltado.
 - Vim buscar as gotas da me, que as esqueceu.
 Entrou no quarto da sogra, pegou num frasco e
contou cuidadosamente um certo nmero de gotas para um copinho,
que acabou de encher de gua. Ao
passar pela sala, parou de novo.

 - Lennox...
 O marido s lhe respondeu passados momentos,
como se a mensagem tivesse uma longa distncia a
percorrer antes de chegar ao seu destino.
 - Desculpa - murmurou, por fim. - Que queres?
 Nadine ps o copo em cima da mesa e depois colocou-se ao lado
do marido.
 - Lennox, olha para o sol, l fora, atravs da janela... olha
para a vida.  bela! Podamos estar l fora, no meio dela, em vez
de metidos aqui dentro, a
v-la atravs dos vidros.
 Seguiu-se nova pausa.
 - Desculpa... - repetiu Lennox. - Queres sair?
 - Quero, quero sair. Quero sair contigo, quero ir
para o sol, para a vida... os dois juntos.
 Ele pareceu encolher-se na cadeira.
 - Nadine, minha querida... temos de falar outra
vez em tudo isso?
 - Temos, sim. Partamos, vivamos a nossa prpria
vida em qualquer lado.
 - Mas como? No temos dinheiro.
 - Podemos ganhar dinheiro.
 - Como? Que podemos fazer? Eu no tenho especializao nenhuma.
H milhares de homens... milhares de profissionais experientes,
desempregados. No
conseguiramos.
 - Eu ganharia para os dois.
 - Minha querida, no chegaste, sequer, a completar o teu curso.
No h esperana,  impossvel.
 - No! O que no tem esperana e  impossvel 
a nossa vida presente.
 - No sabes do que ests a falar. A me  muito
boa para ns, proporciona-nos todos os luxos...
 - Excepto a liberdade. Faz um esforo, Lennox!
Parte comigo agora... hoje...
 - Creio que enlouqueceste, Nadine.
 - No, eu estou no meu juzo, no meu juzo perfeito. Quero uma
vida minha, contigo, uma vida ao sol
e no asfixiada pela sombra de uma velha tirana, que
se delicia a tornar-nos infelizes.
 - A me pode ser autocrata...
 - A tua me  louca!
 - Isso no  verdade... Tem uma excelente cabea
para os negcios.
 - Talvez tenha.
 - Ela no pode viver sempre, Nadine. Tem sessenta e tal anos
e est muito doente. Quando morrer, o
dinheiro do meu pai ser repartido igualmente por todos ns.
Lembras-te de ela nos ler o testamento?
 - Quando morrer talvez seja tarde de mais.
 - Tarde de mais?
 - Tarde de mais para ser feliz.
 - Tarde de mais para ser feliz... - repetiu Lennox, e
estremeceu, de sbito.
 Nadine aproximou-se mais e ps-lhe a mo no
ombro.
 - Amo-te, Lennox. Trava-se uma batalha entre a
tua me e eu. Ests do lado dela ou do meu?
 - Do teu... do teu!
 - Ento faz o que te peo.
 -  impossvel!
 - No, no  impossvel. Pensa que podamos ter
filhos, Lennox...
 - A me quer que os tenhamos, j o disse...
 - Bem sei, mas eu no trarei a este mundo crianas condenadas
a viverem  sombra da mulher que os
criou a vocs. A tua me pode influenci-los a vocs,
mas sobre mim no tem poder nenhum.
 - s vezes irrita-la, Nadine... - murmurou Lennox. - No 
sensato.
 - Ela s se irrita porque sabe que no pode influenciar o meu
esprito nem mandar nos meus pensamentos!
 - Sei que s sempre delicada e correcta com ela,

 que s maravilhosa... e demasiado boa para comigo.
 Quando disseste que casarias comigo, foi como a realizao de
um sonho inacreditvel.
 - Fiz mal em casar contigo - afirmou Nadine,
 muito calma.
 - Sim, fizeste mal... - murmurou o marido, desesperado.
 - No compreendes. O que quero dizer  que
 tu me terias seguido se, ento, eu me fosse embora e
' te pedisse que me seguisses. Sim, creio que terias feito
 isso... No tive inteligncia suficiente para compreender a tua
me e o que ela queria... Recusas-te a partir? No te posso
obrigar, mas eu sou livre, posso
 partir! E penso... penso que partirei.
 Ele fitou-a, incrdulo, e pela primeira vez respondeu-lhe sem
hesitar, como se o marasmo dos seus pensamentos tivesse levado
uma sacudidela:
 - Mas tu no podes fazer isso! A me... a me
 no quereria ouvir tal coisa!
 - No me poderia impedir de partir.
 - No tens dinheiro.
 - Poderia arranj-lo. Ganh-lo, pedi-lo empresta' do, roub-lo,
at! Tens de compreender que a tua me
 no exerce poder nenhum sobre mim! Posso ir ou ficar, conforme
me aprouver... e comeo a pensar que j
 suportei esta vida tempo suficiente.
i - Nadine... no me deixes... no me deixes...
1 Ela olhou-o, pensativa.



f
 - No me deixes, Nadine! - pediu, como uma
 criana.
 A mulher virou a cabea, para que ele no visse a
 mgoa dos seus olhos, e ajoelhou a seu lado.
 - Ento parte comigo. Parte comigo! Tu podes,
 tu podes se quiseres!
 Lennox recuou, para fugir dela.
 - No posso! No posso! No tenho... Deus me
 valha, no tenho coragem!

VIII

 O Dr. Gerard entrou no escritrio da agncia de
viagens e encontrou Sarah King ao balco.
 - Bons dias, doutor! Vim tratar das formalidades
da minha viagem a Petra. Constou-me que afinal, tambm vai.
 -  verdade, verifiquei que posso ir.
 -  muito agradvel.
 - Formaremos um grupo grande?
 - Parece que sero mais duas mulheres e ns
dois. A lotao de um carro.
 - Ser delicioso! - afirmou o mdico, e inclinou
a cabea, corts.
 Tratou dos seus assuntos e, pouco depois, com o
correio que recebera, juntou-se a Sarah, que ia a sair
do escritrio. Estava um dia de sol, embora com uma
aragem fresca.
 - Que notcias tem dos nossos amigos, os Boynton? - perguntou
o Dr. Gerard. - Estive em Belm,
na Nazar e noutros lugares, numa excurso de trs
dias.
 Lenta e contrariadamente, Sarah relatou a sua tentativa falhada
para estabelecer contacto.
 - Enfim, falhei - concluiu. - E eles partem
hoje.
 - Para onde vo?
 - No fao a mnima ideia. Tenho a sensao de
que fiz um grande papel de idiota.
 - Em que sentido?
 - No sentido de interferir na vida dos outros.
 -  uma questo de opinio.
 - Quer dizer que  uma questo de opinio achar
se devemos interferir ou no?

 - Sim.
 - Interfere?
 - Se o que pretende perguntar  se tenho o hbito
de me meter nos assuntos dos outros, respondo-lhe
francamente que no.
 - Nesse caso, acha que errei, ao tentar interferir?
 - No. Interpretou-me mal, Miss King. O assunto presta-se a
discusso. Se vemos cometer um erro
devemos tentar corrigi-lo? A nossa interferncia pode
fazer bem, mas tambm pode causar um mal incalculvel. 
impossvel estabelecer um modo fixo de procedimento. H certas
pessoas que so verdadeiramente
geniais na arte de interferir, fazem-no sempre bem;
outras, pelo contrrio, no tm habilidade nenhuma
e mais lhes valeria estarem quietas. H, tambm, a
questo da idade. A gente nova tem a coragem dos
seus ideais e das suas convices, os seus valores so
mais tericos do que prticos. Ainda no aprenderam,
por experincia, que o facto contradiz a teoria. Quando temos f
em ns e na justia do que fazemos, conseguimos muitas vezes
resultados valiosos! (E, s vezes, tambm fazemos muito mal.) Por
outro lado, o
indivduo de meia-idade tem experincia, aprendeu
que tanto o mal como o bem, talvez mais aquele do
que este, resultam de tentar interferir e, por isso,
sensatamente, cobe-se de se meter onde no  chamado.
Assim, o resultado  equilibrado: os jovens entusiastas
fazem bem e mal; os prudentes de meia-idade no fazem uma coisa
nem outra!
 - Isso no ajuda muito - protestou Sarah.
 - Uma pessoa poder, jamais, ajudar outra? O problema  seu,
no meu.
 - Quer dizer que no tenciona fazer nada acerca
dos Boynton?
 - No. Eu no teria nenhuma probabilidade de
xito.
 - Ento eu tambm no teria?
 - Talvez tivesse.
 - Porqu?
 - Porque tem qualidades especiais. A atraco da
sua juventude e do seu sexo.
- Do meu sexo? Ah, compreendo!
 - Voltamos sempre ao sexo, no voltamos? O facto de ter falhado
com a jovem no implica que falhe
tambm com o irmo. O que me disse (e o que Carol
lhe contou), indica claramente o que pode ameaar a
autocracia de Mistress Boynton. O filho mais velho,
Lennox, desafiou-a encorajado pela fora da sua virilidade
juvenil, saiu de casa a ocultas e foi a bailes.
O desejo de um homem por uma companheira foi
mais forte do que a influncia hipntica da madrasta.
Mas a velha tinha perfeita conscincia da fora do sexo
(deve ter visto muitos exemplos durante a sua carreira)
e resolveu o assunto inteligentemente: levou para casa
uma rapariga bonita, mas pobre, e encorajou o casamento, o que
lhe proporcionou, ao mesmo tempo, outra escrava.
 Sarah abanou a cabea.
 - No creio que Mistress Lennox seja uma escrava.
 - Talvez no, de facto. Suponho que, em virtude
de ser uma rapariga pacata e dcil, Mistress Boynton
subestimou a sua fora de vontade e de carcter. Nessa
altura, Nadine era muito jovem e inexperiente e no
soube avaliar a situao. Avalia-a agora, tarde de mais.
 - Supe que ela abandonou a esperana?
 O Dr. Gerard abanou a cabea, duvidoso.
 - Se tem quaisquer planos, ningum est ao corrente deles. H
certas possibilidades, no respeitante a
Cope. O homem  um animal naturalmente ciumento
e o cime  uma fora poderosa. Talvez ainda seja possvel
acordar Lennox Boynton.
 - E parece-lhe - Sarah adoptou propositadamente um tom muito
prtico e profissional - que existe
alguma possibilidade de eu conseguir qualquer coisa
com Raymond?
 - Parece-me que sim.
 Sarah suspirou.
 - Acho que devia ter tentado... Enfim, agora 
tarde de mais. Alm disso, no me agrada a ideia.
- A culpa  de ser inglesa! - exclamou o mdico,
divertido. - Os Ingleses tm um complexo acerca do
sexo, acham que no  muito decente.
 A rplica indignada de Sarah no o impressionou.
 - Sim, sim, sei que  muito moderna, que emprega livremente,
em pblico, as palavras mais desagradveis que se encontram no
dicionrio, que  muito profissional e absolutamente desinibida!
Mesmo assim
 ,
repito, possui as mesmas caractersticas raciais da sua
me e da sua av. Continua a ser a miss inglesa
cheia de rubores, embora no se ruborize.
 - Nunca ouvi tanto disparate!
 Absolutamente imperturbvel e com um brilho
maroto no olhar, o Dr. Gerard acrescentou:
 - Por sinal, o rubor torna-a muito encantadora!
 Desta vez Sarah no soube que responder.
 O Dr. Gerard apressou-se a tirar o chapu e a declarar:
 - Despeo-me, antes que tenha tempo de comear a dizer tudo
quanto pensa.
 Deixou-a e entrou no hotel.
 Sarah seguiu o mesmo caminho, mais devagar.
 Havia muita actividade e partiam vrios carros
cheios de malas. Lennox, Nadine e Mr. Cope estavam
junto de um grande automvel, a superintender no
carregamento, e um dragomano gordo falava com Carol, com uma
fluncia ininteligvel.
 Sarah passou por eles e entrou no hotel. Mrs. Boynton,
aconchegada num casaco grosso, estava sentada
numa cadeira, a aguardar o momento da partida. Ao
v-la, Sarah sentiu-se indignada e repugnada.
 Achara Mrs. Boynton uma figura sinistra, uma encarnao da
maldade diablica, mas de sbito via nela
uma criatura pattica e impotente. Nascer com uma
to grande fome de poder, com um desejo to insacivel de
domnio, e conseguir apenas uma tiraniazinha
domstica! Se ao menos os seus filhos a pudessem ver
como Sarah a via naquele momento, se a vissem como
ela a via: um objecto de compaixo, uma velha estpida e m, que
passara a vida numa atitude falsa!
 Impulsivamente, foi ter com ela.
 - Adeus, Mistress Boynton - despediu-se. - Desejo-lhe boa
viagem.
 A velha fitou-a e nos seus olhos a maldade e a indignao
debateram-se numa luta cega.
 - Pretendeu ser muito grosseira comigo - prosseguiu Sarah
(Estaria doida? Que demnio a levaria a
falar daquela maneira?) -, tentou impedir o seu filho
e a sua filha de travarem amizade comigo. No acha
semelhante procedimento muito idiota e infantil? Gosta de parecer
uma espcie de papo, de monstro, mas
na realidade  pattica e ridcula. No seu lugar, desistiria
dessa estpida representao. Calculo que me detestar pelo que
lhe estou a dizer, mas falo sinceramente e com a esperana de que
as minhas palavras
produzam algum efeito. Ainda se podia divertir um
bocado, sabe?  muito melhor ser cordial e amvel, e
a senhora podia ser as duas coisas, se tentasse.
 Mistress Boynton estava petrificada numa imobilidade total. Por
fim passou a lngua pelos lbios secos,
abriu a boca... mas as palavras no saram.
 - V, diga! - encorajou-a Sarah. - O que me
disser no ter importncia, mas a senhora pense no
que eu lhe disse.
 As palavras ouviram-se, finalmente, numa voz
que, apesar de baixa e rouca, era penetrante. Sarah
achou estranho que os olhos de basilisco da velha no
a fitassem e, sim, qualquer ponto por cima do seu ombro, como se
em vez de se dirigir a ela se dirigisse a
qualquer esprito familiar:
 - Eu nunca esqueo! Lembre-se disso. Nunca esqueci
nada; nem uma aco, nem um nome, nem um rosto!
 As palavras em si no diziam nada, mas o veneno
que as revestia obrigou Sarah a recuar um passo. Depois Mrs.
Boynton deu uma gargalhada, uma gargalhada horrvel.

 - Pobre velha! - exclamou a rapariga e, com um
encolher de ombros, virou-lhe as costas.
 Ao dirigir-se para o elevador, quase chocou com
Raymond Boynton. Obedecendo, de novo, a um impulso, disse-lhe,
muito depressa:
 - Adeus. Espero que se tenha divertido muito.
Talvez nos voltemos a encontrar, um dia. - Sorriu-lhe, com um
sorriso amigo e terno, e afastou-se.
 Raymond ficou parado, como se tivesse sido transformado em
pedra. Estava to absorto nos seus pensamentos que um homenzinho
de grande bigode, que
pretendia sair do elevador, teve de repetir vrias vezes:
 - Pardon.
 Por fim Raymond percebeu, afastou-se e murmurou:
 - Desculpe... estava... estava a pensar.
 - Ray, vai buscar a Jinny, sim? - pediu-lhe Carol. - Ela voltou
para o quarto e so horas de partirmos.
 - Est bem, dir-lhe-ei que tem de vir j - respondeu o rapaz,
e entrou no elevador.
 Hercule Poirot seguiu-o com o olhar, de sobrancelhas arqueadas
e a cabea um pouco inclinada para o
lado, como se estivesse  escuta. Depois acenou com
a cabea, com um ar de convico, atravessou a sala
e observou bem Carol, que se reunira  me.
 - Pardon, sabe-me dizer o nome daquelas pessoas? - perguntou
a um criado.
 - O nome de famlia  Boynton, Monsieur. So
americanos.
 - Obrigado - agradeceu o detective.
 No terceiro andar, quando se dirigia para o seu
quarto, o Dr. Gerard passou por Raymond e Ginevra,
que se encaminhavam para o elevador.
 Antes de entrarem, Ginevra disse:
 - Espera um momento, Ray... Espera por mim
no elevador.
 Retrocedeu a correr, alcanou o mdico e murmurou:
- D-me licena, preciso de falar consigo.
 O Dr. Gerard olhou-a, surpreendido, e ela aproximou-se mais e
agarrou-lhe num brao.
 - Vo-me levar e talvez me matem... No lhes
perteno, sabe? O meu apelido verdadeiro no  Boynton. - Falava
muito depressa, a atropelar as palavras.
- Vou-lhe confessar um segredo: tenho sangue real,
sou herdeira de um trono!  por isso...  por isso que
estou cercada de inimigos. Tentam envenenar-me e
muitas coisas mais! Se pudesse ajudar-me a fugir...
calou-se, de sbito, e o mdico ouviu passos.
 - Jinny...
 Bela no seu gesto brusco e assustado, a rapariga levou um dedo
aos lbios, lanou um olhar implorativo
ao mdico e deixou-o, a correr.
 - Vou j, Ray!
 O Dr. Gerard seguiu o seu caminho, de sobrancelhas franzidas
e a abanar lentamente a cabea.

IX

 Partiam naquela manh para Petra. Quando desceu, Sarah
encontrou uma mulheraa de aspecto autoritrio e nariz achatado,
na qual j reparara antes, a
protestar veementemente acerca do tamanho do automvel.
 - E muitssimo pequeno! Quatro passageiros e
um dragomano? Leve esse carro, por favor, e traga outro de
tamanho apropriado.
 Em vo o representante da agncia turstica ergueu
a voz. Os carros que utilizavam eram sempre daquele
tamanho, muito confortveis, e um automvel maior
no convinha para viajar no deserto...
 A mulheraa caiu-lhe em cima, metaforicamente
falando, como um grande rolo compressor. Depois dedicou a sua
ateno a Sarah:

 - Miss King?... Eu sou Lady Westholme. Estou
certa de que, como eu, concorda que este carro  absolutamente
inadequado, quanto a tamanho?
 - Bem - respondeu Sarah, cautelosa -, concordo que um automvel
maior seria mais confortvel...
 O agente murmurou que um carro maior aumentaria o preo.
 - O preo inclui tudo - afirmou Lady Westholme, firmemente -
e eu recusar-me-ei a sancionar
qualquer aumento. Nos prospectos diz, com todas as
letras: em automvel espaoso e confortvel. Cumpra os termos
do contrato.
 O homem deu-se por vencido, disse que ia ver o
que podia fazer e abalou, cabisbaixo.
 Lady Westholme voltou-se para Sarah, com um
sorriso triunfante no rosto curtido pelo tempo e as
grandes narinas frementes de exultao.
 Lady Westholme era uma figura muito conhecida
no mundo da poltica inglesa. Quando Lorde Westholme, um par de
meia-idade e alma simples, cujos nicos interesses na vida eram
caar e pescar, regressava
de uma visita aos Estados Unidos, uma das suas companheiras de
viagem era uma tal Mrs. Vansittart. Pouco depois, Mrs. Vansittart
tornou-se Lady Westholme,
numa unio citada amide como um dos exemplos dos
perigos das viagens ocenicas... A nova Lady Westholme andava
sempre vestida de tweed e de sapatos grossos, criava ces,
implicava com a gente da aldeia e
obrigava implacavelmente o marido a interessar-se pela
vida pblica. Ao compreender, porm, que a poltica
no era, nem seria nunca, o mtier de Lorde Westholme, teve a
generosidade de consentir que ele continuasse a dedicar-se s
suas actividades desportivas,
enquanto ela prpria se candidatava ao Parlamento.
Eleita por substancial maioria, lanou-se com todo o
vigor e todo o entusiasmo na carreira poltica. No tardaram a
aparecer caricaturas suas, o que  sempre um
sinal certo de xito. Como figura pblica, defendia os
valores tradicionais da Vida Familiar e das Obras de
Caridade Femininas e tinha opinies firmes no que
respeitava  agricultura,  habitao e  extino dos
bairros de lata. Era muito respeitada e gozava de uma
antipatia quase geral, o que no diminua nada a possibilidade
de lhe ser concedido um subsecretariado,
quando o seu partido voltasse ao poder.

 Lady Westholme viu, com grande satisfao, o automvel
afastar-se, e comentou:

 - Os homens tm sempre a mania de pensar que
podem impor a sua vontade s mulheres.
 Sarah achou que s um homem muito corajoso teria a veleidade
de se julgar capaz de impor a sua vontade a Lady Westholme...
Apresentou-lhe o Dr. Gerard, que sara naquele momento do hotel.
 - O seu nome no me  desconhecido, evidentemente - declarou
Lady Westholme, enquanto lhe
apertava a mo. - Outro dia estive a falar com o professor
Clemenceaux, em Paris. Ultimamente tenho estudado muito a fundo
a questo do tratamento dos
loucos indigentes. Vamos l para dentro, enquanto esperamos por
um carro melhor?
 Uma senhora baixinha, de meia-idade e farripas de
cabelo grisalho, entrou atrs deles. Era Miss Amabel
Pierce, o quarto membro do grupo.
 -  uma mulher de carreira, Miss King?
 - Acabo de me bacharelar em Medicina.
 - ptimo! - exclamou Lady Westholme, com
condescendente aprovao. - Acredite, pois sou eu
que lho digo, que se alguma coisa se conseguir, s mulheres se
ficar a dever.
 Constrangidamente consciente, pela primeira vez
na sua vida, do seu sexo, Sarah foi atrs da outra e
sentou-se ao lado dela.
 Enquanto esperavam, Lady Westholme informou-os de que recusara
um convite para ficar na residncia
do Alto-Comissrio, enquanto permanecesse em Jerusalm.
No desejava de maneira nenhuma ter os meus
movimentos tolhidos pelo protocolo oficial. Queria ver
as coisas sozinha e a meu gosto.
 Que coisas?, perguntou-se Sarah, mentalmente.
 Lady Westholme continuou a explicar que se instalara no Solomon
Hotel para ter os movimentos livres, e acrescentou que
apresentara algumas sugestes
ao gerente, para uma orientao mais competente do
hotel.
 - A eficincia  a minha palavra de ordem! afirmou.
 E parecia ser! Passado um quarto de hora, chegou
 um automvel grande e muito confortvel e, depois de
 Lady Westholme indicar como deveriam arrumar a bagagem,
partiram.
 A primeira paragem foi no mar Morto. Almoaram
 em Jeric e, quando Lady Westholme, Miss Pierce, o
 mdico e o gordo dragomano foram visitar a antiga Jeric, Sarah
preferiu ficar no jardim do hotel.
 Doa-lhe um pouco a cabea e queria estar sozinha.
 Sentia-se muito deprimida, sem saber porqu, perdera
 de sbito o interesse pelas excurses e estava farta de
 aturar os companheiros de viagem. Arrependia-se de ter
! decidido ir a Petra. Sairia muito caro e ela tinha a certeza
de que no iria gostar. O vozeiro de Lady Westhol me e o
interminvel tagarelar humilde de Miss Pierce
 comeavam a dar-lhe cabo dos nervos, e tambm no lhe
 agradava nada a expresso sabida do Dr. Gerard, aquele
 ar de quem sabia exactamente o que ela sentia.
 Onde estariam os Boynton, naquele momento?
 Talvez tivessem seguido para a Sria e se encontrassem
 em Baalbek ou Damasco. E Raymond... Que estaria
 Raymond a fazer? Era estranho como se recordava
 com tanta nitidez do seu rosto, da sua tenso nervosa...
 Mas para que demnio continuava a pensar em
pessoas que provavelmente nunca mais voltaria a ver?
Cada vez que se lembrava da cena que fizera  velha!
Que a teria levado a aproximar-se e a dizer-lhe todos
aqueles disparates? Talvez outras pessoas a tivessem
ouvido... Parecia-lhe, at, que Lady Westholme se encontrava
perto. Sarah tentou lembrar-se exactamente
do que dissera. Qualquer coisa que parecera absurdo e
histrico, com certeza... Que grande idiota fora! Mas
a culpa no lhe cabia e, sim, a Mistress Boynton. Havia na
criatura um no-sei-qu que fazia perder todo o
sentido das propores.
 O Dr. Gerard entrou e deixou-se cair numa cadeira, a limpar a
testa.
 - Oh, aquela mulher devia ser envenenada! - exclamou.
 - Mistress Boynton?
 - Mistress Boynton? No. Refiro-me a Lady Westholme! Parece-me
inacreditvel que seja casada h tantos anos e que o marido ainda
no a tenha envenenado!
De que ser ele feito?
 Sarah riu-se.
 - Oh, ele  dos que s se interessam por pescar e
caar!
 - Psicologicamente, isso  muito salutar. Sacia assim nas
chamadas criaturas inferiores a sua sede de
matar.
 - Creio que se sente muito orgulhoso das actividades da mulher.
 - Talvez porque elas a afastam muito de casa,
no? - sugeriu o francs. -  compreensvel. - E, aps uma
pausa, perguntou: - H pouco falou de
Mistress Boynton, no foi? Seria, sem dvida, excelente ideia
envenen-la tambm. No deve haver soluo mais simples para o
problema daquela famlia. Na
realidade, um grande nmero de mulheres merecia
o envenenamento: todas as que se tornaram velhas e
feias.
 - Ah, os Franceses! - exclamou Sarah, a rir. - As mulheres s
lhes interessam desde que sejam novas
e atraentes!
 - Somos, apenas, mais sinceros - redarguiu o

francs, com um encolher de ombros. - Os Ingleses
no se levantam no metropolitano e no comboio para
dar o lugar a mulheres velhas e feias.
 - Como a vida  deprimente! - exclamou Sarah,
a suspirar.
 - Voc no tem necessidade nenhuma de suspirar.
 - Hoje sinto-me absolutamente desanimada.
 -  natural.
 -  natural porqu? - perguntou a jovem, em
tom brusco.
 - Encontraria facilmente a razo se estudasse o
seu estado de esprito com sinceridade.
 - Creio que so as nossas companheiras de viagem que me
deprimem. Sei que no est certo, mas
detesto mulheres! Quando so nulidades idiotas como
Miss Pierce, enfurecem-me, e quando so eficientes
como Lady Westholme ainda me enfurecem mais.
 - Essas duas pessoas no podiam deixar de a irritar. Lady
Westholme nasceu exactamente para a vida
que leva e  feliz e bem sucedida; Miss Pierce trabalhou durante
anos como governanta de meninos e, de
sbito, herdou um pequeno legado que lhe permitiu
satisfazer o desejo de toda a sua vida: viajar. At agora, a
viagem tem correspondido  sua expectativa, tudo se tem passado
de acordo com os seus desejos.
Consequentemente, voc, a quem acaba de ser recusada a obteno
do que pretendia, irrita-se com as pessoas a quem tudo corre pelo
melhor.
 - Creio que tem razo - admitiu Sarah, melanclica. -  um
leitor de pensamentos horrivelmente
exacto! Eu bem tento esconder os meus, mas no consigo.
 Os outros regressaram, naquele momento. O guia
parecia o mais exausto dos trs e quase no disse nada
durante a viagem para Am.
 A estrada subia, a partir do Jordo, e serpenteava
entre macios de loendros de flores cor-de-rosa. Chegaram a Am
ao fim da tarde e, aps uma breve visita
ao teatro greco-romano, deitaram-se cedo. No dia seguinte teriam
de partir de manhzinha, pois aguardava-os um dia inteiro de
viagem de automvel atravs
do deserto de Maan.
 Partiram pouco depois das oito horas e no pareceram muito
inclinados a falar. O dia estava quente e
sem uma aragem e quando ao meio-dia pararam para
um almoo de piquenique, o calor tornara-se asfixiante. A
irritao de estar fechado no espao restrito de
um automvel com quatro outros seres humanos, num
dia quente como aquele, bulira um pouco com os nervos de todos.
 Lady Westholme e o Dr. Gerard travaram uma discusso um
bocadinho azeda acerca da supresso das
quadrilhas internacionais de contrabando de drogas.
"0 assunto  muito grave. Segundo a Lei das Drogas
Perigosas..., e continuaram por ali fora.
 Miss Pierce confidenciou a Sarah, na sua voz de
passarinho assustado:
 -  deveras interessante viajar com Lady Westholme.
 - Sim? - redarguiu a jovem, em tom cido, mas
a interlocutora no deu por isso e prosseguiu, feliz:
 - J tinha lido tantas vezes o nome dela nos jornais! Acho
extraordinrias as mulheres que enveredam
pela vida poltica e sabem manter a sua posio. Sinto-me sempre
to feliz quando uma mulher realiza qualquer coisa!
 - Porqu? - indagou Sarah, em tom ainda mais
acerbo.
 Miss Pierce abriu a boca e comeou a gaguejar um
pouco.
 - Porque... quero dizer... porque... enfim, 
muito agradvel as mulheres serem capazes de fazer
coisas.
 - No concordo.  agradvel qualquer ser humano
ser capaz de fazer algo que valha a pena. No importa
nada que seja uma mulher ou um homem. Porque haveria de importar?

 - Bem, evidentemente... Sim, confesso que, vistas as coisas
desse modo...
 - Desculpe, mas detesto essa diferenciao entre
os sexos - disse Sarah, com mais brandura. - A rapariga moderna
tem uma atitude absolutamente prtica para com a vida...
Irritam-me estes chaves, pois
no contm nada de verdade. Algumas raparigas so
prticas e outras no, assim como alguns homens
so sentimentais e obtusos e outros so inteligentes e
lgicos. Existem apenas diferentes espcies de crebros; o sexo
s interessa no que directamente diz respeito ao sexo.
 Miss Pierce corou um bocadinho  meno da palavra sexo e
mudou habilmente de assunto:
 - Era to bom que houvesse um pouco de sombra! - murmurou. -
No entanto, toda esta vastido
desrtica  maravilhosa, no acha?
 Sarah acenou com a cabea. Sim, a vastido desrtica era
maravilhosa, cicatrizante e apaziguadora. No
havia seres humanos a perturbar o esprito alheio com
as suas enfadonhas inter-relaes, nem escaldantes
problemas pessoais... Agora sentia, finalmente, que
estava livre dos Boynton, liberta daquele estranho desejo que a
impelia a interferir na vida de pessoas cuja
rbita nem de longe tocava na da sua vida.
 Ali havia solido, vazio, espao... havia, em resumo, paz.
Infelizmente, porm, no a podia gozar sozinha. Lady Westholme
e o Dr. Gerard tinham abandonado o assunto das drogas e falavam
acerca de jovens
ingnuas, exportadas de modo sinistro para cabars argentinos.
O mdico dava mostras de uma frivolidade
que Lady Westholme, como verdadeira poltica e, portanto,
desprovida de sentido de humor, achava absolutamente deplorvel.
 - Continuamos a viagem, sim? - props o dragomano.
 Faltava cerca de uma hora para o Sol se pr, quando chegaram,
finalmente, a Maan. Homens estranhos,
de rostos selvagens, cercaram o carro, que partiu aps
uma breve paragem.
 Ao percorrer com o olhar a regio desrtica e plana, Sarah no
fazia a mnima ideia da localizao da
rochosa Petra. Sem dvida viam tudo num raio de quilmetros e
quilmetros  sua volta? No havia montanhas nem montes em lado
nenhum... Isso significaria que ainda estavam a muitos
quilmetros do fim da
viagem?
 Chegaram  aldeia de Ain Musa, onde tiveram de
trocar o automvel por cavalos magros e de aspecto tristonho.
Miss Pierce ficou muito perturbada com a pouca
propriedade do seu vestido de riscas. Lady Westholme,
essa, optara sensatamente por cales de montar.
 Os cavalos foram conduzidos para fora da aldeia,
por um carreiro escorregadio, de pedras soltas, e comearam a
descer, em ziguezague. Faltava pouco para
o poente.
 Sarah estava muito cansada da viagem de automvel, sob a
temperatura escaldante, e sentia-se entorpecida. A cavalgada
parecia um sonho. Mais tarde, comparou-a ao abismo do Inferno,
a abrir-se aos seus ps.
O caminho descia sempre, s curvas, e as rochas erguiam-se  roda
deles. E continuavam a descer para as
entranhas da Terra, atravs de um labirinto de penhascos
vermelhos.
 Sarah sentia-se sufocada, ameaada pelo estreitamento contnuo
do desfiladeiro. A descer para o vale
da morte... a descer para o vale da morte..., pensou
confusamente. Escureceu, o vermelho das rochas
esmoreceu e a descida continuou, sinuosa, a aprision-los nas
entranhas da Terra.  fantstico e inacreditvel!, pensou de
novo. Uma cidade morta! E as
palavras vale da morte voltaram-lhe ao esprito,
como um refro.
 Tinham acendido lanternas, enquanto os cavalos
continuavam a descida pelas estreitas veredas. De sbito,
desembocaram num espao largo e os rochedos

pareceram recuar. Ao longe, distinguia-se um aglomerado de luzes.
 -  o acampamento - anunciou o guia.
 Os cavalos estugaram um pouco o passo - no
muito, pois estavam esfomeados e faltava-lhes garra,
mas mesmo assim mostraram um certo entusiasmo.
O caminho seguia agora pelo leito pedregoso de um rio.
 Distinguiram diversas tendas, encostadas  parede
de um penhasco, e viram, tambm, cavernas abertas
na rocha. Acorreram criados bedunos, apressados.
 Sarah olhou para cima. Numa das cavernas estava
um vulto sentado. Que seria? Um dolo? Uma gigantesca esttua
acocorada? O tremular das luzes  que
lhe dava um aspecto to grande. Mas devia ser um
dolo qualquer, imobilizado, a abarcar todo o acampamento...
 De sbito, porm, o corao da jovem deu um
salto de reconhecimento. Dissipou-se a sensao de
paz e de libertao que o deserto lhe dera, regressou
da liberdade ao cativeiro. Descera quele vale escuro,
fundo e sinuoso para encontrar, como suprema sacerdotisa de
qualquer culto esquecido, a detestvel
Mrs. Boynton...

X

 Mrs. Boynton estava ali, em Petra! Sarah respondeu
maquinalmente s perguntas que lhe faziam. Queria jantar j -
estava pronto - ou preferia lavar-se
primeiro? Desejava dormir numa tenda ou numa caverna?
 A resposta  ltima pergunta foi imediata: numa
tenda. A ideia de uma caverna arrepiava-a, recordava-lhe aquela
monstruosa figura. (Porque haveria naquela mulher algo que nem
parecia humano?)
Por fim, seguiu um dos criados nativos, que vestia
cales de caqui muito remendados, grevas mal enroladas e um
casaco muito velho. Na cabea usava o
cheffiyah nativo, com um folho comprido a proteger-lhe o pescoo
e seguro  volta da cabea por uma faixa apertada, de seda preta.
Sarah admirou a facilidade
do seu andar e o porte altivo e descuidado da cabea.
S a parte europeia do seu vesturio parecia espalhafatosa e
errada. A civilizao est toda errada, toda
errada!, pensou Sarah. Se no fosse a civilizao,
Mrs. Boynton no existiria! Nas tribos selvagens, provavelmente,
t-la-iam morto e comido h muitos anos!
 Compreendeu, com um meio-sorriso, que estava
excessivamente fatigada e enervada. Um banho quente
e um pouco de p na cara e sentiu-se de novo calma,
segura de si e envergonhada do pnico que sentira.
 Passou um pente pelos bastos cabelos pretos, a
olhar com dificuldade a sua imagem reflectida num espelho
ordinrio,  luz fraca de um pequeno candeeiro
a petrleo. Depois saiu da tenda, disposta a descer para a outra
maior, mais abaixo, onde serviriam o jantar.
 - Voc... aqui? - ouviu perguntar em voz rouca
e incrdula.
 Virou-se e viu-se cara a cara com Raymond Boynton. Quanto
espanto exprimiam os olhos do rapaz!
Mas havia neles mais qualquer coisa que a deixou muda e quase
assustada, uma alegria incrvel. Era como
se ele tivesse tido uma viso do Paraso e se sentisse
simultaneamente duvidoso, fascinado, grato e humilde!
Sarah no esqueceria aquele olhar em toda a sua vida.
 - Voc... - repetiu o rapaz.
 Aquele tom abafado e vibrante acelerou o ritmo do
corao de Sarah, f-la sentir-se tmida, receosa, humilde e, ao
mesmo tempo, sbita e arrogantemente
alegre.
 - Sim - respondeu apenas.
 Ele aproximou-se mais, ainda ofuscado, ainda quase incrdulo,
e de repente pegou-lhe na mo.

 -  voc! Ao princpio pensei que fosse um fantasma, por ter
pensado tanto em si... - Fez uma pausa, antes de acrescentar: -
Amo-a, sabe? Amo-a desde que a vi no comboio, sei-o agora. E
quero que
tambm o saiba, para que compreenda que no sou
eu, o verdadeiro eu, que procede to grosseiramente.
Ainda nem sei o que estou a fazer! Podia ter passado
por si como se no a visse... mas quero que saiba que,
se fizer isso, no serei eu, o verdadeiro eu. Sero os
meus nervos... no posso confiar neles. Quando ela
me diz que faa isto ou aquilo, eu fao! Os meus nervos
obrigam-me. Compreende, no compreende? Despreze-me, se quiser...
 Sarah interrompeu-o, em voz baixa e inesperadamente doce:
 - No o desprezarei.
 - No entanto, sou desprezvel! Devia ser... devia
ser capaz de proceder como um homem.
 Em parte, talvez fosse um eco da opinio de Gerard, mas foi
sobretudo inspirada pelo seu prprio conhecimento e pela sua
esperana que Sarah afirmou,
com uma vibrao de certeza e autoridade na doura
da voz:
 - Agora proceder.
 - Sim? - perguntou, duvidoso. - Talvez...
 - Agora ter coragem, tenho a certeza.
 O rapaz endireitou-se e atirou a cabea para trs.
 - Coragem? Sim,  disso que necessito. Coragem!
 Baixou de sbito a cabea, tocou-lhe na mo com
os lbios e desapareceu.
 Sarah seguiu para a tenda grande, onde encontrou
os seus trs companheiros de viagem. Estavam sentados  mesa, a
comer, e o guia explicava que se encontrava no acampamento outro
grupo:
 - Chegaram h dois dias e partem depois de amanh. Americanos.
A me muito gorda, muito difcil de
trazer at c. Foi transportada numa cadeira por criados, que se
queixaram do trabalho muito duro.
Sarah no conteve uma gargalhada. De facto, vistas bem as coisas,
era cmico!
 O gordo dragomano olhou-a agradecido. At ali,
no achara a sua tarefa muito fcil. Lady Westholme
j o contradissera trs vezes, durante o dia, e agora
punha defeitos no tipo de cama de que dispunham.
Sentia-se, por isso, grato por um membro do seu grupo se mostrar
inesperadamente bem-disposto.
 - Suponho que essa gente estava no Solomon. - comentou Lady
Westholme. - Reconheci a me,
quando chegmos. Creio que a vi falar com ela no hotel, Miss
King.
 Sarah corou, com um sentimento de culpa, e esperou que Lady
Westholme no tivesse ouvido o que
dissera. "Que maluquice me ter dado?, perguntou-se,
angustiada.
 - No  gente nada interessante - sentenciou a
poltica inglesa. - Muito provincianos.
 Miss Pierce apressou-se a concordar, muito lisonjeadora, e a
outra comeou a enumerar os vrios americanos proeminentes e
interessantes que conhecera
ultimamente.
 Como o tempo estava mais quente do que era habitual naquela
poca do ano, combinou-se uma partida
muito matutina, para o dia seguinte.
 Os quatro voltaram a reunir-se para o pequeno-almoo, s seis
da manh, e no encontraram nenhum
dos Boynton. Depois de Lady Westholme protestar
contra a ausncia de fruta, comeram uma refeio
composta por ch, leite condensado e ovos estrelados
com fatias de bacon muito salgado.
 Partiram e Lady Westholme comeou imediata e
animadamente a discutir com o Dr. Gerard o valor
exacto das vitaminas na dieta e a alimentao adequada das
classes trabalhadoras.
 De sbito, chamaram-nos, do acampamento, e pararam  espera de
que outro excursionista se juntasse
ao grupo: Mr. Jefferson Cope, a quem o esforo da
corrida avermelhou o rosto simptico.

 - Se no se importam, gostava de os acompanhar,
esta manh. Bons dias, Miss King. Foi uma surpresa
muito agradvel encontr-la c, assim como ao doutor Gerard. Que
pensam disto? - Abrangeu, num
gesto, as fantsticas rochas vermelhas que se erguiam
em todas as direces.
 - Penso que  maravilhoso e, tambm, um nadinha horrvel -
confessou Sarah. - Sempre julguei a
cidade rosa-vermelha um lugar romntico e de sonho, mas  muito
mais real do que supunha...  to
real como... como carne crua.
 - E de cor muito parecida - concordou Mr. Cope.
 - Mas no deixa de ser maravilhoso - acrescentou a jovem.
 O grupo comeou a subida, acompanhado por dois
guias bedunos. Homens altos e geis, subiam com segurana, a
apoiar na encosta escorregadia, sem a mnima hesitao, as botas
ferradas. As dificuldades no
tardaram. Tanto Sarah como o Dr. Gerard suportavam
bem a altitude, mas Mr. Cope e Lady Westholme no
se sentiam muito bem e a pobre Miss Pierce teve de
ser praticamente transportada ao colo nos pontos mais
perigosos, de olhos fechados, tez esverdeada e um
constante lamento nos lbios:
 - Nunca fui capaz de olhar para baixo, de grandes altitudes...
 A certa altura, declarou que voltava para trs, mas
quando se virou para a descida o seu rosto tornou-se
ainda mais verde e achou que continuar em frente era
a nica soluo.
 O Dr. Gerard mostrou-se amvel e tranquilizador.
Seguiu atrs dela, com a bengala estendida entre a pobre
mulher e o abismo, como um corrimo, e Miss Pierce
confessou que a iluso de existir uma balaustrada
a ajudou muito a dominar as vertigens.
 Um bocadinho ofegante, Sarah conversou com o
dragomano Mahmud, que apesar da sua corpulncia
no mostrava indcios de cansao:
- No costumam ter dificuldades em conduzir as
pessoas c acima? Pessoas idosas, sobretudo?
 - Temos sempre dificuldades, sempre - confessou Mahmud,
serenamente.
 - Porque no as dissuadem?
 - Gostam de vir - respondeu o homem, com um
encolher de ombros. - Pagaram para ver coisas e desejam v-las.
Os guias bedunos so muito competentes, muito firmes de ps.
Desenvencilham-se sempre.
 Chegaram, finalmente, ao cume e Sarah respirou
fundo. Em baixo e em toda a volta s se viam rochas
cor de sangue, numa paisagem estranha e incrvel, sem
paralelo em lado nenhum. Ali, no puro ar matinal,
dir-se-iam um grupo de deuses a admirar um mundo
inferior.
 O guia mostrou-lhes o sulco aberto na rocha, a
seus ps, e explicou que se tratava do Lugar do Sacrifcio.
 Sarah afastou-se dos outros e do alcance das frases
feitas que saam com tanta volubilidade dos lbios do
dragomano. Sentou-se numa pedra, passou as mos
pelos cabelos e olhou para baixo. Pouco depois, teve
conscincia de que se encontrava algum a seu lado.
 - Aqui podemos avaliar a propriedade da tentao
do Demnio, citada no Novo Testamento. Satans
conduziu Nosso Senhor ao cume de uma montanha e
mostrou-Lhe o mundo. Dar-Te-ei todas estas coisas
se cares e me adorares. Num lugar alto,  muito
maior a tentao de ser um Deus do Poder Material.
 Sarah acenou afirmativamente, mas os seus pensamentos estavam
to longe que o mdico a observou,
surpreendido.
 - Est a reflectir profundamente em qualquer coisa - murmurou.
 - Estou, sim - confessou e olhou-o, perplexa. - Foi uma ideia
maravilhosa ter um lugar de sacrifcio
c em cima. As vezes penso que  necessrio um sacrifcio...
Quero dizer, temos tendncia para atribuir excessivo valor 
vida. Na realidade, a morte no  to
importante como pensamos.
 - Se so esses os seus sentimentos, Miss King,
no devia ter escolhido a profisso que escolheu. Para
ns, a morte , e deve ser sempre, a Inimiga.
 - Sim, creio que tem razo. E, contudo, quantas
vezes a morte no resolveria um problema! Poderia at
significar uma vida mais cheia...
 -  conveniente para ns que um homem morra
pelo povo - citou o mdico, muito grave.
 - No queria dizer...
 Calou-se, pois Jefferson Cope aproximava-se.
 - Este lugar  extraordinrio - afirmou. - Verdadeiramente
extraordinrio. Ainda bem que no perdi a oportunidade de o
admirar. Confesso que, embora
Mistress Boynton seja uma mulher excepcional e eu
admire a coragem de que deu provas ao vir a Petra,
viajar com ela complica um pouco as coisas. A sua
sade  m e isso leva-a, talvez, a esquecer os sentimentos das
outras pessoas, pois nem sequer lhe parece
acudir a ideia de que a sua famlia talvez gostasse de
participar em excurses sem ela. Est to habituada a
t-los todos  sua volta que nem pensa... - Mr. Cope
calou-se e o seu rosto bondoso e simptico pareceu, de
sbito, preocupado e inquieto. - Sabem, tive conhecimento de uma
coisa acerca de Mistress Boynton que
me perturbou muitssimo...
 Sarah estava de novo perdida nos seus pensamentos e a voz de
Mr. Cope soava-lhe agradavelmente aos
ouvidos, como o murmrio de um ribeiro distante.
Mas o Dr. Gerard interessou-se:
 - Sim? Que foi?
 - A minha informadora foi uma senhora que conheci no hotel, em
Tiberades. O assunto relaciona-se
com uma criada que esteve ao servio de Mistress Boynton. Suponho
que a rapariga teve... estava... - Mr. Cope olhou delicadamente
para Sarah e baixou a voz. - Ia
ter um filho. Parece que a velhota o descobriu, mas,
aparentemente, a continuou a tratar com bondade. De
repente, porm, poucas semanas antes do nascimento da
criana, ps a criada na rua.
 O Dr. Gerard arqueou as sobrancelhas e limitou-se
a exclamar, pensativo:
 - Ah!
 - A minha informadora garantiu-me que o caso 
autntico. No sei se concordam comigo, mas tal procedimento
parece-me cruel e desapiedado. No consigo compreender...
 - Devia tentar - interrompeu-o o mdico. - Tenho a certeza de
que esse incidente proporcionou
grande prazer a Mistress Boynton.
 O americano fitou-o, indignado, e redarguiu, com
nfase:
 - No, doutor, no posso acreditar nisso.  uma
ideia inconcebvel.
 O Dr. Gerard murmurou, docemente:
 - "Por isso regressei e pensei em todas as opresses
cometidas debaixo do Sol. Havia lgrimas e choros daqueles que
eram oprimidos e no tinham conforto; pois os
seus opressores tinham poder e, por isso, ningum ousava
confort-los. Depois louvei os mortos que j estavam mortos, sim,
mais do que os vivos que ainda se mantinham na
vida; sim, o que no  est melhor do que morto ou vivo;
pois ele ignora o mal que eternamente se faz na Terra...
 O mdico calou-se, um momento, antes de acrescentar:
 - Meu caro, tenho passado a vida a estudar as estranhas coisas
que se passam na mente humana. No 
aconselhvel nem benfico virar o rosto s para o lado
mais belo da vida. Sob as decncias e as convenes do
dia-a-dia oculta-se um imenso repositrio de estranhas
coisas; como, por exemplo, o gozo da crueldade pela
crueldade. Mas descoberto esse gozo, h algo ainda
mais profundo: o desejo imenso e confrangedor de ser
apreciado. Se esse desejo  negado, se merc de uma
personalidade desagradvel um ser humano  incapaz

de obter a reaco de que necessita, volta-se para outros mtodos
(tm de o sentir, ele tem de contar) e, da,
para inmeras e estranhas perverses. O hbito da
crueldade, como qualquer outro hbito, pode ser cultivado, pode
apoderar-se de uma pessoa...
 Mr. Cope tossiu.
 - Creio, doutor Gerard, que est a exagerar um
pouco... O ar, aqui,  de facto, maravilhoso...
 O americano afastou-se e o Dr. Gerard sorriu e
olhou de novo para Sarah, que estava de testa franzida
e muito sria. Parecia, pensou o mdico, um jovem
juiz prestes a proferir uma sentena... Virou-se, ao ouvir Miss
Pierce aproximar-se, hesitante.
 - Vamos descer! - queixou-se. - Meu Deus, tenho a certeza de
que no serei capaz, mas os guias garantem que a descida  por
outro caminho muito mais
fcil... Espero que seja!
 A descida efectuou-se pelo curso de uma queda de
gua. Embora as pedras soltas fossem uma possvel
fonte de perigo para os tornozelos, no havia panoramas
estonteantes. O grupo chegou ao acampamento
muito fatigado, mas com excelente apetite para um almoo tardio.
Passava das duas horas da tarde.
 A famlia Boynton estava sentada  roda da grande
mesa, na tenda das refeies, quase a acabar de comer.
Lady Westholme dirigiu-lhes uma frase amvel, numa
atitude muito condescendente:
 - Foi uma manh muito interessante. Petra  um
lugar maravilhoso.
 Carol, a quem as palavras pareciam dirigidas, lanou um olhar
rpido  me e murmurou:
 - Pois ... pois ... - e mergulhou no silncio
anterior.
 Consciente do dever cumprido, Lady Westholme
dedicou a sua ateno ao almoo.
 Enquanto comiam, os quatro fizeram planos para a
tarde.
- Creio que descansarei a maior parte da tarde. - decidiu Miss
Pierce. -  importante, suponho, no
nos fatigarmos demasiado num s dia.
 - Eu darei um passeio, para explorar as imediaes - disse
Sarah. - E o doutor?
 - Irei consigo.
 Mrs. Boynton deixou cair uma colher, ruidosamente, e
estremeceram todos.
 - Parece-me que seguirei o seu exemplo, Miss Pierce - disse
Lady Westholme. - Lerei meia hora, descansarei pelo menos uma
hora e, depois disso, talvez
d um pequeno passeio.
 Lentamente, ajudada por Lennox, Mrs. Boynton
levantou-se. Ficou um momento parada, antes de decretar:
 - Acho que devem dar todos um passeio, esta
tarde.
 Foram ridculas as expresses de espanto da famlia.
 - Mas... e a me?
 - No preciso de nenhum de vocs. Gosto de passar um bocado
sozinha, com um livro. A Jinny deita-se e dorme.
- No estou cansada, me. Quero ir com os outros.
 - Ests cansada e tens uma dor de cabea! Precisas de ter
cuidado contigo. Vai-te deitar e dorme. Eu
sei o que  melhor para ti.
 - Eu... eu... - Com a cabea inclinada para trs,
a jovem fitou a me, numa atitude de rebeldia, mas
depois, pouco a pouco, baixou os olhos.
 - Garota pateta! - murmurou Mrs. Boynton. - Vai para a tua
tenda.
 E saiu, seguida pela famlia.
 - Meu Deus, que gente to esquisita! - exclamou Miss Pierce.
- A me tem uma cor to estranha,
to vermelha... Corao, suponho. Este calor no lhe
deve fazer nada bem.
 Deixa-os em liberdade esta tarde, pensou Sarah.

Deixa-os em liberdade e sabe que Raymond quer estar comigo.
Porqu? Ser uma armadilha?
 Depois de almoar e de ir  sua tenda mudar de
roupa e enfiar um vestido leve, continuou preocupada.
Desde a vspera  noite que os seus sentimentos por
Raymond se tinham transformado numa paixo de ternura protectora.
Era, ento, aquilo o amor, aquela angstia em relao a outrem,
aquele desejo de evitar,
custasse o que custasse, sofrimento ao ser amado?...
Sim, amava Raymond Boynton. Eram So Jorge e o
drago... ao contrrio. Ela era o salvador e Raymond a
vtima acorrentada. E Mrs. Boynton era o drago. Um
drago cuja inesperada condescendncia parecia muito
sinistra ao esprito desconfiado da jovem inglesa.
 Eram umas trs e um quarto quando Sarah se dirigiu para a tenda
grande.
 Lady Westholme estava sentada numa cadeira e,
apesar do calor, continuava com a prtica saia-cala de
tweed. Tinha no colo um relatrio oficial. O Dr. Gerard
conversava com Miss Pierce, que se encontrava
junto da sua tenda e tinha na mo um livro intitulado
 Procura do Amor - uma emocionante histria de
paixo e incompreenso, segundo anunciava a capa.
 - No creio que seja sensato deitarmo-nos logo a
seguir ao almoo - explicava Miss Pierce. - Por causa da
digesto, compreende? Est fresco e agradvel 
sombra da tenda grande... Meu Deus, acha sensato
aquela senhora idosa e doente estar ali sentada, ao sol?
 Olharam todos para a plataforma rochosa, em frente. Mrs.
Boynton estava sentada como estivera na vspera: um buda imvel,
 entrada da sua caverna. No
se via mais ningum, nas imediaes. Todo o pessoal
do acampamento dormia a sesta e ao longe, a seguir
o contorno do vale, um pequeno grupo caminhava
junto.
 - Para variar, a boa mam consente que se divirtam sem ela -
comentou o Dr. Gerard. - Alguma
nova patifaria, talvez?
-  exactamente isso que eu penso, tambm. - confessou Sarah.
 - Como somos desconfiados! Venha, vamos ter
com eles.
 Deixaram Miss Pierce entregue  sua emocionante
leitura e puseram-se a caminho. Contornada a curva
do vale, alcanaram o outro grupo, que seguia devagar. Pela
primeira vez, os Boynton pareciam felizes e
descuidados.
 A breve trecho, todos riam e conversavam. Lennox
e Nadine, Carol e Raymond, o sorridente Mr. Cope e
os ltimos a chegar, Gerard e Sarah.
 Reinava uma hilaridade febril, como se todos estivessem
conscientes de que gozavam um prazer roubado e, por isso, deviam
tirar dele todo o proveito. Sarah
e Raymond no se separaram do grupo: a jovem inglesa colocou-se
ao lado de Carol e Lennox, o Dr. Gerard
conversou com Raymond, logo atrs deles, e Nadine e
Jefferson Cope afastaram-se um pouco.
 Foi o francs quem quebrou o grupo. Havia algum
tempo que parecia falar com dificuldade e, de sbito,
parou e disse:
 - Peo mil desculpas, mas tenho de voltar para
trs.
 - Aconteceu alguma coisa? - perguntou-lhe Sarah.
 - Febre. Tenho estado a senti-la aproximar-se
desde o almoo.
 Sarah observou-o com ateno e inquiriu:
 - Malria?
 - Sim. Voltarei para trs e tomarei quinino. Espero que no
seja um ataque grave. Trata-se de uma herana de um visita ao
Congo...
 - Quer que v consigo?
 - No, Miss King. Trouxe um estojo de medicamentos... No se
preocupem, continuem o passeio.
 Retrocedeu, apressado, na direco do acampamento.
 Sarah seguiu-o com o olhar, indecisa, mas depois

os seus olhos encontraram os de Raymond, sorriram-lhe e o francs
foi esquecido.
 Durante algum tempo, os seis mantiveram-se unidos: Carol,
Sarah, Lennox, Cope, Nadine e Raymond.
Depois, quase sem darem por isso, Sarah e Raymond
afastaram-se dos outros. Subiram e contornaram rochas e, por fim,
encontraram uma sombra e descansaram.
 Passados alguns momentos, Raymond perguntou:
 - Como se chama? O apelido sei que  King, mas
desconheo o seu nome prprio.
 - Sarah.
 - Sarah. Posso trat-la assim?
 - Claro que pode.
 - Importa-se de me falar de si, Sarah?
 Recostada na rocha, Sarah falou-lhe da sua vida no
Yorkshire, dos seus ces e da tia que a criara. Depois
foi a vez de Raymond lhe falar um pouco desconexamente da sua
prpria vida.
 Ficaram muito tempo calados, de mos dadas, possudos de
estranho contentamento.
 Por fim, Raymond estremeceu e disse:
 - Vou regressar... No, consigo, no. Quero ir sozinho, pois
preciso de dizer e fazer uma coisa. Depois
disso, depois de demonstrar a mim prprio que no
sou um cobarde... ento no terei vergonha de lhe pedir que me
ajude. Precisarei de auxlio, compreende?
Provavelmente terei de lhe pedir dinheiro emprestado.
 Sarah sorriu.
 - Agrada-me que seja realista. Pode contar comigo.
 - Mas, primeiro, tenho de agir sozinho, tenho de
fazer uma coisa.
 - O qu?
 O rosto juvenil, tornou-se, de sbito, grave. Raymond Boynton
respondeu:
 - Tenho de provar a minha coragem. Ser agora
ou nunca.
 E afastou-se, bruscamente.
Sarah encostou-se  rocha e viu-o desaparecer.
Houvera nas palavras dele algo que a alarmara vagamente. Parecera
to tenso, to decidido... Por momentos, arrependeu-se de no ter
ido com ele, mas censurou-se logo por isso. Raymond quisera ir
sozinho,
quisera experimentar a coragem recm-descoberta. Tinha esse
direito. No entanto, Sarah pediu aos cus que
essa coragem no lhe faltasse...
 O Sol punha-se quando Miss King avistou de novo
o acampamento. Ao aproximar-se, distinguiu mais
uma vez o vulto de Mrs. Boynton, ainda sentada  entrada da
caverna. Estremeceu um pouco, impressionada com aquela figura
sinistra e imvel, estugou o passo e chegou  tenda grande, que
j estava iluminada.
 Lady Westholme tricotava uma camisola azul, com
a l passada pelo pescoo, e Miss Pierce bordava anmicos
amores-perfeitos num pano de tabuleiro, enquanto era elucidada
acerca da conveniente reforma
das Leis do Divrcio. Os criados entravam e saam, a
preparar o jantar, e os Boynton estavam sentados a ler
ao fundo da tenda. Mahmud apareceu, gordo e digno
- e tambm cheio de censuras. Tinham preparado
uma interessante excurso, para depois do ch, mas
estava toda a gente ausente do acampamento. O programa no fora
cumprido, perdera-se uma visita muito
instrutiva a obras arquitectnicas nabateanas...
 Sarah apressou-se a afirmar que se tinham divertido todos
muito, e foi  sua tenda, a fim de se lavar para o jantar. Ao
voltar, parou junto da tenda do mdico
e chamou em voz baixa:
 - Doutor Gerard!
 Como no obtivesse resposta, levantou a lona e espreitou. O
mdico estava imvel, na cama. Sarah retirou-se, em silncio,
convencida de que ele estava a
dormir.
 Um criado apontou para a tenda grande, sinal de
que o jantar estava pronto. J se encontravam todos
sentados  mesa, com excepo do Dr. Gerard e de

Mrs. Boynton. Um criado foi informar a ltima de que
o jantar estava pronto. Pouco depois, verificou-se uma
leve agitao, no exterior. Os criados irromperam pela
tenda dentro, muito agitados, e foram falar, em rabe,
com o dragomano.
 Mahmud olhou  sua volta, preocupado, e saiu.
Impulsivamente, Sarah foi ter com ele.
 - Que se passa? - perguntou-lhe.
 - E a senhora idosa. Abdul diz que est doente...
que no se mexe.
 - Eu vou ver.
 Sarah estugou o passo, atrs de Mahmud, e quando chegou junto
da criatura sentada na cadeira tocou-lhe na mo inchada e
procurou-lhe o pulso.
 Endireitou-se, muito plida, e voltou  tenda grande. Parou um
momento  entrada, a olhar para o grupo do fundo da mesa, e
quando falou a sua prpria
voz soou-lhe brusca e pouco natural:
 - Lamento... - tentou dirigir-se ao mais velho, a
Lennox. - A sua me morreu, Mister Boynton.
 E, curiosamente, como se se encontrasse muito
longe, observou os rostos daquelas cinco pessoas para
quem as palavras que pronunciara significavam a liberdade...

XI

 O coronel Carbury sorriu ao seu convidado e ergueu o copo:
 - Ao crime!
 Os olhos de Hercule Poirot brilharam, ante o acerto do brinde.
Chegara a Am com uma carta de apresentao do coronel Race
dirigida ao coronel Carbury.
Este tivera interesse em conhecer aquela pessoa mundialmente
famosa, a cujos dons o seu velho amigo e
colega tecera to rasgados elogios. Um primor de deduo
psicolgica como nunca viu!, dissera Race, a
respeito da soluo do assassnio Shaitana.
 - Mostrar-lhe-emos o mais que pudermos da regio - prometeu
Carbury, a torcer o bigode malhado
e irregular.
 Era um homem forte e desmazelado, de altura mediana, cabea
meio calva e olhos azuis vagos e brandos. No parecia um soldado
- no parecia, sequer,
muito inteligente e, ao v-lo, ningum o imaginaria
um disciplinador. No entanto, era uma fora na
Transjordnia.
 - H, por exemplo, Jerash... Gosta desse gnero
de coisas?
 - Estou interessado em tudo!
 - Sim,  essa a nica maneira de encarar a vida. - concordou
o coronel. - Diga-me uma coisa, alguma
vez notou que a sua profisso tem tendncia para o
acompanhar, para onde quer que v?
 - Pardon?
 - Bem, por outras palavras: costuma ir a um lado
 espera de gozar frias, de se afastar do crime, e encontrar
cadveres por todo o lado?
 - J tem acontecido... sim, j aconteceu diversas
vezes.
 - Hum... - resmungou o coronel Carbury, e pareceu distrado.
- Neste momento, tenho um cadver
acerca do qual no me sinto muito tranquilo - disse,
por fim.
 - Deveras?
 -  verdade. Aqui, em Am. Uma velha americana... Foi a Petra
com a famlia, a viagem  exaustiva e
tem estado um calor pouco prprio desta poca do
ano... A velhota sofria do corao, a viagem foi mais
difcil do que supusera, exigiu-lhe um esforo maior...
e apagou-se!
 - Aqui, em Am?
 - No, em Petra. Trouxeram hoje o corpo.

 - Ah!
 -  tudo muito natural e perfeitamente possvel...
No entanto...
 - No entanto...?
 O coronel Carbury coou a calva.
 - Tenho a impresso de que a famlia lhe tratou
da sade.
 - Ah! E que o leva a pensar assim?
 O coronel no respondeu directamente:
 - Parece que era uma velha desagradvel, que no
se perdeu nada. A impresso geral  que a sua morte
foi uma coisa boa. De qualquer maneira, ser muito
difcil provar seja o que for, pois a famlia forma um
bloco e se for preciso mentir sem rebates de conscincia. No
queremos complicaes nem aborrecimentos
internacionais; o mais fcil ser deixar passar, tanto
mais que no temos nada em que nos apoiarmos. Conheci em tempos
um mdico que me disse ter, s vezes, suspeitas quanto aos seus
doentes, despachados
para o outro mundo um pouco antes da hora. Na opinio dele,
porm, o melhor era fechar os olhos, a no
ser que tivesse alguma coisa bem firme em que se basear. Caso
contrrio, no se provava nada, havia escndalo, e quem ficava
mal visto era o pobre do mdico,
que quisera ser honesto. Tem uma certa lgica, mas...
- Coou outra vez a calva. - Sou um homem ordenado.
 A gravata do coronel Carbury estava toda torcida,
quase debaixo da orelha esquerda, as suas pegas estavam
enroladas e o seu casaco no primava pelo asseio.
Mas Hercule Poirot no sorriu da sua observao. Via
claramente que a mentalidade do coronel era, de facto,
ordenada, que ele catalogava os factos e estudava com
todo o cuidado as impresses colhidas.
 - Sim, sou um homem ordenado - repetiu Carbury, com um gesto
vago. - No gosto de desarrumaes.
 Hercule Poirot acenou com a cabea, gravemente.
- Estava algum mdico presente?
 - Estavam dois, embora um se encontrasse de cama, com malria.
O outro, ou melhor, a outra, era
uma jovem, acabada de sair da escola mdica. No entanto,
pareceu-me perceber do ofcio. No houve nada
de estranho quanto  morte. A velhota tinha o relgio avariado,
tomava remdios para o corao havia
algum tempo... e, portanto, a sua morte sbita no
tem nada de surpreendente.
 - Ento que o preocupa, meu amigo?
 O coronel fitou no detective os olhos azuis, cheio
de embarao.
 - J ouviu falar de um francs chamado Theodore
Gerard?
 - Sem dvida.  muito famoso, na sua especialidade.
 - Maluqueiras - confirmou Carbury. - Uma
paixo pela mulher a dias, aos quatro anos, leva um tipo a teimar
que  o arcebispo de Canturia, aos trinta
e oito... No compreendo nem nunca compreendi porqu, mas esses
tipos explicam tudo muito convincentemente.
 - O doutor Gerard  uma autoridade em certas
formas de neurose profunda - declarou Poirot, a sorrir. - As...
as suas opinies acerca do que sucedeu
em Petra baseiam-se nesse gnero de argumento?
 O coronel Carbury abanou vigorosamente a cabea.
 - No, no! No me preocuparia, se fosse isso.
No quero com isto dizer que no acredite que seja tudo verdade.
Acontece apenas que so coisas que no
compreendo, assim como no compreendo quando um
dos meus bedunos sai de um carro no meio do deserto, apalpa o
solo e diz onde se encontra, com uma
margem de um ou dois quilmetros. No  magia,
mas parece. No, a histria do doutor Gerard  muito
lgica e compreensvel, consta de factos simples. Creio
que, se est interessado... A propsito, est interessado?

 - Estou, sim.
 - ptimo. Telefonarei a pedir a Gerard que venha at c e,
assim, poder ouvir a histria contada
por ele prprio.
 Quando o coronel mandou um dos seus homens
tratar do assunto, Poirot perguntou-lhe:
 - Em que consiste essa famlia?
 - O apelido  Boynton. So dois filhos, um deles
casado (a mulher  uma rapariga simptica, pacata e
sensata), e duas filhas. Estas ltimas so ambas bonitas, embora
de modo totalmente diferente. A mais nova parece um bocado
nervosa, mas isso talvez se deva
ao choque.
 - Boynton... - murmurou Poirot, de sobrancelhas arqueadas. -
 curioso... muito curioso...
 Carbury olhou-o interrogadoramente, mas como
ele no dissesse nada, prosseguiu:
 - Salta aos olhos que a me era uma peste. Tinham de cuidar
dela, pois estava invlida, e obrigava
todos a danar conforme tocava. Alm disso, era senhora do
dinheiro. Nenhum dos filhos tinha um pni
de seu.
 - Ah, muito interessante! E sabe-se como deixou
o dinheiro?
 - Eu prprio fiz essa pergunta, com o ar mais casual deste
mundo... A herana ser repartida igualmente por todos.
 Poirot acenou com a cabea, antes de perguntar:
 - Pensa que esto todos implicados no caso?
 - No sei. A  que residir a dificuldade. Foi um
esforo concentrado, comum, ou a brilhante ideia de
um dos membros da famlia, apenas? No sei. Talvez,
at, no se tenha passado nada. Em resumo, gostaria
de conhecer a sua opinio profissional. Olhe, a vem o
doutor Gerard.
 O francs entrou e, enquanto apertava a mo ao
coronel, lanou um olhar interessado a Poirot.
 - Este  Monsieur Hercule Poirot - apresentou
Carbury. - Foi-me recomendado e eu tenho estado a
conversar com ele acerca daquele assunto de Petra.
 - Sim? - Gerard mediu Poirot de alto a baixo
 ,
rapidamente. - Est interessado?
 Hercule Poirot levantou dramaticamente as mos,
ao responder:
 - Ai de ns, estamos sempre incuravelmente interessados em
assuntos relacionados com a nossa profisso!
 - Sem dvida - admitiu o mdico.
 - Uma bebida? - ofereceu o coronel e, juntando
o gesto  palavra, preparou um usqui com soda para
o mdico e estendeu a garrafa a Poirot, que recusou
com um gesto de cabea.
 O coronel voltou a sentar-se e chegou a cadeira
mais para a frente.
 - Ento, onde amos? - perguntou.
 - Pelo que deduzi, o coronel Carbury no est
convencido - disse o detective ao mdico.
 - E a culpa disso  minha! Mas lembre-se, coronel, de que posso
estar enganado, de que posso estar
redondamente enganado!
 - Conte os factos a Poirot, doutor.
 O Dr. Gerard comeou por recapitular resumidamente os
acontecimentos anteriores  viagem a Petra.
Fez um esboo dos vrios membros da famlia Boynton e descreveu
o estado de tenso emocional em que
se encontravam. Poirot escutou-o com interesse.
 A seguir, o mdico descreveu o seu primeiro dia
em Petra e o seu regresso ao acampamento:
 - Estava com um ataque forte de malria, do tipo
cerebral, e tencionava tratar-me com uma injeco intravenosa de
quinino.
 Poirot acenou com a cabea, a confirmar que compreendia.
 - A febre atacara-me com violncia e cheguei 
minha tenda a cambalear. Ao princpio, no consegui
encontrar o meu estojo de medicamentos, pois algum

o mudara de lugar. Depois, quando dei com ele, no
encontrei a seringa. Procurei-a durante algum tempo,
mas acabei por desistir. Tomei uma grande dose de
quinino, por via oral, e atirei-me para cima da cama.
 Gerard fez uma pausa, antes de prosseguir:
 - A morte de Mistress Boynton s foi descoberta
depois do pr do Sol. Devido ao modo como estava
sentada e ao apoio que a cadeira lhe proporcionava ao
corpo, no ocorrera nenhuma mudana na sua posio
e s quando um dos criados a foi chamar para jantar,
s seis e meia, deu pelo que se passara.
 Descreveu, pormenorizadamente, a situao da caverna e a
distncia a que ficava da tenda grande.
 - Miss King, que  mdica, examinou o corpo e,
como sabia que eu estava com febre, no me chamou.
Alis, no havia nada a fazer. Mistress Boynton estava
morta... e a morte ocorrera havia j algum tempo.
 - Havia quanto tempo, ao certo? - perguntou o
detective.
 - No creio que Miss King prestasse muita ateno a esse
pormenor. No pensou, naturalmente, que
tivesse importncia.
 - Mas sabe-se, ao menos, quando foi vista viva
pela ltima vez? - insistiu Poirot.
 O coronel Carbury pigarreou e consultou um documento de aspecto
oficial.
 - Lady Westholme e Miss Pierce falaram a Mistress Boynton pouco
depois das quatro da tarde. Lennox Boynton falou com a me cerca
das quatro e meia.
Mistress Lennox Boynton teve uma longa conversa
com a sogra cerca de cinco minutos depois. Carol
Boynton tambm falou com a me e, embora no saiba
precisar as horas, deduz-se pelos depoimentos dos outros que deve
ter sido mais ou menos s cinco e dez.
Jefferson Cope, um americano amigo da famlia, viu-a
a dormir, ao regressar ao acampamento com Lady
Westholme e Miss Pierce, cerca das cinco e quarenta.
Mas no lhe falou. Raymond Boynton, o filho mais
novo, parece ter sido a ltima pessoa a v-la viva. Ao
regressar de um passeio, falou com ela por volta das
cinco e cinquenta. O corpo foi descoberto s seis e
meia, quando um criado foi anunciar a Mistress Boynton que o
jantar estava pronto.
 - Entre o momento em que Mister Raymond
Boynton falou com ela e as seis e meia ningum se
aproximou da senhora?
 - Que me conste, no.
 - Mas podia-se ter aproximado algum? - insistiu Poirot.
 - No creio. No perodo entre pouco antes das
seis horas e as seis e meia, os criados andaram atarefados no
acampamento e houve turistas a entrar e a sair
das tendas. Ningum viu fosse quem fosse aproximar-se da velha
senhora.
 - Ento Raymond Boynton foi, sem dvida, a ltima pessoa a ver
a me viva? - inquiriu Poirot.
 O Dr. Gerard e o coronel Carbury entreolharam-se. O segundo
tamborilou na mesa e declarou:
 -  nesse ponto que comeam as complicaes.
Continue, Gerard.
 - Como j disse, Sarah King, ao examinar o corpo de Mistress
Boynton, no viu necessidade de determinar com exactido a hora
da morte. Disse apenas
que Mistress Boynton estava morta havia algum tempo>. Mas
quando no dia seguinte, por razes pessoais,
tentei esclarecer melhor as coisas e mencionei, casualmente, que
Raymond Boynton vira a me viva pouco
antes das seis horas, Miss King afirmou, para minha
surpresa, ser isso impossvel, pois nessa altura Mistress Boynton
j devia estar morta.
 - Estranho, muito estranho - murmurou Poirot.
- E que diz a isso Mister Raymond Boynton?
 - Jura que a me estava viva - declarou Carbury. - Foi ter com
ela e disse-lhe: J voltei. Espero
que tenha passado uma tarde agradvel. Qualquer
coisa deste gnero. A me respondeu-lhe bem, obrigada, e ele
foi para a sua tenda.

 Poirot franziu a testa, perplexo.
 - Curioso - repetiu. - Curiosssimo. Diga-me,
doutor, comeava a escurecer, por essa altura?
 - O Sol estava a pr-se.
 - Curioso... Quando viu o corpo, doutor Gerard?
 - S no dia seguinte, s nove horas da manh.
 - E calculou a que horas teria ocorrido a morte?
 O francs encolheu os ombros.
 -  difcil fazer uma ideia aproximada, passado
tanto tempo. H sempre uma margem de vrias horas.
Se estivesse a prestar declaraes sob juramento, s
poderia dizer que ela no estava morta havia menos de
doze horas nem mais de dezoito. Como v, no ajuda
nada.
 - Continue, Gerard - pediu o coronel. - Diga-lhe o resto.
 - Quando me levantei, de manh, encontrei a minha seringa...
Estava atrs de uma caixa de frascos, na
cmoda. - Inclinou-se para a frente e prosseguiu: - Pode dizer,
se quiser, que eu no a vira, na vspera.
Encontrava-me, de facto, num estado lastimoso, a tremer de febre
dos ps  cabea, e, alm disso,  frequente, mesmo no nosso
estado normal, procurarmos
uma coisa e no a encontrarmos, embora ela esteja
praticamente  frente dos nossos olhos. No entanto,
afirmo que a seringa no estava l quando a procurei.
 - Mas ainda h mais - disse Carbury.
 - Sim, h dois factos que tm muito significado.
No pulso da morta havia uma marca semelhante s
deixadas pela insero de uma agulha hipodrmica...
A ilha alega que a me se picou com um alfinete...
 - Que filha? - interrompeu Poirot.
 - Carol.
 - Continue, peo-lhe.
 - Quanto ao segundo facto... Ao examinar o meu
pequeno estojo de medicamentos, reparei que a quantidade de
digitoxina estava muito reduzida.
 - Digitoxina  um veneno para o corao, no ?
- . Extrai-se da Digitalis purpureia, a dedaleira
vulgar. H quatro princpios activos: digitalina, digitonina,
digitalein e digitoxina. De todos, a digitoxina 
considerado o constituinte mais venenoso das folhas da
Digitalis. De acordo com as experincias de Kopp, 
seis a dez vezes mais forte do que a digitalina ou a digitalein.
A sua existncia est oficializada em Frana,
mas a Farmacopeia Britnica no a regista.
 - E uma grande dose de digitoxina...
 O Dr. Gerard concluiu, em tom muito grave:
 - Uma grande dose de digitoxina lanada subitamente na
circulao sangunea, por meio de uma injeco intravenosa,
causaria morte instantnea motivada por paralisia do corao.
Calcula-se que quatro
miligramas podem ser fatais a um adulto.
 - Mas Mistress Boynton sofria do corao...
 - Sofria. Por sinal, at tomava um remdio que
continha Digitalis.
 - Isso  interessantssimo - observou Poirot.
 - Quer dizer que a morte podia ser atribuda a
uma dose excessiva do seu prpeio medicamento? - perguntou o
coronel.
 - Podia... mas quero dizer mais do que isso.
 - Em certo sentido - explicou o Dr. Gerard -,
a Digitalis pode ser considerada uma droga cumulativa. Alm
disso, quanto ao aspecto post-mortem, os
princpios activos da digitalina podem destruir a vida
sem deixar vestgios ntidos do seu emprego.
 Poirot acenou com a cabea, devagar.
 - Inteligente, muito inteligente... Seria quase impossvel
provar a um jri, satisfatoriamente, o emprego da droga. Permitam
que lhes diga, cavalheiros,
que, se de facto se trata de um assassnio,  um assassnio muito
inteligente! A seringa reposta no seu lugar,
o facto de o veneno empregado fazer parte do remdio
que a vtima tomava... As possibilidades de um erro
ou de um acidente so enormssimas. Sim, estamos
perante uma cabea com miolos! Houve estudo, cuidado, gnio...
- Calou-se, por momentos, antes de
acrescentar: - E, no entanto, h uma coisa que me
intriga.
 - O qu?
 - O roubo da seringa.
 - Foi levada - apressou-se a afirmar o Dr. Gerard.
 - Levada... e devolvida?
 - Sim.
 - Estranho, muito estranho. Fora isso, tudo se
ajusta muito bem...
 O coronel Carbury olhou-o com curiosidade e inquiriu:
 - Ento? Qual  a sua opinio, como perito? Foi
assassnio?
 - Um momento, um momento! - pediu o detective, de mo
levantada. - Ainda no chegmos a esse
ponto. Precisamos de considerar certas provas...
 - Que provas? J ouviu tudo...
 - Ah, mas estas provas sou eu, Hercule Poirot, que
as dou! - Acenou com a cabea e sorriu, ao ver as caras
espantadas dos outros. -  engraado, no ?
 engraado que eu, a quem contaram a histria, possa, em troca,
apresentar-lhes um pormenor que ignoram. Trata-se do seguinte:
uma noite, no Solomon
Hotel, fui  janela para me certificar de que estava fechada...
 - Fechada... ou aberta? - perguntou o coronel.
 - Fechada - respondeu o detective, com firmeza. - Como estava
aberta, resolvi fech-la. Mas,
quando a minha mo j segurava o fecho, ouvi uma
voz falar: uma voz agradvel, baixa e clara, com um
tremor de nervosismo. Disse para comigo que se tratava de uma voz
que reconheceria, se a voltasse a ouvir.
E sabem o que dizia essa voz? Dizia o seguinte: Compreendes que
ela tem de ser morta, no compreendes?Fez uma pausa, antes de
prosseguir: - Nessa altura,
naturellement, no pensei que a frase se referisse a matar carne
e sangue; pensei que se tratava de um escritor ou de um
dramaturgo. Mas agora no tenho a certeza. Ou melhor, tenho a
certeza de que no se tratava
disso.
 Fez nova pausa, mais demorada, antes de dizer:
 - Messieurs, digo-lhes o seguinte: estou convencido
de que tais palavras foram proferidas por um jovem
que, mais tarde, vi na sala do hotel, um jovem que, a
uma pergunta minha, me disseram chamar-se Raymond Boynton.

XII

 - Raymond Boynton disse isso? - perguntou,
surpreendido, o francs.
 - Parece-lhe improvvel... psicologicamente falando? - inquiriu
Poirot, em tom plcido.
 - No, suponho que no. Mas fiquei surpreendido. No sei se me
compreende, mas fiquei surpreendido precisamente porque... porque
Raymond Boynton parece to talhado  medida para ser suspeito.
 O coronel Carbury suspirou. Aqueles tipos com a
mania da psicologia!
 - O que interessa  o seguinte: que vamos fazer?
- perguntou, por sua vez.
 Gerard encolheu os ombros.
 - No vejo o que podero fazer, pois as provas
existentes so inconcludentes. Talvez se convenam de
que se praticou um assassnio, mas ser difcil prov-lo.
 - Compreendo - murmurou o coronel. - Suspeitamos de que se
cometeu um crime e limitamo-nos
a recostar-nos na cadeira e a cruzar os braos. No
gosto disso! - E repetiu, como em desespero de causa, o que j
antes afirmara vrias vezes: - Sou um homem ordenado.
- Bem sei, bem sei... - Poirot acenou com a cabea,
compreensivamente. - Gostaria de esclarecer
este assunto, de saber definitivamente e exactamente o
que aconteceu e como aconteceu. E o senhor, doutor
Gerard? Disse que nada se pode fazer, que as provas
sero, com certeza, inconcludentes... Isso talvez seja
verdade, mas resignar-se- a que tudo fique assim?
 - Ela tinha uma vida precria - respondeu o
Dr. Gerard, devagar. - De qualquer modo, devia
morrer em breve. Dentro de uma semana... um ms...
um ano...
 - Portanto, est resignado? - insistiu Poirot.
 Gerard continuou:
 - No h dvida de que a sua morte foi..., como
dizer?, ... benfica para a comunidade. Proporcionou
liberdade  famlia, que ter agora possibilidade de se
desenvolver. Creio que so todos pessoas de bom carcter e
inteligentes, pessoas que podero agora ser
membros teis da sociedade. Do meu ponto de vista,
da morte de Mistress Boynton s resultou bem.
 - Portanto, est resignado! - teimou Poirot, pela
terceira vez.
 - No! - O francs deu, de sbito, um murro na
mesa. - No estou resignado, como diz. O meu instinto incita-me
a preservar a vida e no a apressar a
morte. Portanto, embora o meu esprito consciente me
repita que a morte desta mulher foi uma coisa boa, o
meu esprito inconsciente rebela-se contra ela. No est certo,
cavalheiros, que um ser humano morra antes
de chegado o seu tempo de morrer.
 Poirot sorriu e recostou-se na cadeira, satisfeito
com a resposta que exigira to pacientemente.
 - Ele no gosta de assassnio - comentou o coronel Carbury, sem
se emocionar. - Muito bem, eu
tambm no gosto! - Levantou-se e preparou um usqui com soda;
os copos dos seus convidados ainda estavam cheios. - Vamos,
agora, ao que interessa. - Pode-se fazer alguma coisa? No
gostamos de assassnio, pois no, mas talvez tenhamos de o
engolir. No
valer a pena perdermos tempo, se no houver nada a
fazer.
 - Qual  a sua opinio profissional, Monsieur Poirot? -
inquiriu o mdico. - O senhor  o especialista.
 Poirot levou o seu tempo a responder. Alinhou metodicamente
dois ou trs cinzeiros e fez um montinho
com os fsforos consumidos.
 - Coronel Carbury, deseja saber, no  verdade,
quem matou Mistress Boynton? (Se ela foi morta, evidentemente,
e no morreu de morte natural. ) Interessa-lhe saber exactamente
como e quando ela foi morta,
isto , toda a verdade acerca do assunto?
 - Sim, gostaria de saber tudo isso.
 - No vejo motivo nenhum para no o sabe. - redarguiu o
detective, a falar muito devagar.
 O Dr. Gerard olhou-o com incredulidade e o coronel mostrou-se
medianamente interessado.
 - No v, hem? Isso  interessante. Como se prope resolver o
problema?
 - Por meio de raciocnio e de uma metdica escolha das provas.
 - Acho bem - declarou o coronel.
 - E, tambm, pelo estudo das possibilidades psicolgicas.
 - O doutor Gerard acha, com certeza, bem...
E depois disso, depois de ter joeirado as provas, raciocinado e
mergulhado na psicologia, acha que pode tirar um coelho do
chapu?
 - Ficaria muito surpreendido se no pudesse. - respondeu
Poirot, calmamente.
 O coronel Carbury observou-o por cima do copo.
Momentaneamente, os seus olhos deixaram de ser vagos, observaram
e avaliaram. Por fim resmungou entre
dentes, pousou o copo e inquiriu:
 - Que diz, doutor Gerard?
 - Admito que encaro com cepticismo a possibilidade de xito.
No entanto, sei que Monsieur Poirot
tem grandes faculdades...
 - Tenho-as, de facto. - O homenzinho sorriu
modestamente.
 Carbury virou a cabea e tossiu, e Poirot continuou:
 - A primeira coisa a esclarecer  se estamos perante um
assassnio de conluio, planeado e executado
pela famlia Boynton como um todo, ou se  obra apenas de um
deles. No ltimo caso, precisamos de avaliar qual  o membro da
famlia com mais probabilidades de tal cometimento.
 - A esse respeito, podemos tomar em considerao aquilo que o
senhor prprio nos disse. Devemos
comear, suponho, por Raymond Boynton.
 - Concordo - declarou o detective. - As palavras ouvidas por
mim e a discrepncia entre as declaraes dele e a afirmao da
jovem mdica colocam-no, sem dvida, na primeira fila dos
suspeitos. De
acordo com a histria por ele contada, foi a ltima
pessoa a ver Mistress Boynton viva. Sarah King, porm, rebate
essa afirmao. Diga-me, doutor, existe...
enfim, sabe a que me refiro... existe, digamos, um
pouco de tendresse entre os dois?
 - Sem dvida nenhuma! - confirmou o mdico,
a acenar com a cabea.
 - Ah! A jovem mdica  uma morena de cabelo
penteado para trs, grandes olhos castanhos e um ar
muito decidido?
 O Dr. Gerard confirmou, surpreendido:
 - Sim, essa descrio assenta-lhe perfeitamente!
 - Creio que a vi no Solomon Hotel. Ela falou com
o tal Raymond Boynton e ele ficou especado, a sonhar
em p e a impedir a sada do elevador. Tive de dizer
Pardon trs vezes antes de ele ouvir e se desviar. - Poirot
pensou, uns instantes, antes de prosseguir:
- Portanto, para comear, aceitamos com certas reservas mentais
o testemunho mdico de Miss Sarah
King. Ela  parte interessada. Diga-me, doutor Gerard, parece-lhe
que Raymond Boynton possui temperamento que lhe permita cometer
facilmente um assassnio?
 - Refere-se a um assassnio deliberado, planeado
e premeditado? Parece-me possvel... mas s em condies de forte
tenso emocional.
 - Essas condies existiam?
 - Sem dvida. Esta viagem ao estrangeiro aumentou a tenso
nervosa e mental em que os membros da
famlia viviam. O contraste entre a sua vida e a das
outras pessoas tornou-se-lhes mais aparente, e no caso
de Raymond Boynton...
 - Sim?
 - Houve a complicao adicional de se sentir fortemente atrado
por Sarah King.
 - E isso dar-lhe-ia um motivo suplementar, um
novo estmulo?
 - Exactamente.
 O coronel Carbury tossiu e meteu-se na conversa:
 - Dem-me licena, por favor. Essa frase que o
senhor ouviu: Compreendes que ela tem de ser morta,
no compreendes?", deve ter sido dita a algum.
 - Boa observao - elogiou o detective. - Esquecera-me desse
pormenor. Sim, com quem estava
Raymond Boynton a falar? Sem dvida com uma pessoa da sua
famlia. Mas qual? Pode-nos dizer alguma
coisa acerca do estado mental dos outros membros da
famlia, doutor?
 Gerard respondeu sem hesitar:
 - Suponho que Carol Boynton se encontrava num
estado muito semelhante ao de Raymond, um estado
de rebelio acompanhado de grave agitao nervosa,
mas, no seu caso, sem a agravante de um factor sexual. Lennox
Boynton j ultrapassara a fase da revolta, estava mergulhado numa
grande apatia e creio que
tinha dificuldade em se concentrar. Como reaco ao
que o cercava, refugiava-se cada vez mais dentro de si

prprio. Transformara-se, indubitavelmente, num introvertido.
 - E a mulher?
 - A mulher, embora fatigada e infeliz, no dava
indcios de qualquer conflito mental. Suponho que se
encontrava hesitante,  beira de uma deciso.
 - Que deciso?
 - Deixar ou no o marido.
 O mdico repetiu a conversa que tivera com Jefferson Cope e
Poirot acenou com a cabea.
 - E acerca da pequena mais nova? Chama-se Ginevra, no ?
 O francs respondeu com uma expresso e num
tom muito grave:
 - Acho que, mentalmente, se encontra num estado gravssimo. J
comeou a evidenciar sintomas de
esquizofrenia. Incapaz de suportar a supresso da sua
vida, refugia-se num mundo de fantasia e tem j acentuadas manias
de perseguio: diz ser uma personagem real em perigo, rodeada
de inimigos... O costume.
 - E isso ... perigoso?
 - Muito perigoso.  o comeo do que, no raro,
se transforma numa mania homicida. O doente no
mata pelo prazer de matar, mas como autodefesa, mata
para no ser morto. Do seu ponto de vista, tal procedimento 
muitssimo racional.
 - Pensa, ento, que Ginevra Boynton podia ter
assassinado a me?
 - Podia, mas duvido que possusse os conhecimentos ou a astcia
necessrios para matar desta forma. A astcia do gnero de mania
de que padece 
geralmente muito simples e evidente. Alm disso, tenho quase a
certeza de que ela escolheria um mtodo
mais espectacular.
 - Mas, apesar de tudo,  uma possibilidade? - insistiu Poirot.

 - .
- E depois, depois de cometido o acto? Pensa que
o resto da famlia sabe quem foi?
 - Sabe! - afirmou, inesperadamente, o coronel
Carbury. - Nunca encontrei nenhum grupo de pessoas com sinais to
evidentes de ter algo que esconder.
 - Obrig-los-emos a dizer-nos o que ! - declarou o detective.
 - Terceiro grau? - perguntou Carbury, de sobrancelhas
arqueadas.
 - No. Simples conversao. Como sabem, de
uma maneira geral as pessoas dizem a verdade. E dizem a verdade
porque  mais fcil, porque exige uma
tenso menor s faculdades inventivas! Pode-se dizer
uma mentira, ou duas mentiras, ou trs mentiras, ou
at quatro mentiras; mas no se pode mentir sempre!
Portanto, a verdade  mais simples.
 - Tem uma certa lgica - admitiu Carbury. - Disse que falava
com eles, no disse? Isso significa
que est disposto a aceitar o caso?
 - Sejamos claros, o mais claros possvel - respondeu Poirot.
- O que o senhor me pede e o que eu
tenciono proporcionar-lhe  a verdade. Mas no esquea que, mesmo
quando estivermos de posse da verdade, talvez no disponhamos de
provas. Isto , de
provas susceptveis de serem aceites num tribunal.
Compreende?
 - Perfeitamente. O senhor elucida-me acerca do
que na realidade sucedeu e depois competir-me- decidir se 
possvel empreender alguma aco, tendo em
conta os aspectos internacionais. De qualquer maneira, o assunto
ficar claro, no haver confuses.
 Poirot sorriu.
 - Mais uma coisa - prosseguiu o coronel. - No lhe posso dar
muito tempo, pois ser-me- impossvel demorar esta gente
indefinidamente.
 - Poder demor-los vinte e quatro horas. Saber
a verdade amanh  noite.
 - Est muito cheio de confiana, no est? - perguntou o
coronel, a fit-lo.

 - Tenho conscincia das minhas aptides.
 Constrangido pela atitude to pouco britnica do
detective, o coronel Carbury desviou o olhar e afagou
o bigode rebelde.
 - Bem,  consigo - murmurou.

XIII

 Sarah King fitou perscrutadoramente Hercule Poirot. Reparou na
cabea ovide, no descomunal bigode,
no aspecto de dandy e na suspeita cor preta do cabelo.
Nos seus olhos insinuou-se uma expresso de dvida.
 - Ento, mademoiselle, est satisfeita?
 Sarah corou, ao ver o seu olhar irnico e divertido,
e murmurou, atrapalhada:
 - Peo desculpa.
 - Du tout! Mediu-me de alto a baixo, como se
costuma dizer, no  verdade?
 A jovem esboou um sorriso.
 - Bem, pelo menos pde pagar-me na mesma
moeda.
 - Sem dvida. No desperdicei essa oportunidade.
 Sarah olhou-o de novo, de p atrs. Havia qualquer coisa no seu
tom... Mas Poirot estava a retorcer o
bigode, complacentemente, e a jovem pensou (pela segunda vez):
O indivduo  um charlato! Recuperada a confiana em si
prpria, endireitou-se melhor na
cadeira e observou:
 - No creio compreender o objectivo desta entrevista.
 - O bom doutor Gerard no lhe explicou?
 - Tambm no compreendo o doutor Gerard. - respondeu Sarah,
de testa franzida. - Ele parece pensar...
- Que existe algo podre no reino da Dinamarca. - citou Poirot.
- Conheo o vosso Shakespeare.
 Sarah acenou com a mo, a despedir Shakespeare,
e perguntou:
 - A que vem, ao certo, tudo isto?
 - Eh bien, desejamos descobrir a verdade deste
caso, no desejamos?
 - Est a referir-se  morte de Mistress Boynton?
 - Estou.
 - No estaro a levantar uma lebre que no existe? O senhor 
especialista, portanto  natural que...
 - Portanto  natural que suspeite da existncia de
crime sempre que me surge um pretexto, no  isso?
 - Bem... talvez.
 - No tem quaisquer dvidas acerca da morte de
Mistress Boynton?
 Sarah encolheu os ombros, antes de responder:
 - Se tivesse ido a Petra, Monsieur Poirot, compreenderia que
a viagem  extenuante para uma mulher idosa e cujo estado
cardaco deixava muito a desejar.
 - Parece-lhe perfeitamente lgico o que sucedeu?
 - Com certeza. No compreendo a atitude do
doutor Gerard. Ele nem sequer deu por nada, pois estava de cama,
com febre. Submeter-me-ia, naturalmente, aos seus conhecimentos
mdicos superiores,
mas neste caso ele no teve nada em que se basear. Suponho que,
se quiserem, se o meu veredicto no os
convencer, podero proceder a uma autpsia, em Jerusalm.
 Poirot pensou um momento, antes de dizer:
 - H um facto que desconhece, Miss King, pois o
doutor Gerard no lho revelou.
 - Que facto?
 - Desapareceu do estojo de medicamentos do
doutor Gerard certa quantidade de uma droga chamada digitoxina.
 - Ah! - Sarah avaliou, acto contnuo, a nova faceta do caso,
mas no deixou de perguntar: - O doutor Gerard tem a certeza
absoluta?
 - Como deve saber, mademoiselle, um mdico
tem, geralmente, cuidado ao prestar declaraes, sobretudo deste
gnero.
 - Sim, evidentemente. Mas o doutor Gerard estava doente, com
um ataque de malria.
 - Tambm  verdade.
 - Ele faz alguma ideia de quando lhe tero tirado
a droga?
 - Teve ocasio de mexer no estojo dos medicamentos na noite em
que chegou a Petra, pois precisou
de uns comprimidos para as dores de cabea. Quando
na manh seguinte arrumou os comprimidos e fechou
o estojo, no notou nenhuma falta, tem quase a certeza de que
todas as drogas estavam intactas.
 - Quase...
 - Sim, h uma dvida - admitiu Poirot, com um
encolher de ombros. - H a dvida que qualquer homem honesto
sentiria.
 - Compreendo. Desconfiamos sempre das pessoas
excessivamente seguras e convencidas. Mesmo assim,
Monsieur Poirot, isso  muito pouco. Parece-me...
 Poirot acabou, mais uma vez, por ela:
 - Parece-lhe desaconselhvel uma investigao da
minha parte.
 - Francamente, parece - confirmou, a olh-lo de
frente. - No haver um pouco de deformao profissional...
 Poirot interrompeu-a, a sorrir:
 - A vida privada de uma famlia devassada e
transtornada para que Hercule Poirot se possa divertir
a brincar aos detectives, hem?
 - No desejo ser ofensiva... mas no ser, em
parte, isso?
 - Est, ento, do lado da famlia Boynton, mademoiselle?
 - Creio que estou. J sofreram muito... no deviam ser
obrigados a sofrer mais.
- A maman era desagradvel, autoritria, antiptica e est
decididamente melhor morta do que estaria
viva?
 - Postas as coisas nesse p... - Sarah calou-se,
corou e concluiu: - Concordo que no devemos tomar esses factores
em considerao.
 - Mas, mesmo assim, tomamo-los! Isto , a mademoiselle toma-os.
Eu no! A mim tanto me faz que a
vtima seja um dos santos do bom Deus como um
monstro de infmia. S um factor me interessa: foi tirada uma
vida. Sempre disse e repito que no aprovo
o assassnio.
 - Assassnio! - Sarah conteve bruscamente a respirao. - Mas
que provas tem disso? As mais frgeis
possveis! O prprio doutor Gerard no pode ter a certeza!
 - Mas h outros indcios, mademoiselle - redarguiu o detective,
calmo e imperturbvel.
 - Quais?
 - A marca deixada por uma injeco no pulso da
morta. E mais, ainda: certas palavras que eu ouvi em Jerusalm,
numa noite calma, quando fui fechar a janela
do meu quarto. Quer que lhe diga que palavras foram
essas, Miss King? Eu digo. Ouvi Mister Raymond
Boynton dizer: Compreendes que ela tem de ser morta,
no compreendes?
 Sarah empalideceu e perguntou:
 - O senhor ouviu isso?
 - Ouvi.
 De olhos fixos, a jovem murmurou:
 - E tinha de ser logo o senhor a ouvi-lo!
 -  verdade, tinha de ser logo eu. So coisas que
acontecem. Compreende agora porque considero necessria uma
investigao?
 - Suponho que tem razo.
 - E ajudar-me-?
 - Com certeza. - A voz de Sarah no exprimia
qualquer emoo e nos seus olhos s havia frieza.

 - Obrigado, mademoiselle. Agora peo-lhe que me
conte, por palavras suas, exactamente o que sucedeu
no dia em questo.
 - Deixe ver... De manh participei numa excurso a que nenhum
dos Boynton compareceu. Vi-os ao
almoo. Mistress Boynton parecia mais bem-disposta
do que era habitual.
 - Consta-me que no costumava ser amvel.
 - Muito longe disso!
 A jovem descreveu, a seguir, o modo como a velha
dispensara a famlia de lhe ficar a fazer companhia.
 - Isso tambm no era habitual?
 - No. Geralmente no os deixava afastarem-se
dela.
 - Parece-lhe que se ter sentido, de sbito, repesa, que teve
aquilo a que se chama um bom momento?
 - No, no me parece - respondeu Sarah, sem
hesitar.
 - Que lhe pareceu, ento, estar na origem desse
procedimento?
 - Fiquei intrigada e pensei que se devia tratar de
uma espcie de jogo de gato-e-rato.
 - Se quisesse fazer o favor de ser mais explcita,
mademoiselle. ..
 - Um gato gosta de largar um rato, para depois o
voltar a apanhar. Mistress Boynton possua esse tipo
de mentalidade. Pensei, por isso, que estava a engendrar uma nova
perfdia.
 - E depois, que sucedeu?
 - Os Boynton partiram...
 - Todos?
 - No. A pequena mais nova, Ginevra, ficou.
A me ordenou-lhe que descansasse.
 - E ela desejava descansar?
 - No, mas isso no interessava. Fez o que lhe
mandaram. Os outros partiram e eu e o doutor Gerard
fomos ter com eles...
 - Quando foi isso?
- Cerca das trs e meia.
 - Onde estava, ento, Mistress Boynton?
 - Nadine, Mistress Lennox, sentara-a na cadeira,
 entrada da caverna.
 - Prossiga.
 - Quando contornmos a curva, o doutor Gerard
e eu alcanmos os outros. Seguimos juntos, mas passado um bocado
o doutor Gerard voltou para trs. Havia momentos que parecia
esquisito e eu percebi que
tinha febre. Quis voltar com ele, mas no mo consentiu.
 - Que horas eram, ento?
 - Umas quatro, suponho.
 - E os restantes?
 - Continumos o passeio.
 - Todos juntos?
 - Ao princpio, sim. Depois separmo-nos. - Sarah comeou a
falar mais depressa, como se adivinhasse a pergunta seguinte: -
Nadine Boynton e Mister
Cope foram para um lado e Carol, Lennox, Raymond
e eu para outro.
 - E continuaram assim?
 - Bem... no. Raymond e eu separmo-nos dos
outros. Sentmo-nos numa rocha, a admirar a paisagem, at que ele
regressou e eu me deixei ficar mais
um bocado. Eram quase cinco e meia quando vi as horas e achei
melhor regressar, tambm. Cheguei ao
acampamento s seis horas.
 - Passou por Mistress Boynton, ao regressar?
 - Reparei que ainda se encontrava na sua cadeira,
na plataforma rochosa.
 - No lhe pareceu estranho que ela no se tivesse
mexido?
 - No. J a vira ali sentada, da mesma maneira,
na noite anterior, quando o nosso grupo chegara.
 - Compreendo. Continue.
 - Fui  tenda grande, onde se encontravam todos
os outros, menos o doutor Gerard. A seguir fui-me lavar e voltei.
Quando comearam a servir o jantar, um
dos criados foi chamar Mistress Boynton, mas voltou a
correr e disse que ela estava doente. Fui imediatamente v-la.
Continuava sentada na cadeira, mas mal lhe
toquei compreendi que estava morta.
 - No teve quaisquer dvidas quanto ao facto de
a sua morte ser natural?
 - No. Ouvira dizer que sofria do corao, embora no tivessem
mencionado nenhuma doena especfica.
 - Pensou que ela morrera sentada na cadeira?
 - Pensei.
 - Sem pedir auxlio?
 - Sim. Acontece assim, s vezes. Podia, at, ter
morrido enquanto dormia, pois era natural que tivesse
passado pelo sono. No acampamento dormiram todos
a sesta, durante a maior parte da tarde, e ningum a
ouviria, mesmo que pedisse auxlio, a no ser que gritasse muito
alto.
 - Calculou havia quanto tempo ela morrera?
 - Bem, confesso que no pensei muito nisso. Era
evidente, no entanto, que morrera havia algum tempo.
 - Como define esse algum tempo?
 - Bem... mais de uma hora. Mas tambm podia
ser muito mais do que isso. A reflexo do calor da rocha no
deixaria o seu corpo arrefecer muito depressa.
 - Mais de uma hora? Sabe que Mister Raymond
Boynton falou com ela pouco mais de meia hora antes
de a mademoiselle a encontrar morta e que ela estava,
ento, viva?
 Sarah baixou os olhos, mas abanou a cabea e respondeu:
 - Deve-se ter enganado, deve ter falado com ela
mais cedo.
 - No, mademoiselle, no foi mais cedo.
 Sarah fitou-o e Poirot notou, mais uma vez, o trao
firme da sua boca.
 - Sou nova e no tenho muita experincia de lidar
com cadveres, mas sei o suficiente para ter a certeza
de uma coisa: Mistress Boynton morrera havia pelo
menos uma hora quando examinei o seu corpo!
 - Essa  a sua histria,  qual se manter firme. - comentou
Poirot, inesperadamente.
 -  a verdade.
 - Poder, ento, explicar por que motivo Mister Boynton disse
que a me estava viva quando na
realidade ela estava morta?
 - No fao a mnima ideia. Provavelmente tm
todos uma noo muito vaga do tempo. Constituem
uma famlia muito nervosa.
 - Quantas vezes falou com eles, mademoiselle?
 Sarah franziu a testa, a pensar.
 - No tenho a certeza... Falei com Raymond
Boynton no corredor do comboio, quando vnhamos
de Jerusalm; falei duas vezes com Carol Boynton,
uma na Mesquita de Omar e outra na noite desse dia,
no meu quarto; falei com Mistress Lennox Boynton
na manh seguinte... E foi tudo, at  tarde em que
Mistress Boynton morreu e em que passemos todos
juntos.
 - No teve nenhuma conversa com a prpria Mistress Boynton?
 Sarah corou, constrangida.
 - Tive. Troquei algumas palavras com ela, no dia
em que partiu de Jerusalm. - E confessou, atrapalhada: - Para
ser franca, armei em idiota.
 - Sim? - A interrogao era to vincada que,
embora contrafeita, Sarah relatou a conversa.
 Poirot pareceu interessado e interrogou-a com mincia a esse
respeito.
 - A mentalidade de Mistress Boynton  muito importante, neste
caso. E a mademoiselle  uma pessoa de
fora, uma observadora sem ideias preconcebidas.
 por isso que a sua opinio acerca dela se reveste de
tanto significado.
 Sarah no respondeu. Ainda corava e se sentia mal

quando recordava o que dissera  velha Mistress Boynton.
 - Obrigado, mademoiselle. Agora conversarei com
as outras testemunhas.
 Sarah levantou-se.
 - Desculpe, Monsieur Poirot, mas se me permite
uma sugesto...
 - Sem dvida, sem dvida!
 - Porque no adia tudo isto at efectuarem a autpsia e saber
se as suas suspeitas so ou no justificadas?
 Poirot levantou a mo, num gesto pomposo, e redarguiu:
 -  este o mtodo de Hercule Poirot.
 Sarah cerrou os lbios com forca e saiu.

XIV

 Lady Westholme entrou na sala com a segurana
de um transatlntico a entrar na doca.
 Miss Amabel Pierce, um barquito sem importncia, entrou na sua
esteira e sentou-se numa cadeira
mais modesta e um pouco para a retaguarda.
 - Claro que terei muito prazer em o auxiliar de
todos os modos possveis - afirmou Lady Westholme.
- Sempre achei que, em assuntos desta natureza, temos o dever
cvico...
 Depois de Lady Westholme dissertar durante alguns minutos
acerca dos deveres cvicos, Poirot conseguiu fazer uma pergunta.
 - Lembro-me perfeitamente da tarde em questo
- respondeu-lhe, sem hesitar, a poltica inglesa. - Miss Pierce
e eu faremos tudo quanto estiver ao nosso
alcance para o ajudarmos.
 - Oh, com certeza! - exclamou Miss Pierce,
quase em xtase. - To trgico! Morreu enquanto o
Diabo esfregou um olho...
 - Agradecia que me dissessem exactamente o que
sucedeu.
 - Pois sim - prontificou-se Lady Westholme. - Depois de
almoarmos, resolvi dormir uma pequena
sesta, pois a excurso da manh fora um pouco fatigante. No que
estivesse realmente fatigada, pois no
sei o que  o cansao. Em funes pblicas, seja como
for que nos sintamos, temos tantas vezes...
 Mais uma vez, Poirot insinuou uma pergunta.
 - Como disse, resolvi dormir uma sesta. Miss
Pierce concordou comigo.
 - Oh, sim! - confirmou Miss Pierce. - Estava
terrivelmente cansada, depois do passeio da manh. Foi
uma subida perigosa e muito exaustiva, apesar de interessante.
No sou to forte como Lady Westholme...
 - Portanto, depois do almoo, cada uma das senhoras foi para
a sua tenda?

 - Sim.
 - Mistress Boynton estava sentada  entrada da
sua caverna?
 - A nora instalou-a l, antes de partir.
 - Podiam v-la ambas?
 - Oh, sim! - afirmou Miss Pierce. - Ela estava
defronte de ns, embora a certa distncia e um pouco
acima.
 Lady Westholme esclareceu:
 - As cavernas davam para uma plataforma, abaixo
da qual ficavam algumas tendas. Depois havia um regato e do outro
lado do regato ficava a tenda grande
e algumas tendas mais. As nossas, a de Miss Pierce e a
minha, ficavam perto da tenda grande, a dela do lado
direito e a minha do lado esquerdo. A abertura das
nossas tendas ficava virada para a plataforma, mas
com alguma distncia de permeio.
 - Cerca de cento e oitenta metros, segundo me
consta?
 - Talvez.

 - Tenho aqui uma planta, elaborada com a ajuda
do dragomano, Mahmud.
 Lady Westholme observou que provavelmente estava errada:
 - Esse homem  muito pouco exacto. Confrontei
as suas informaes com o meu Baedeker e encontrei
vrios erros crassos.
 - Segundo a minha planta - prosseguiu Poirot -,
a caverna contgua  de Mistress Boynton era ocupada
pelo seu filho Lennox e pela mulher deste. Raymond,
Carol e Ginevra Boynton tinham tendas em baixo, mas
mais para a direita, na realidade quase defronte da
tenda grande.  direita da tenda de Ginevra Boynton
ficava a do doutor Gerard e ao lado da deste a de
Miss King. Do outro lado (perto da tenda grande e 
esquerda), ficava a sua tenda e a de Mister Cope. A de
Miss Pierce, como mencionou, ficava  direita da tenda grande.
Est certo?
 Lady Westholme admitiu, com cara de poucos
amigos, que parecia estar certo.
 - Obrigado. Queira continuar.
 A inglesa sorriu e continuou:
 - Cerca de um quarto para as quatro, fui  tenda
de Miss Pierce, para saber se j estava acordada e lhe
apetecia dar um passeio. Encontrei-a sentada  entrada, a ler.
Combinmos que partiramos dali a meia
hora, quando o sol estivesse menos forte. Regressei 
minha tenda e li durante cerca de vinte e cinco minutos. Depois
fui ter com Miss Pierce e partimos. No
acampamento parecia estar toda a gente a dormir, pois
no se via ningum. Ao reparar em Mistress Boynton,
sentada sozinha, sugeri que lhe perguntssemos se desejava alguma
coisa, antes de partirmos.
 -  verdade - murmurou Miss Pierce. - Foi
uma ideia muito simptica da sua parte.
 - Achei que era meu dever.
 - E, afinal, ela foi to grosseira!
 Poirot arqueou as sobrancelhas, interrogador.
- O nosso caminho passava sob a plataforma - explicou Lady
Westholme - e eu disse a Mistress Boynton que amos dar um
passeio e perguntei-lhe se desejava que lhe fizssemos alguma
coisa, antes de partirmos.
Sabe qual foi a nica resposta que ela nos deu, Monsieur Poirot?
Um rosnido! Olhou-nos como se fssemos... como se fssemos lixo!
 - Uma grande m educao! - afirmou, corada,
Miss Pierce.
 - Confesso que, nesse momento, fiz uma observao pouco
generosa... - disse Lady Westholme, e corou tambm um pouco.
 - Qual foi essa observao?
 - Disse a Miss Pierce que talvez ela tivesse bebido! Na
verdade, a sua atitude tinha sido to peculiar,
desde o princpio... Enfim, pensei que a bebida talvez
fosse uma justificao.
 Habilmente, Poirot desviou a conversa do pormenor da bebida.
 - A atitude dela fora muito peculiar, no dia em
questo? Ao almoo, por exemplo?
 - No... - respondeu Lady Westholme, pensativa. - Creio que a
sua atitude foi razoavelmente normal... para uma americana
daquele tipo, claro.
 - Foi muito grosseira com o criado - lembrou
Miss Pierce.
 - Ah, sim! Pareceu muito aborrecida com ele.
Claro que  muito irritante lidar com criados que no
compreendem uma palavra de ingls, mas quando viajamos temos de
dar desconto a certas coisas.
 - De que criado se tratou?
 - Um dos bedunos de servio no acampamento.
Foi ter com ela... Creio que Mistress Boynton o deve
ter mandado buscar qualquer coisa e ele lhe levou outra. No sei
o que se passou, s sei que ela pareceu
muito irritada. O pobre homem afastou-se o mais depressa que
pde, mas ela ameaou-o com a bengala e
gritou.

 - Gritou o qu?
 - A distncia no nos deixou ouvir. Pelo menos
 eu no ouvi nada. E a senhora, Miss Pierce?
 - Tambm no. Suponho que ela o mandara buscar qualquer coisa
 tenda da filha mais nova... ou que
 estava irritada com ele por ter entrado na tenda da pequena...
No compreendi bem.
 - Como era ele?
 Miss Pierce abanou a cabea, de modo vago.
 - Francamente, no sei. A distncia era muita e
 estes rabes parecem-me todos iguais.
 - Era um homem de altura superior  mdia explicou a lady
inglesa - e usava na cabea o orna mento nativo. Vestia uns
cales muito rotos e remendados (uma vergonha!) e tinha as
grevas mal enroladas.
 - Poderia indicar esse criado, entre os outros?
 - Duvido. No lhe vimos a cara, devido  distncia, e, como
Miss Pierce disse, estes rabes parecem
 todos iguais.
 - Que ter ele feito para irritar tanto Mistress Boynton? -
murmurou Poirot, pensativo.
I
 - As vezes esgotam a pacincia a uma pessoa sentenciou Lady
Westholme. - Um deles levou-me os
 sapatos, apesar de eu lhe ter dito (por gestos, claros!)
 que preferia limp-los pessoalmente.
 - Tambm fao sempre isso - disse Poirot, por
 momentos distrado do assunto em causa. - Trago
 sempre comigo o material necessrio para limpar os
 sapatos e um pano do p.
 - Tambm eu. - Lady Westholme pareceu perfeitamente humana, ao
fazer tal afirmao.
 - Os criados rabes no limpam o p aos objectos
 de cada um...
 - Tem razo! Eu no posso tolerar falta de limpeza! As moscas,
nos bazares... Oh,  terrvel!
 - Muito bem, muito bem - murmurou Poirot,
 com um ar um pouco culpado. - Em breve poderemos perguntar a
esse homem que fez ele para irritar
Mistress Boynton. Continue com a sua histria, sim?
 - Comemos a passear devagar e, um pouco
adiante, encontrmos o doutor Gerard, que vinha a
cambalear e parecia muito doente. Vi logo que tinha
febre.
 - Tremia todo - acrescentou Miss Pierce.
 - Compreendi que se tratava de um ataque de
malria e ofereci-me para o acompanhar e arranjar-lhe
quinino, mas ele disse que estava prevenido com o medicamento.
 - Pobre homem! - lamentou Miss Pierce. - Parece-me sempre to
triste ver um mdico doente!
 - Continumos a passear e por fim sentmo-nos
numa rocha.
 - Eu estava to cansada depois do esforo da manh... de toda
aquela subida...
 - No sei o que  o cansao - repetiu Lady
Westholme, com firmeza. - Mas no valia a pena irmos mais longe.
Donde estvamos, podamos admirar
bem todo o panorama circundante...
 - To romntico! Um acampamento levantado no
meio de um deserto de rochas vermelhas!
 - Um acampamento que podia ser muito melhor
dirigido do que ! - sentenciou Lady Westholme,
com as grandes narinas frementes. - Hei-de falar do
assunto a Castle. Duvido muito que fervam e filtrem a
gua que se bebe... Hei-de frisar esse pormenor.
 Poirot tossiu e desviou o assunto da gua que se
bebia:
 - Viram alguns outros membros do grupo?
 - Vimos. Mister Lennox Boynton e a mulher passaram por ns,
quando regressavam ao acampamento.
 - Passaram juntos?
 - No. Mister Boynton passou primeiro e parecia
um pouco tonto, como se tivesse apanhado uma ponta
de sol.
 - Que fez Mister Lennox Boynton, ao chegar ao
acampamento?

 Pela primeira vez, Miss Pierce conseguiu antecipar-se  outra
senhora:
 - Foi logo ter com a me, mas no ficou muito
tempo com ela.
 - Quanto tempo calcula?
 - Apenas um ou dois minutos.
 - Quanto a mim, diria que foi pouco mais de um
minuto - interveio Lady Westholme. - Depois entrou na sua caverna
e a seguir saiu e desceu para a tenda grande.
 - E a mulher?
 - Chegou cerca de um quarto de hora depois. Parou um momento
a conversar connosco, delicadamente.
 - Acho-a muito simptica - elogiou Miss Pierce.
 - No  to impossvel como o resto da famlia. - condescendeu
Lady Westholme.
 - Viram-na regressar ao acampamento?
 - Vimos. Falou um momento com a sogra e depois entrou na sua
caverna, trouxe uma cadeira, sentou-se e continuou a conversar
com ela durante cerca
de dez minutos.
 - E a seguir?
 - Levou a cadeira para dentro e foi para a tenda
grande, onde o marido estava.
 - Que se passou depois?
 - Chegou aquele outro americano, creio que se
chama Cope - respondeu Lady Westholme. - Disse-nos que encontrara
um excelente exemplo da arquitectura menor do perodo, logo a
seguir  curva do
vale, e aconselhou-nos a no deixarmos de o admirar.
 Resolvemos ir at l.
 - Era muito interessante - declarou Miss Pierce.
 - Voltmos ao acampamento cerca das cinco e
quarenta.
 - Mistress Boynton ainda estava sentada no mesmo stio?
 - Ainda.
 - Falaram com ela?
- No. Para ser franca, mal reparei nela.
 - Que fez a senhora a seguir?
 - Fui  minha tenda mudar de sapatos e buscar o
meu pacote de ch da China. Voltei  tenda grande
e disse ao guia que fizesse ch para Miss Pierce e para
mim, do meu, e recomendei-lhe que deixasse a gua a
ferver bem. Observou-me que o jantar estaria pronto
dali a meia hora, os criados j estavam a pr a mesa,
mas eu respondi-lhe que no importava.
 - Estava algum na tenda grande?
 - Estava, sim. Mister e Mistress Lennox Boynton
estavam sentados a um canto, a ler. E Carol Boynton
tambm l se encontrava.
 - E Mister Cope?
 - Bebeu ch connosco - informou Miss Pierce -,
embora dissesse que beber ch no era um hbito
americano.
 Lady Westholme tossiu e acrescentou:
 - Tive um certo receio de que Mister Cope se tornasse
aborrecido, de que me impusesse a sua companhia. Por vezes 
difcil manter as pessoas  distncia,
quando viajamos... Tm uma certa tendncia para se
dar ares e os Americanos, sobretudo, so, s vezes,
muito estpidos.
 - Estou certo de que a senhora  muito capaz de
resolver as situaes dessa natureza - murmurou Poirot, em tom
muito suave.
 - Julgo-me capaz de resolver a maior parte das
situaes - admitiu Lady Westholme, complacente,
sem reparar no brilho malicioso dos olhos do detective.
 - Queira ter a bondade de concluir o seu relato,
sim?
 - Com certeza. Se a memria no me falha, pouco
depois chegaram Raymond Boynton e a pequena ruiva. Miss King foi
a ltima a chegar. O jantar estava
pronto e o dragomano mandou um dos criados informar Mistress
Boynton. O homem voltou a correr, com

um dos seus camaradas, e falou muito agitado, e em
rabe, ao dragomano. Disse-nos que Mistress Boynton
estava doente e Miss King ofereceu os seus servios.
Acompanhou o dragomano e quando voltou deu a notcia aos
familiares de Mistress Boynton.
 - E como aceitaram eles a notcia?
 Pela primeira vez, as duas mulheres pareceram um
pouco atrapalhadas. Por fim, Lady Westholme respondeu, em voz a
que faltava a segurana habitual:
 - Bem...  difcil dizer. Ficaram... ficaram muito
calados.
 - Atordoados - disse Miss Pierce, mais como
quem oferece uma sugesto do que como se mencionasse um facto.
 - Foram todos com Miss King, mas Miss Pierce e
eu tivemos a decncia de ficar onde estvamos. - O olhar de Miss
Pierce exprimiu uma certa mgoa...
- Detesto a curiosidade vulgar!
 A mgoa tornou-se mais pronunciada.
 - Mais tarde - prosseguiu Lady Westholme -,
o dragomano e Miss King voltaram. Sugeri que nos
servissem imediatamente o jantar, aos quatro, para
que a famlia Boynton pudesse jantar depois, sem o
constrangimento da presena de pessoas estranhas.
A minha sugesto foi aceite e logo depois do jantar retirei-me
para a minha tenda. Miss King e Miss Pierce
fizeram o mesmo, mas creio que Mister Cope ficou na
tenda grande. Como amigo da famlia, deve ter pensado que poderia
ser til nalguma coisa.  tudo quanto sei.
 - Depois de Miss King dar a notcia, toda a famlia Boynton
saiu com ela da tenda grande?
 - Sim... no. Agora que fala disso, creio que a
pequena ruiva ficou. Lembra-se, Miss Pierce?
 - Sim, creio... tenho a certeza de que ficou.
 - Que fez ela?
 Lady Westholme olhou-o, surpreendida.
 - Que fez ela, Monsieur Poirot? No fez nada,
que me lembre.
- Quero dizer, estava a coser, ou a ler, mostrou-se
inquieta, disse alguma coisa?
 - Bem, para ser franca... - Lady Westholme
franziu a testa. - Que me lembre, estava sentada e
deixou-se ficar, imvel.
 - Torceu os dedos - disse, de sbito, Miss Pierce. - Lembro-me
de reparar nisso e de pensar para
comigo: Pobrezinha, mostra assim o que sente! Mas
a sua cara no denunciava nada... s torcia os dedos.
Lembro-me de, uma vez, eu prpria ter rasgado desse
modo uma nota de libra, sem pensar no que estava a
fazer. Deverei apanhar o primeiro comboio e ir ter
com ela? (Era uma tia-av minha, que adoecera subitamente.)
Ou ser melhor no ir? Hesitante, sem saber que decidir,
olhei para baixo e vi que em vez de
rasgar o telegrama que recebera com a notcia estava a
rasgar aos bocadinhos uma nota de libra - uma nota
de libra, imaginem!
 Um pouco desaprovadora daquela sbita entrada
na ribalta da sua satlite, Lady Westholme perguntou,
friamente:
 - Deseja mais alguma coisa, Monsieur Poirot?
 Poirot estremeceu, como se a pergunta o apanhasse
de surpresa.
 - Nada... nada... Foi muito explcita, muito clara.
 - Tenho uma excelente memria.
 - J agora, s mais um favorzinho, Lady Westholme... Peo-lhe
que continue sentada como est,
sem virar a cabea... Quer ter a amabilidade de me
descrever como est vestida Miss Pierce? Isto, evidentemente, se
Miss Pierce no se ope...
 - Oh, no, de modo nenhum! - exclamou Miss
Pierce.
 - Francamente, Monsieur Poirot, h algum objectivo...
 - Tenha a bondade de fazer o que lhe pedi, madame.
 Lady Westholme encolheu os ombros e disse, com
maus modos:

 - Miss Pierce traz um vestido de algodo s riscas
castanhas e brancas, com um cinto sudans de cabedal
vermelho, azul e creme. Usa meias de seda creme e sapatos de
tiras castanhos. Tem uma malha cada na
meia esquerda. Traz um colar de cornalinas e outro
de contas azuis-vivas, um broche com uma borboleta
de prolas e, no dedo mdio da mo direita, um anel
com um camafeu de imitao. Na cabea usa uma boina dupla, de
feltro cor-de-rosa e castanho. - Fez uma
pausa, para que tomassem a devida conscincia dos
seus poderes de observao, e perguntou, friamente:
- Mais alguma coisa?
 - Merece toda a minha admirao, madame!
 muitssimo observadora.
 - Os pormenores raramente me escapam.
 Lady Westholme levantou-se, inclinou um pouco a
cabea e saiu da sala. Quando Miss Pierce se preparava para a
seguir, a olhar desanimadamente para a perna esquerda, Poirot
pediu-lhe:
 - Um momentinho, mademoiselle...
 - Que deseja?
 O detective inclinou-se para a frente, com um ar
muito confidencial, e perguntou-lhe:
 - V aquele ramo de flores silvestres, na mesa?
 - Vejo - respondeu Miss Pierce, de olhos muito
abertos.
 - E notou que, quando entrou na sala, espirrei
uma ou duas vezes?
 - Notei.
 - Reparou, acaso, se eu estivera a cheirar as
flores?
 - Bem... confesso que no sei.
 - Mas lembra-se de eu espirrar?
 - Oh, sim, disso lembro-me!
 - Est bem, no tem importncia. Estava a pensar se as flores
me provocariam febre dos fenos... Mas
no tem importncia.
 - Febre dos fenos! - exclamou Miss Pierce. - Tive uma prima
que era uma mrtir com isso! Dizia
que se esfregasse diariamente o nariz com uma soluo de..
 Poirot anotou, com certa dificuldade, o tratamento
nasal da prima de Miss Pierce e mandou esta embora.
Fechou a porta e voltou a sentar-se, de sobrancelhas
arqueadas.
 - Mas eu no espirrei... - murmurou. - No,
eu no espirrei!

XV

 Lennox Boynton entrou na sala em passo rpido e
resoluto. Se estivesse presente, o Dr. Gerard surpreender-se-ia
com a modificao operada no indivduo.
A apatia desaparecera e ele estava atento, embora visivelmente
nervoso. Os seus olhos mostravam uma certa
tendncia para se desviarem rapidamente de um ponto
para outro da sala.
 - Bons dias, Monsieur Boynton. - Poirot levantou-se e inclinou
cerimoniosamente a cabea, e Lennox
correspondeu com um certo constrangimento. - Estou-lhe muito
grato por me conceder esta entrevista.
 - O coronel Carbury disse que seria conveniente...
aconselhou-a... Disse que se tratava de formalidades...
 - Queira sentar-se, Monsieur Boynton.
 Lennox sentou-se na cadeira ocupada pouco antes
por Lady Westholme, e Poirot prosseguiu, com naturalidade:
 - Creio que deve ter sido um grande abalo para si...
 - Sim, claro... ou talvez no... Sabamos que o
corao da nossa me no era forte.
 - Ter sido sensato, nessas circunstncias permitir-lhe
empreender uma viagem to extenuante?

 Lennox Boynton levantou a cabea e respondeu,
no sem uma certa dignidade triste:
 - A minha me, Monsieur Poirot, tomava as suas
prprias decises. Quando se lhe metia na cabea fazer
uma coisa, era intil tentarmos contrari-la.
 - Sei perfeitamente que as senhoras idosas so, s
vezes, muito obstinadas...
 - Qual  o objectivo de tudo isto? - perguntou
Lennox, incapaz de dominar a irritao. - Porque
surgiram todas essas formalidades?
 - Talvez no saiba, Monsieur Boynton, que em
casos de morte sbita e inexplicada as formalidades
no podem deixar de surgir.
 - Inexplicada? Que quer dizer com isso?
 Poirot encolheu os ombros.
 - H sempre que considerar se a morte ter sido
natural ou, talvez, resultante de suicdio.
 - Suicdio? - repetiu Lennox Boynton, de olhos
arregalados.
 - Claro que os senhores estaro, por certo, mais
bem informados acerca de tais possibilidades. O coronel Carbury,
naturalmente, no faz a mnima ideia e
precisa de decidir se deve ordenar um inqurito, a autpsia e
tudo o mais. Como, por coincidncia, me encontrava c, e como
tenho muita experincia de tais
assuntos, o coronel pediu-me que procedesse a algumas
investigaes e o aconselhasse quanto ao procedimento a adoptar.
Evidentemente, ele no deseja causar-lhes inconvenientes
desnecessrios.
 - Telegrafarei ao nosso cnsul em Jerusalm! - declarou
Lennox, irritado.
 - Tem todo o direito de o fazer - redarguiu o
detective, sem se impressionar.
 Seguiu-se um momento de silncio e, por fim, Poirot abriu as
mos e prosseguiu:
 - Se no deseja responder s minhas perguntas...
 - No me oponho, de maneira nenhuma! - apressou-se Lennox
Boynton a afirmar. - Parece-me
apenas... to desnecessrio...
- Compreendo perfeitamente. Mas  tudo muito
simples, um assunto de rotina, como se costuma dizer.
Creio que, na tarde em que a sua me morreu, saiu do
acampamento de Petra e foi dar um passeio?
 -  verdade, fomos todos... com excepo da minha me e da
minha irm mais nova.
 - A sua me estava sentada  entrada da caverna?
 - Exactamente, logo  entrada. Esteve l sentada
toda a tarde.
 - Muito bem. Que horas eram quando partiram?
 - Passava pouco das trs, suponho.
 - E quando regressou do passeio?
 - No sei dizer com exactido. Quatro horas...
talvez cinco...
 - Cerca de uma ou duas horas depois de partir?
 - Sim, mais ou menos.
 - Passou por algum, ao regressar?
 - Como?
 - Se passou por algum? Duas senhoras sentadas
numa rocha...
 - No sei... Sim, creio que passei.
 - Vinha absorto nos seus pensamentos e no reparou?
 - Sim, vinha.
 - Falou com a sua me, quando chegou?
 - Falei... falei.
 - E ela no se queixou, no disse que se sentia mal?
 - No. Parecia perfeitamente bem.
 - Permite que lhe pergunte o que disseram, ao
certo?
 Lennox hesitou, um momento.
 - Ela disse que eu voltara cedo e eu respondi-lhe
que sim... - Fez nova pausa, a tentar concentrar-se.
- Disse-lhe que estava calor e ela perguntou-me que
horas eram, pois o seu relgio parara. Tirei-lho do
pulso, dei-lhe corda, acertei-o e pu-lo de novo no seu
lugar.
 - E que horas eram? - perguntou Poirot, suavemente.

 - O qu?
 - Que horas eram quando acertou o relgio?
 - Ah, compreendo! Faltavam vinte e cinco minutos para as cinco.
 - Portanto, sabe exactamente a que horas regressou ao
acampamento!
 -  verdade, que estupidez a minha! - Lennox
corou. - Desculpe, Monsieur Poirot, ando com a cabea
transtornada.
 - Oh, compreendo perfeitamente! Foi muito lamentvel... E
depois, que se passou?
 - Perguntei a minha me se queria alguma coisa.
Ch, caf... Ela disse que no e eu fui para a tenda
grande. No vi nenhum dos criados, mas encontrei
gua gasosa e bebi um copo, pois estava com sede.
Depois sentei-me a ler alguns nmeros atrasados do
Saturday Evening Post.
 - A sua esposa foi ter consigo  tenda?
 - Sim, chegou pouco depois.
 - E o senhor no voltou a ver a sua me viva?

 - No.
 - Ela no lhe pareceu agitada ou transtornada,
quando esteve a falar-lhe?
 - No. Pareceu-me exactamente como de costume.
 - No aludiu a nenhum aborrecimento com um
dos criados?
 - No. - Lennox pareceu admirado. - No disse nada.
 -  tudo quanto tem a dizer-me?
 - Sim... acho que sim.
 - Obrigado, Monsieur Boynton. - Poirot inclinou delicadamente
a cabea.
 A entrevista acabara, mas Lennox no pareceu
muito disposto a partir. Hesitou,  porta, e perguntou:
 - Mais... mais nada?
 - No. Talvez queira ter a bondade de me mandar a sua esposa?
Lennox saiu, devagar, e Poirot escreveu, no livro
de apontamentos que tinha ao lado: L. B. 4.35 h. da
tarde.

XVI

 Poirot olhou com interesse a mulher alta, jovem e
 de ar digno que entrou na sala. Levantou-se e inclinou-lhe
cortesmente a cabea.
 - Mistress Lennox Boynton? Hercule Poirot, s
 suas ordens.
 Nadine Boynton sentou-se, a observar tambm o
 detective.
 - Espero que no leve a mal, madame, o facto de
 interferir deste modo no seu desgosto.
 Nadine no respondeu logo e continuou a fit-lo
 gravemente. Por fim, declarou:
 - Creio que  melhor ser absolutamente franca
 consigo, Monsieur Poirot.
 - Concordo, madame.
 - Falou em interferir no meu desgosto, mas tal
 desgosto no existe e, portanto,  intil fingi-lo. No
 gostava da minha sogra e a sinceridade no me permite dizer que
lamento a sua morte.
 - Obrigado, madame, por falar to claro.
 - No entanto, embora no possa fingir desgosto,
 tenho de confessar outro sentimento: remorso.
 - Remorso? - repetiu Poirot, de sobrancelhas arqueadas.
 - Sim. Fui eu que provoquei a sua morte e disso
 me censuro amargamente.
 - Que pretende dizer, madame?
 - Que fui eu a causa da morte da minha sogra.
! Pensei que procedia honestamente, mas o resultado foi
 lamentvel. Para todos os efeitos, matei-a.
 - Quer ter a bondade de especificar essa declara o, madame?

 - No desejo outra coisa - declarou Nadine, de
cabea baixa. - A minha primeira reaco foi, naturalmente,
guardar para comigo os meus assuntos particulares, mas compreendo
que o melhor  falar. Estou
certa de que j tem recebido confidncias de natureza
mais ou menos ntima?

 - J, sim.
 - Ento contar-lhe-ei com toda a simplicidade o
que sucedeu. A minha vida de casada no tem sido
muito feliz. A culpa no  inteiramente do meu marido, pois a me
exercia nele uma influncia prejudicial,
mas ultimamente senti com crescente intensidade que
a minha vida se tornava intolervel. - Fez uma breve
pausa. - Na tarde da morte da minha sogra tomei
uma deciso. Tenho um amigo, um excelente amigo,
que me sugerira mais de uma vez que juntasse a minha sorte 
dele... e nessa tarde eu aceitei a sua proposta.
 - Decidiu deixar o seu marido?
 - Sim.
 - Continue, madame.
 - Tomada essa deciso - prosseguiu Nadine, em
voz mais baixa -, desejei d-la a conhecer o mais depressa
possvel e p-la em prtica. Regressei sozinha
ao acampamento e encontrei a minha sogra sentada 
entrada da caverna. Como no se encontrava ningum
nas imediaes, resolvi dar-lhe logo a notcia. Fui buscar uma
cadeira, sentei-me e disse-lhe o que decidira.
 - Ela ficou surpreendida?
 - Sim, creio que sofreu um grande abalo. Ficou
surpreendida e furiosa, muito furiosa. Barafustou a valer, mas
passados momentos eu recusei-me a continuar
a discutir o assunto, levantei-me e deixei-a. - Baixou
ainda mais a voz ao acrescentar: - Nunca mais a vi
viva.
 Poirot acenou com a cabea, devagar.
 - Compreendo... Pensa que a morte foi consequncia do abalo
sofrido?
- Parece-me quase certo que foi. Ela j se fatigara
excessivamente, na viagem, e a minha notcia e a sua
clera fizeram o resto. Sinto-me ainda mais culpada
porque, em virtude de ter estudado para enfermeira,
devia ter contado com a possibilidade de tal coisa
acontecer.
 Poirot deixou passar alguns minutos, antes de perguntar:
 - Que fez exactamente quando a deixou?
 - Levei a cadeira para a minha caverna, donde a
tirara, e dirigi-me para a tenda grande, onde o meu
marido se encontrava.
 Poirot observou-a com ateno, ao inquirir:
 - Informou-o da sua deciso? Ou j o informara
anteriormente?
 Houve uma pausa brevssima, antes de Nadine responder:
 - Informei-o ento.
 - Como aceitou ele a sua deciso?
 - Ficou muito transtornado.
 - Aconselhou-a a reconsiderar?
 - Ele... ele falou pouco. Compreende, sabamos
ambos, havia algum tempo, que poderia suceder uma
coisa desse gnero.
 - Perdoe a pergunta, mas... o outro homem era
Mister Jefferson Cope?
 - Era - confessou, de cabea baixa.
 Seguiu-se uma longa pausa e depois, sem qualquer
mudana de voz, o detective perguntou:
 - Tem uma seringa hipodrmica, madame?
 - Sim... no.
 Poirot arqueou as sobrancelhas, sem compreender,
e ela explicou:
 - Tenho uma velha seringa, entre outras coisas,
numa farmcia porttil, mas ficou com o grosso da
nossa bagagem, em Jerusalm.
 - Compreendo.
 Seguiu-se nova pausa e, por fim, Nadine Boynton
inquiriu, com uma ponta de inquietao:
- Porque me fez essa pergunta, Monsieur Poirot?
 Em vez de lhe responder, o detective fez-lhe outra
pergunta:
 - Creio que Mistress Boynton andava a tomar um
remdio que continha Digitalis?
 - Andava. - Nadine estava, agora, muito atenta.
 - Destinava-se  sua doena de corao?
 - Destinava.
 - A Digitalis , at certo ponto, uma droga cumulativa?
 - Creio que sim, embora os meus conhecimentos
a esse respeito sejam limitados.
 - Se Mistress Boynton tivesse tomado uma dose
excessiva de Digitalis...
 Ela interrompeu-o, decidida:
 - No tomou. Era sempre muito cuidadosa... e
eu tambm, quando lhe media a dose.
 - Mas o frasco do remdio podia conter uma dose
suplementar. Um erro do farmacutico que o comps,
por exemplo...
 - Parece-me muito pouco provvel.
 - Enfim, as anlises esclarecero esse pormenor.
 - Infelizmente, o frasco partiu-se.
 - Deveras? - perguntou Poirot, a fit-la. - Quem
o partiu?
 - No tenho a certeza, mas suponho que foi um
dos criados. Ao transportar o corpo da minha sogra
para a caverna, houve uma certa confuso, tanto mais
que a luz era m, e uma mesa caiu.
 Poirot fitou-a longamente.
 - Isso  muito interessante - comentou, por fim.
 Nadine Boynton mudou de posio na cadeira.
 - Pretende insinuar, suponho, que a minha sogra
no morreu em consequncia de um abalo sofrido e,
sim, de uma dose excessiva de Digitalis? Isso parece-me
impossvel.
 Poirot inclinou-se para a frente e perguntou, a sublinhar bem
as palavras:
 - Mesmo que eu lhe diga que o doutor Gerard, o mdico francs
que estava no acampamento, deu por falta de
uma quantidade aprecivel de um preparado de digitoxina, que
trazia no estojo de medicamentos?
 Nadine Boynton empalideceu, cerrou as mos no
rebordo da mesa e baixou a cabea.
 - Ento, madame, que me diz?
 Os segundos passaram, em silncio. Ao fim de dois
minutos, a jovem levantou a cabea e Poirot estremeceu, ao ver
a expresso dos seus olhos.
 - Monsieur Poirot, eu no matei a minha sogra.
Sabe isso perfeitamente, ela estava viva e bem quando
a deixei, como vrias pessoas podem confirmar. Como
estou inocente do crime, posso atrever-me a fazer-lhe
um apelo. Porque se meteu neste assunto? No abandonar a
investigao se eu lhe der a minha palavra de
honra de que s foi feita justia? No faz ideia do sofrimento
que ela causou! Agora que, finalmente, h
paz e a possibilidade de felicidade, ter de destruir
tudo?
 Poirot endireitou-se na cadeira e redarguiu:
 - Sejamos claros, madame. Que me est a pedir?
 - Digo-lhe que a minha sogra morreu de morte
natural e peo-lhe que aceite a minha afirmao.
 - Sejamos ainda mais claros: a senhora acredita que
a sua sogra foi deliberadamente assassinada e pede-me
que aprove o assassnio!
 - Peo-lhe que tenha compaixo!
 - Sim, compaixo por quem no a teve!
 - No compreende... no foi isso...
 - Foi a senhora prpria que cometeu o crime, para saber to bem
o que se passou?
 - No - respondeu Nadine, tranquilamente, sem
quaisquer indcios de culpa. - Ela estava viva quando
a deixei.
 - E que sucedeu depois? Sabe ou suspeita?
 - Consta-me, Monsieur Poirot, que uma vez, naquele caso do
Expresso do Oriente, aceitou o veredicto
oficial do que sucedeu! - replicou Nadine, apaixonadamente.

 - Quem lhe ter dito isso? - inquiriu o detective, cheio de
curiosidade.
 -  verdade?
 - Esse caso era... diferente - respondeu, devagar.
 - No, no era diferente! O homem assassinado
era diablico... como ela.
 - O carcter moral da vtima no tem nada a ver
com o assunto! Um ser humano que exerceu o direito
de julgar pessoalmente e de tirar a vida a outro ser humano
constitui um perigo!
 - Como  duro!
 - Em certas coisas sou, de facto, muito duro, madame. No
aprovo o assassnio, nunca.  esta a ltima
palavra de Hercule Poirot.
 Nadine Boynton levantou-se, com um brilho feroz
no olhar.
 - Pois continue, leve runa e angstia  vida de
pessoas inocentes! No tenho mais nada a dizer.
 - Mas eu... eu penso que tem muito que dizer.
 - No, no tenho nada!
 - Oh, tem! Que sucedeu, madame, depois de deixar a sua sogra?
Que sucedeu enquanto esteve com o
seu marido na tenda grande?
 - Como quer que saiba? - indagou, com um encolher de ombros.
 - Sabe... ou suspeita.
 - No sei nada, Monsieur Poirot - respondeu, a
fit-lo nos olhos, e depois virou as costas e saiu.

XVII

 Depois de anotar no seu livro de apontamentos,
N. B. 4.40 h., Poirot abriu a porta e chamou o homem que o
coronel Carbury pusera ao seu dispor.
Mandou-o buscar Miss Carol Boynton.
O detective observou com interesse a jovem, quando ela chegou -
o cabelo castanho, o porte da cabea
 no pescoo comprido, a energia nervosa das mos bonitas...
 - Sente-se, mademoiselle.
 Ela sentou-se, obedientemente. O seu rosto mantinha-se
inexpressivo.
 Poirot comeou a conversa com uma frase maquinal de
condolncias, que a jovem aceitou imperturbvel.
 - E agora, mademoiselle, quer fazer o favor de me
contar como passou a tarde do dia em questo?
 A resposta foi to rpida que deu origem  suspeita
de que fora ensaiada:
 - Depois do almoo fomos todos dar um passeio.
Regressei ao acampamento...
 - Um momento. Estiveram todos juntos, at ao
instante do seu regresso?
 - No. Eu estive a maior parte do tempo com o
meu irmo Raymond e Miss King. Depois passeei sozinha.
 - Obrigado. Estava a dizer que regressara ao
acampamento. Sabe a que horas, aproximadamente?
 - Creio que deviam ser umas cinco e dez.
 Poirot escreveu: C. B. 5.10.
 - E depois?
 - Minha me estava sentada onde estivera, quando partramos.
Falei com ela e fui para a minha tenda.
 - Lembra-se do que disseram?
 - Eu disse apenas que estava muito calor e me ia
deitar. Minha me disse que ficaria onde estava. Mais
nada.
 - Notou no aspecto dela alguma coisa que lhe parecesse fora do
vulgar?
 - No. Pelo menos... isto ...
 - No serei eu que a poderei esclarecer, mademoiselle - disse
Poirot, calmamente.
 Carol corou e desviou o olhar.

 - Estava s a pensar... Na altura mal reparei, mas
agora, ao recordar...
 - Diga, diga...
 - Tinha uma cor esquisita - murmurou a jovem,
devagar. - Estava muito mais vermelha do que de
costume.
 - Teria sofrido um abalo de qualquer espcie?
 - Um abalo?
 - Por exemplo, podia-se ter irritado com um dos
criados rabes.
 - Ah! - O rosto de Carol desanuviou-se. - Sim
 ,
podia.
 - Mas ela no se referiu a isso?
 - No, no disse nada.
 - Que fez a seguir, mademoiselle?
 - Fui para a minha tenda e estive deitada cerca de
meia hora. Depois dirigi-me para a tenda grande, onde o meu irmo
e a minha cunhada estavam a ler.
 - E que fez?
 - Entretive-me a coser e, depois, peguei numa revista.
 - Voltou a falar com a sua me, ao dirigir-se para
a tenda grande?
 - No. Creio que nem olhei para esse lado.
 - E depois?
 - Fiquei na tenda at... at Miss King nos dizer
que ela morrera.
 - E isso  tudo quanto sabe, mademoiselle?
 - .
 Poirot inclinou-se para a frente e perguntou no
mesmo tom despreocupado e cordial:
 - E que sentiu?
 - Que senti?
 - Sim, que sentiu quando soube que a sua me
(pardon, a sua madrasta, no  verdade?), quando soube que ela
estava morta?
 - No compreendo o que quer dizer!
 - Creio que compreende muito bem.
- Foi... um grande choque - tartamudeou a

ovem.
 - Foi?
 O sangue subiu-lhe ao rosto, numa onda, e olhou-o
como se se sentisse desamparada. Poirot leu-lhe medo
no olhar.
 - Foi assim um choque to grande, mademoiselle?
Se recordar uma certa conversa que teve com o seu irmo
Raymond, uma noite, em Jerusalm...
 A cor fugiu das faces de Carol Boynton e Poirot
compreendeu que acertara no alvo.
 - Sabe disso? - murmurou a jovem.
 - Sei, sim.
 - Mas como?
 - Parte da conversa que tiveram foi ouvida.
 - Oh! - Carol Boynton ocultou o rosto nas mos
e desatou a soluar.
 O detective aguardou um momento, antes de prosseguir,
calmamente:
 - Planearam matar a sua madrasta.
 - Estvamos loucos... - soluou Carol -, ...nessa noite
estvamos loucos!
 - Talvez.
 - No pode compreender o estado em que nos encontrvamos! -
Endireitou-se e afastou o cabelo da
cara. - Parecer-lhe-ia fantstico, se soubesse... Na
Amrica custava menos, mas ao viajarmos compreendemos...
 - Compreenderam o qu? - A sua voz tornara-se
bondosa.
 - Quanto ramos diferentes das outras pessoas!
Sentimo-nos desesperados. E havia, tambm, a Jinny...
 - A Jinny?
 - A minha irm. O senhor ainda no a viu. Estava a ficar...
bem, esquisita. E a me parecia no compreender, agravava o seu
estado. Ray e eu tnhamos
medo, recevamos que a Jinny acabasse por enlouquecer por
completo. E compreendamos que a Nadine
pensava o mesmo.

 - Sim?
 - Nessa noite, em Jerusalm, tivemos a sensao
de no poder suportar mais. Ray estava fora de si,
enervmo-nos os dois e... e pareceu-nos justo fazer
aqueles planos. A me... a me era louca. No sei o
que pensa, mas pode parecer acertado matar algum!
 Poirot acenou com a cabea, devagar.
 - Sim, sei que tem parecido acertado a muita gente... Os factos
provam-no.
 - Foi o que sentimos nessa noite, o Ray e eu. - Carol deu uma
pancada na mesa. - Mas no o fizemos! Evidentemente que no o
fizemos! Quando o dia
nasceu, as nossas ideias pareceram-nos melodramticas,
absurdas... e erradas, tambm. Monsieur Poirot,
a nossa me morreu de morte perfeitamente natural,
de um colapso cardaco. Nem Ray nem eu tivemos nada a ver com o
assunto.
 - Jura-me pela sua esperana de salvao depois
da morte, mademoiselle, que Mistress Boynton no
morreu em consequncia de qualquer aco vossa?
 Carol ergueu a cabea e jurou, em voz firme e profunda:
 - Juro pela minha salvao que nunca lhe fiz mal
nenhum...
 - Muito bem - murmurou Poirot, e recostou-se
na cadeira.
 O detective afagou pensativamente o soberbo bigode e, passados
momentos, perguntou:
 - Qual era o vosso plano?
 - O nosso plano?
 - Sim. Voc e o seu irmo deviam ter um plano.
 Mentalmente, contou os segundos, antes de ela
responder: um, dois, trs...
 - No tnhamos plano nenhum - declarou, por
fim, Carol. - No fomos to longe.
 Hercule Poirot levantou-se.
 - No desejo mais nada, mademoiselle. Tenha a
bondade de me mandar o seu irmo.
Carol levantou-se e ficou parada, hesitante.
 - Monsieur Poirot... acreditou em mim?
 - Disse que no acreditava?
 - No, mas...
 - Diga ao seu irmo que venha c, sim?

 - Sim.
 Carol dirigiu-se para a porta, mas antes de sair parou,
virou-se para trs e exclamou, apaixonadamente:
 - Disse-lhe a verdade! Disse!
 Hercule Poirot no respondeu e Carol Boynton
saiu vagarosamente da sala.

XVIII

 Quando Raymond Boynton entrou, o detective
apercebeu-se da semelhana entre ele e a irm.
 O rosto do rapaz mostrava-se grave e firme, no
parecia nervoso nem assustado. Deixou-se cair numa
cadeira, fitou Poirot e perguntou-lhe:
 - Ento?
 - A sua irm falou consigo? - indagou o detective, em tom muito
brando.
 - Falou, quando me mandou c. Compreendo,
claro, que as suas suspeitas so justificadas. Se a nossa
conversa foi ouvida, naquela noite,  natural que a
morte sbita da minha madrasta parea suspeita. S
lhe posso afirmar que a conversa em questo foi... a
loucura de uma noite. Encontrvamo-nos, nessa altura, sob uma
tenso nervosa intolervel e o plano fantstico de matar a minha
madrasta... (como explicar?)
... foi uma espcie de escape.
 Hercule Poirot baixou a cabea e murmurou:
 -  possvel.
 - Claro que, de manh, pareceu absurdo. Juro-lhe, Monsieur
Poirot, que nunca mais voltei a pensar
no assunto.

 Poirot no respondeu.
 - Sim, sei que  fcil afirm-lo e no espero que
acredite apenas na minha palavra. Mas considere os
factos. Falei com a minha me pouco antes das seis
horas e ela estava viva e bem. Fui  minha tenda lavar-me e
reuni-me aos outros, na tenda grande. A partir
desse momento, Carol e eu estivemos  vista de todos.
Como deve compreender, a morte de minha me foi
natural.
 - Sabe, Mister Boynton, que, na opinio de
Miss King, quando ela examinou o corpo, s seis e
meia, a morte devia ter ocorrido uma hora e meia antes, pelo
menos, ou talvez, at, duas horas?
 Raymond fitou-o, estupefacto.
 - Sarah disse isso?
 Poirot acenou afirmativamente.
 - Que me diz, agora?
 - Mas...  impossvel!
 - Foi esse o depoimento de Miss King. Agora o
senhor declara-me que a sua me estava viva e bem
apenas quarenta minutos antes de Miss King examinar
o corpo.
 - Mas estava!
 - Tenha cuidado, Mister Boynton.
 - Sarah deve ter-se enganado! Houve, certamente, algum factor
que no tomou em considerao.
 O rosto de Poirot no exprimia nada.
 Raymond inclinou-se para ele e prosseguiu, ansioso:
 - Sei o que deve pensar, mas encare as coisas com
justia. O senhor no pode ser imparcial, na avaliao
do assunto, pois vive numa atmosfera de crime. Toda
a morte sbita lhe deve parecer um crime possvel!
No compreende que o seu sentido das propores
no merece confiana? Todos os dias morre gente, sobretudo gente
de corao fraco.
 - Pretende, ento, ensinar-me o meu ofcio?
 - Oh, no, evidentemente! Mas creio que foi influenciado por
aquela infeliz conversa que tive com a
minha irm. No h nada na morte da minha me susceptvel de
levantar suspeitas, a no ser essa desastrosa
e histrica conversa!
 - Est enganado - afirmou Poirot. - H mais
alguma coisa: h o veneno tirado do estojo de medicamentos do
doutor Gerard.
 - O veneno? - Ray fitou-o, boquiaberto. - Veneno! - Empurrou
um pouco a cadeira para trs, verdadeiramente aparvalhado. - 
disso que suspeita?
 Poirot deixou passar um ou dois minutos, antes de
perguntar, quase com indiferena:
 - O vosso plano era diferente?
 - Oh, sim! - respondeu Raymond, maquinalmente. -  por isso...
Oh, no consigo pensar com
clareza!
 - Qual era o vosso plano?
 - O nosso plano? Era... - Raymond calou-se,
bruscamente, e os seus olhos tornaram-se atentos e
cautelosos. - Creio que no digo mais nada - declarou, e
levantou-se.
 - Como queira.
 Viu o jovem sair da sala, puxou o livro de apontamentos e
escreveu uma ltima anotao, minuciosamente: R. B. 5.55.
Depois pegou numa folha de
papel e comeou a escrever.
 Concluda a tarefa, recostou-se na cadeira, com a
cabea inclinada para o lado, e leu:

 Os Boynton e Jefferson Cope saram
do acampamento
(aprox.)
..............................................................
....... 3.05
 Dr. Gerard e Sarah King saram do
acampamento (aprox.) 3.15
 Lady Westholme e Miss Pierce saram
do acampamento
 (aprox.)
..............................................................
..... 4.15
 Dr. Gerard regressou ao acampamento
(aprox.)................. 4.20
 Lennox Boynton regressou ao
acampamento.................... 4.35
 Nadine Boynton regressou ao
acampamento e falou com
 Mrs. Boynton
............................................................ 
4.40
 Nadine Boynton deixou a sogra e foi para
a tenda grande
 (aprox.)
..............................................................
...... 4.50

Carol Boynton regressou ao acampamento ......................
5.10
Lady Westholme, Miss Pierce e Mr. Jefferson Cope regres saram
ao acampamento ....... .............................. ........
5.40
Raymond Boynton regressou ao acampamento................... 5.50
Sarah King regressou ao acampamento ...... .....................
6.00
O corpo foi descoberto .................... .. ....
....................... 6. 30

 Hercule Poirot dobrou a lista, foi  porta e pediu
que lhe mandassem Mahmud.
 O robusto dragomano era um tagarela, as palavras
escorriam-lhe dos lbios numa enxurrada:
 - Sou sempre eu que tenho a culpa, sempre!
Quando acontece alguma coisa, dizem sempre que a
culpa  minha! Sempre! A minha vida  uma tragdia!
 Por fim, Poirot conseguiu deter a enxurrada e fazer a pergunta
que pretendia.
 - As cinco e meia, disse? No, no creio que nenhum dos criados
estivesse no acampamento a essa
hora. O almoo foi tarde, s duas horas, houve a limpeza...
Depois do almoo, dormiram toda a tarde...
Sim, os Americanos no tomam ch. Deitmo-nos todos s trs e
meia. s cinco horas, eu, que sou a eficincia em pessoa e nunca
me esqueo do conforto das
senhoras e dos cavalheiros que sirvo, levantei-me, pois
sabia que a essa hora todas as senhoras inglesas quereriam ch.
Mas no estava l nenhuma, tinham ido
todas passear. No me importei nada, pude voltar a
dormir. Mas os aborrecimentos comearam quando
faltava um quarto para as sete. A senhora inglesa forte
voltou e quis ch, embora a essa hora os rapazes j estivessem
a tratar do jantar. Mostrou-se muito exigente,
disse que a gua tinha de estar a ferver e que eu me
devia certificar pessoalmente disso. Ah, meu bom senhor, que
vida! Fao tudo quanto posso, mas sou sempre censurado...
 Poirot interrompeu-o:
 - H outro pormenor. A senhora que morreu irritou-se com um dos
criados. Sabe com qual deles foi e
porqu?
Mahmud levantou as mos ao cu.
 - Como hei-de saber? A senhora idosa no se me
queixou.
 - Pode averiguar?
 - No, meu bom senhor, isso seria impossvel.
Nenhum dos rapazes pensaria, sequer, em admitir tal
coisa. A senhora idosa zangou-se? Ento, naturalmente, os criados
negam. Abdul diz que foi Moamed,
Moamed diz que foi Aziz, Aziz diz que foi Aissa, e
etc. So todos bedunos muito estpidos, no compreendem nada.
 Poirot conseguiu livrar-se do dragomano e levou a
lista que elaborara ao coronel Carbury.
 O coronel torceu um pouco mais a gravata e perguntou:
 - Descobriu alguma coisa?
 - Posso-lhe expor uma teoria minha?
 - Se desejar - redarguiu Carbury, com um suspiro de resignao.
 - A criminologia , quanto a mim, a cincia mais
fcil do mundo! Basta deixar o criminoso falar. Mais
cedo ou mais tarde ele diz tudo.
 - Lembro-me de lhe ter ouvido dizer qualquer
coisa desse gnero, anteriormente. Quem lhe disse coisas?
 - Toda a gente.
 Poirot resumiu as entrevistas que tivera durante a
manh.
 - Hum... - resmungou Carbury. - Parece que
tem uma ou duas pistas... mas infelizmente apontam
em direces opostas. Temos um caso firme?
 - No.
 O coronel suspirou de novo.
 - J o receava.
 - Mas antes de anoitecer saberemos a verdade!
 - Foi, de facto, s isso que me prometeu... e confesso que
duvidei da fartura. Tem a certeza?
 - Absoluta.

 - Deve ser agradvel experimentar tal sentimento.
 Poirot apresentou a lista.
 - Bem ordenada - comentou o coronel, aprovador,
e leu-a. - Sabe o que penso? - perguntou, no fim.
 - Ficaria encantado se me dissesse.
 - O jovem Raymond Boynton no tem nada a ver
com a histria.
 - Est convencido disso?
 - Estou.  claro como gua. Devamos t-lo percebido desde o
princpio, visto ele ser, como nos romances
policiais, o que aparenta maiores probabilidades. Como
o senhor o ouviu praticamente dizer que ia liquidar a velhota,
devamos ter compreendido que estava inocente!
 - L romances policiais, hem?
 - Aos milhares! - confessou o coronel, e acrescentou, como um
estudante entusiasmado: - Creio
que no  capaz de proceder como os detectives procedem, nos
romances? Quero dizer, elaborar uma lista
de factos significativos, de coisas que so importantssimas,
embora no paream ter importncia nenhuma?
 - Ah, gosta desse gnero de romance policial?
Mas com certeza, terei muito prazer em elaborar uma
lista dessas!
 Pegou numa folha de papel e escreveu, com rapidez e clareza:

1. Mrs. Boynton tomava um remdio que continha Digitalis.
2. O Dr. Gerard deu por falta de uma seringa hipodrmica.
3. Mrs. Boynton sentia grande prazer em impedir a famlia de se
 divertir com as outras pessoas.
4. Na tarde em questo, Mrs. Boynton encorajou a famlia a ir
 passear e deix-la sozinha.
S. Mrs. Boynton era uma sdica mental.
6. A distncia entre a tenda grande e o lugar onde Mrs. Boynton
 estava sentada era (aproximadamente) de 180 metros.
7. Mr. Lennox Boynton disse, ao princpio, no saber a que horas
regressara ao acampamento, mas depois admitiu ter acerta do o
relgio da me.
8. O Dr. Gerard e Miss Ginevra Boynton ocupavam tendas contguas.
9. s 6.30 h, quando o jantar estava pronto, um criado foi
anunciar esse facto a Mrs. Boynton.
O coronel leu a lista com grande satisfao.
 - Excelente! - exclamou. - Era precisamente
isto que queria. O senhor deu-lhe a conta certa de dificuldade
e de irrelevncia aparente... Tem o toque
da autenticidade! A propsito, parece-me notar uma
ou duas omisses evidentes. Mas suponho que so
propositadas, para espicaar a curiosidade, hem?
 Os olhos de Poirot brilharam um bocadinho, mas
ele no respondeu.
 - Ponto nmero 2, por exemplo: O doutor Gerard
deu por falta de uma seringa hipodrmica...  verdade,
mas ele tambm deu por falta de uma soluo concentrada de
Digitalis ou coisa parecida.
 - Esse pormenor no  importante no sentido em
que a ausncia da seringa .
 - Esplndido! - exclamou o coronel, todo sorrisos. - No
percebo patavina, pois diria que a Digitalis era muito mais
importante do que a seringa! E essa
questo do criado... Um criado que foi avis-la de que
o jantar estava pronto, e um criado a quem ela ameaou com a
bengala, mais cedo? No me vai dizer que
um dos meus pobres diabos do deserto a liquidou,
pois no? Se me dissesse uma coisa dessas - acrescentou o
coronel, muito srio -, seria batota.
 Poirot sorriu, mas no respondeu.

XIX

 Sarah King sentou-se num montculo, a desfolhar
flores silvestres. O Dr. Gerard estava sentado perto,
num muro.
 - Porque desencadeou tudo isto? - perguntou a
rapariga, sbita e furiosamente. - Se no fosse o doutor...

 - Acha que deveria ter guardado silncio?
 - Acho.
 - Sabendo o que sabia?
 - O doutor no sabia.
 - Sabia. - O francs suspirou. - Mas admito
que nunca se pode ter a certeza absoluta.
 - Pode, sim.
 - Talvez voc possa - condescendeu o mdico,
com um encolher de ombros.
 - Estava com febre elevada, no podia ter ideias
claras acerca do assunto! Provavelmente a seringa esteve sempre
onde a encontrou... e pode-se ter enganado
acerca da digitoxina. No seria impossvel um dos
criados ter-lhe mexido no estojo dos medicamentos.
 - No precisa de se preocupar - redarguiu-lhe o
Dr. Gerard, cinicamente. -  quase certo que as provas sero
inconcludentes. Ver que os seus amigos, os
Boynton, ficaro impunes!
 - Tambm no quero isso! - afirmou Sarah, irritada.
 -  ilgica!
 - No foi o doutor que, em Jerusalm, falou muito acerca de no
interferncia?
 - Mas eu no interferi. Disse apenas o que sabia!
 - E eu digo que o doutor no sabe... Meu Deus,
l vamos ns outra vez! Estamos num crculo vicioso.
 - Lamento, Miss King - murmurou o mdico,
docemente.
 - Como v, no fim de contas, eles no se libertaram! Ela
continua presente - disse Sarah, baixinho.
- Mesmo da sepultura, pode continuar a domin-los.
Acho... acho que deve estar a divertir-se com tudo isto! - De
sbito, mudou de tom e avisou: - Aquele
homenzinho vem a subir a encosta.
 Carrancuda, viu Hercule Poirot aproximar-se.
O detective respirou fundo, limpou a testa e olhou
tristemente para os sapatos envernizados.
 - Meus pobres sapatos! Esta regio pedregosa...
- Pode pedir a Lady Westholme que lhe empreste
o seu estojo de engraxador... e o pano do p - disse
Sarah, em tom desabrido. - Ela viaja com tudo isso.
 - Que, no entanto, no chega para apagar os arranhes,
mademoiselle.
 - Talvez no. Mas por que demnio usa sapatos
desses numa terra destas?
 - Gosto de ter aspecto soign - respondeu o detective, com a
cabea um pouco inclinada para o lado.
 - No deserto no vale a pena estar com essas
preocupaes.
 - As mulheres no apresentam o seu melhor aspecto no deserto
- observou o mdico, sonhador. - Miss King  uma excepo, est
sempre arranjada e
fresca, mas aquela Lady Westholme, com os seus casaces e saias
grossas e aqueles horrveis cales e botas
de montar! E a pobre Miss Pierce, coitada... Os seus
vestidos so to desenxabidos que parecem folhas de
couve murchas, e ainda por cima usa todas aquelas
contas a chocalhar! At a jovem Mistress Boynton,
uma mulher atraente, no  aquilo a que se chama chique! O seu
vesturio  desinteressante...
 - No creio que Monsieur Poirot tenha vindo c
acima para falar de roupas - lembrou Sarah.
 - Tem razo. Vim consultar o doutor Gerard,
cuja opinio me deve ser til, e a sua tambm, mademoiselle, pois
 jovem e est actualizada, em questes
de psicologia. Gostaria que me dissessem tudo quanto
pudessem acerca de Mistress Boynton.
 - No sabe j de cor tudo quanto h a saber? - perguntou
Sarah.
 - No. Tenho o pressentimento, ou melhor, mais
do que o pressentimento, tenho a certeza de que a
mentalidade de Mistress Boynton  muito importante,
neste caso. Tipos como o dela so, sem dvida, familiares ao
doutor Gerard.
 - Do meu ponto de vista, ela era um caso interessante -
declarou o mdico.

 - Conte-me.
 O Dr. Gerard descreveu o seu interesse pela famlia, a conversa
que tivera com Jefferson Cope e a maneira errada como este
interpretara a situao.
 - Mister Cope  um sentimentalista - comentou
Poirot.
 - Oh, essencialmente! Tem ideais baseados, na
realidade, num instinto profundo de indolncia. Aceitar a
natureza humana pelo seu lado melhor e o mundo como um lugar
agradvel , sem dvida, o caminho
mais fcil da vida. Jefferson Cope no tem, por isso, a
mnima ideia do que as pessoas so, realmente.
 - Isso s vezes pode ser perigoso - comentou
Poirot.
 - Insistia em considerar o que descreverei como a
situao Boynton um caso de dedicao desencaminhada. No
possua a mnima noo do dio subjacente, da rebelio, da
escravatura e da tortura.
 - Isso  estpido - murmurou Poirot.
 - No entanto - prosseguiu o Dr. Gerard -, nem
mesmo o mais obtuso dos optimistas sentimentais pode
ser totalmente cego. Creio que, na viagem a Petra, os
olhos de Mister Jefferson Cope comearam a abrir-se.
 E o mdico revelou a conversa que tivera com o
americano, na manh da morte de Mrs. Boynton.
 - Interessante, essa histria da criada - disse
o detective, pensativo. - Lana luz nos mtodos da
velha senhora.
 - Foi uma manh muito estranha, aquela! No
esteve em Petra, Monsieur Poirot? Se alguma vez l
for, no deixe de subir ao Lugar do Sacrifcio. Tem...,
como direi?, ... tem atmosfera! - Descreveu o lugar
pormenorizadamente e acrescentou: - Miss King sentou-se l como
um juiz, a falar do sacrifcio de um
para salvar muitos. Lembra-se, Mis King?
 - No falemos desse dia! - pediu Sarah, sem poder conter um
calafrio.
 - No; falemos antes de eventos mais antigos. - concordou
Poirot. - Estou interessado no seu esboo
da mentalidade de Mistress Boynton, doutor Gerard.
Mas h uma coisa que no compreendo. Por que motivo, tendo criado
a sua famlia num ambiente de sujeio absoluta, decidiu fazer
esta viagem ao estrangeiro,
onde havia o perigo de estabelecer contactos com o exterior e de
a sua autoridade ficar enfraquecida?
 - Mas isso  lgico! - exclamou o Dr. Gerard,
cheio de animao. - As velhotas so todas as mesmas, em todo o
mundo. Aborrecem-se! Se a sua especialidade  fazer pacincias,
aborrecem-se com a pacincia que conhecem melhor e pretendem
aprender
outra nova. Acontece o mesmo a uma velha cujo passatempo, por
incrvel que possa parecer,  dominar e
atormentar seres humanos. Mistress Boynton domara
os seus tigres. O perodo da adolescncia deve ter-lhe
causado alguma excitao e o casamento de Lennox
com Nadine foi uma aventura, mas depois tudo estagnou. Lennox
estava to mergulhado em melancolia
que era praticamente impossvel feri-lo ou inquiet-lo.
Raymond e Carol no davam indcios de rebelio. Ginevra... Ah,
la pauvre! Do ponto de vista da me,
Ginevra era a que proporcionava menos divertimento,
pois a jovem encontrara uma via de evaso: fugia da
realidade para a fantasia. Quanto mais a me a atiava,
mais ela mergulhava no secreto prazer de ser uma herona
perseguida! Para Mistress Boynton tornou-se
tudo de uma infinita melancolia e por isso, como Alexandre,
procurou conquistar novos mundos. Planeou,
pois, a viagem ao estrangeiro. Haveria o perigo de as
suas feras amansadas se rebelarem, haveria oportunidade de
infligir novas dores. Parece absurdo, mas 
verdade. Ela queria experimentar uma nova emoo.
 Poirot respirou fundo.
 -  perfeito o que disse, e eu compreendi-o muito
bem. Foi isso. Ajusta-se tudo. La maman Boynton decidiu viver
perigosamente... e isso custou-lhe caro.
 Sarah inclinou-se para a frente e perguntou, muito
sria:

 - Quer dizer que ela torturou as suas vtimas mais
do que era suportvel e elas, ou uma delas, se revoltaram e a
mataram?
 Poirot baixou a cabea.
 - Qual delas? - perguntou a jovem, em voz quase inaudvel.
 O detective olhou-a, mas no precisou de lhe responder porque,
nesse momento, o Dr. Gerard lhe tocou no brao e disse:
 - Olhe.
 Uma rapariga subia a encosta com uma estranha
graa cheia de ritmo que quase lhe dava um ar de irrealidade. O
vermelho-dourado do seu cabelo brilhava
ao sol e um sorriso misterioso arqueava-lhe os cantos
da boca bonita.
 - Que bela! - exclamou Poirot. - Que estranha
e comovedoramente bela! Era assim que deviam representar Oflia,
como uma jovem deusa vinda de outro
mundo, feliz por se ter libertado da servido das alegrias e das
dores humanas.
 - Tem razo! - exclamou o mdico. - Tem um
rosto que provoca sonhos, no tem? Eu sonhei com
aquela cara. Quando estava com febre, abri os olhos e
vi-a, com aquele doce sorriso sobrenatural... Foi um
sonho agradvel, to agradvel que tive pena de acordar... - E,
em tom mais calmo, o Dr. Gerard informou: -  Ginevra Boynton.
 Passado um minuto, a rapariga chegou junto deles
e o Dr. Gerard procedeu s apresentaes:
 - Miss Boyton. Monsieur Hercule Poirot.
 - Oh!
 A jovem fitou-o, hesitante, a torcer nervosamente
os dedos. A ninfa encantada regressara do pas do encantamento,
voltara a ser apenas uma simples rapariga
desajeitada, nervosa e constrangida.
 - Foi uma sorte encontr-la aqui, mademoiselle. - declarou o
detective. - Procurei-a no hotel...
 - Procurou? - O sorriso tornara-se vazio.
- Importa-se de passear um bocadinho comigo?
 Ela acompanhou-o, dcil e obediente. Pouco depois perguntou,
inesperadamente e em voz estranha e
muito apressada:
 - ...  um detective, no ?
 - Sou, sim, mademoiselle.
 - Veio proteger-me?
 Poirot afagou o bigode, pensativamente, antes de
responder:
 - Quer dizer que est em perigo, mademoiselle?
 - Estou, estou! - Olhou  sua volta, com um
olhar assustado. - Falei do assunto ao doutor Gerard,
em Jerusalm. Ele procedeu de modo muito inteligente. Ficou
imperturbvel, quando lhe falei, mas seguiu-me... quele terrvel
lugar das pedras vermelhas. - No conteve um estremecimento. -
Tencionavam
matar-me, l. Tenho de estar sempre atenta.
 Poirot acenou com a cabea, de modo suave e indulgente.
 - Ele  amvel e bom - murmurou Ginevra. - Est apaixonado por
mim.
 - Sim?
 - Oh, sim! Diz o meu nome, quando dorme...
O seu rosto adoou-se de novo, momentaneamente iluminado por
aquela beleza trmula e sobrenatural. - Vi-o deitado, s voltas
e reviravoltas e a pronunciar
o meu nome... Sa devagarinho. Foi ele, talvez, que o
mandou chamar? Tenho muitos inimigos, cercam-me
por toda a parte... s vezes andam disfarados.
 - Sim, sim... Mas aqui est em segurana, rodeada por toda a
sua famlia.
 A jovem endireitou-se, orgulhosamente.
 - Eles no so a minha famlia, no tenho nada a
ver com eles. No lhe posso dizer quem realmente
sou...  um grande segredo.
 - A morte da sua me abalou-a muito, mademoiselle?
 Ginevra bateu com o p.

 - J lhe disse que ela no era minha me! Os
meus inimigos pagaram-lhe para fingir que era minha
me e para no me deixar fugir.
 - Onde estava na tarde em que ela morreu?
 - Estava na tenda - respondeu sem hesitar. - Estava muito
calor, l dentro, mas no me atrevi a
sair. Eles podiam apanhar-me. Um deles... espreitou
na minha tenda. Estava disfarado, mas reconheci-o.
Fingi que dormia. O xeque mandara-o, queria-me
raptar.
 Poirot caminhou em silncio, durante alguns momentos, e por fim
observou:
 - So muito bonitas, essas histrias que conta a si
prpria.
 - So verdadeiras! - gritou a rapariga. - Verdadeiras! - E,
furiosa, virou-lhe as costas e correu pela
encosta abaixo.
 Poirot parou, a segui-la com o olhar, e, de sbito,
ouviu uma voz perguntar, atrs de si:
 - Que lhe disse?
 O detective virou-se e viu o mdico, um pouco ofegante. Sarah
tambm se aproximava, mas essa vinha
devagar.
 - Disse-lhe que contava a si prpria algumas histrias muito
bonitas.
 O mdico acenou com a cabea, preocupado.
 - E ela ficou furiosa! Isso  bom sinal, demonstra
que ainda no transps os umbrais da loucura. Ainda
sabe que no  verdade! Cur-la-ei.
 - Est, ento, a trat-la?
 - Estou. Discuti o assunto com Mistress Lennox
Boynton e o marido. Ginevra ir para Paris e entrar
numa das minhas clnicas... depois treinar-se- para o
palco.
 - Para o palco?
 - Sim. Tem possibilidades de xito nessa profisso... e  disso
que ela precisa,  isso que tem de
alcanar! Em muitos aspectos, tem a mesma natureza
da me.
- No! - exclamou Sarah, revoltada.
 - Pode-lhe parecer impossvel, mas certas caractersticas
fundamentais so as mesmas. Nasceram ambas
com um grande desejo de importncia, exigem ambas que a sua
personalidade impressione! Esta pobre
garota tem passado a vida a ser contrariada e reprimida, foi-lhe
negado um escape para a sua ardente ambio, para o seu amor 
vida, para a expresso da sua
personalidade romntica e cheia de vivacidade. - Deu
uma gargalhadinha e acrescentou: - Nous allons changer tout a!
- Inclinou um pouco a cabea e, antes de
correr atrs de Ginevra, murmurou: - Dem-me licena, sim?
 - O doutor Gerard  muito dedicado ao seu trabalho - comentou
Sarah.
 - Compreendo a sua dedicao.
 - No entanto, no posso tolerar que compare a
garota quela horrvel velha... embora uma vez eu
prpria tivesse tido pena de Mistress Boynton.
 - Quando foi isso, mademoiselle?
 - Foi daquela vez de que lhe falei, em Jerusalm.
Tive, de sbito, a sensao de que estava a ver o assunto de modo
errado... Conhece aquela impresso
que s vezes sentimos, momentaneamente, de que estamos a ver uma
coisa ao contrrio? Deixei-me levar
por esse sentimento e armei em idiota.
 - Oh, no, no armou tal!
 Sarah corou violentamente, como sempre que recordava a sua
conversa com Mistress Boynton.
 - Senti-me toda exaltada, como se tivesse uma
misso a cumprir! Mais tarde, quando Lady Westholme olhou para
mim de modo velhaco e disse que me
vira a falar com Mistress Boynton, pensei que talvez
tivesse ouvido as minhas palavras e senti-me a mais
completa idiota.
 - Quais foram, exactamente, as palavras que Mistress Boynton
lhe disse? Lembra-se delas?
 - Creio que sim, pois impressionaram-me muito.

O que ela disse foi: Eu nunca esqueo! Lembre-se disso.
Nunca esqueci nada, nem uma aco, nem um nome, nem
um rosto! - Sarah estremeceu. - Falou com tanta
malevolncia e sem olhar, sequer, para mim! Ainda me
parece que a estou a ouvir.
 - Impressionou-a muito, hem? - murmurou Poirot, docemente.
 - Impressionou. No me assusto com facilidade...
mas s vezes sonho com ela a dizer aquelas palavras e
vejo aquele rosto diablico, trocista e triunfante. Brrr!
- Fez uma pausa, antes de indagar: - Talvez no lho
devesse perguntar, Monsieur Poirot, mas j chegou a
uma concluso acerca deste assunto?

 - J.
 Os lbios de Sarah tremiam, quando perguntou:
 - Qual?
 - Descobri com quem Raymond falou, naquela
noite, em Jerusalm. Foi com a irm, Carol.
 - Carol... evidentemente! Disse a Raymond...
perguntou-lhe...
 No foi capaz de continuar e Poirot fitou-a, grave e
compadecidamente.
 - Significa assim tanto para si, mademoiselle?
 - Significa tudo! - exclamou Sarah, mas endireitou os ombros
e acrescentou: - No entanto, tenho de
saber.
 - Ele disse-me que no passou de um desabafo
nervoso, que tanto ele como a irm estavam muito excitados e que,
quando nasceu o dia, a ideia pareceu
fantstica a ambos.
 - Compreendo...
 - Miss Sarah, no me quer dizer o que receia?
 Sarah empalideceu e fitou-o, desesperada.
 - Naquela tarde... estivemos juntos. Quando me
deixou, ele disse que queria fazer qualquer coisa naquele
momento... enquanto tinha coragem. Pensei que
se tratava apenas de... de dizer  me. Mas supondo
que ele se referia... - Calou-se e ficou rgida, a lutar
com todas as foras para se dominar.

XX

 Nadine Boynton saiu do hotel e parou, hesitante.
Um vulto que esperava correu ao seu encontro: Mister Jefferson
Cope colocou-se ao lado da sua dama.
 - Vamos por este lado? Parece-me o mais agradvel.
 Enquanto caminhavam, Mr. Cope falou. As palavras brotavam-lhe
dos lbios sem dificuldade, embora
com certa monotonia, e talvez nem reparasse que Nadine no o
estava a ouvir.
 Quando meteram pela encosta pedregosa e florida,
Nadine interrompeu-o, muito plida:
 - Desculpe, Jefferson, preciso de falar consigo...
 - Certamente, minha querida. Diga o que quiser,
mas no se preocupe.
 -  mais inteligente do que eu supunha. J sabe o
que vou dizer, no sabe?
 -  indubitavelmente verdade que as circunstncias modificam
as coisas. Tenho profunda conscincia
de que, nas presentes circunstncias, as decises tomadas devem
ser reconsideradas. - Calou-se um momento, a suspirar. - Tem de
ir para a frente, Nadine,
e de fazer o que entende dever fazer.
 -  to bom, Jefferson, to paciente! - exclamou, com sincera
emoo, a jovem. - Acho que o
tratei muito mal, que fui indecente consigo!
 - Escute, Nadine, esclareamos as coisas. Soube
sempre quais eram as minhas limitaes, em relao a
si. Desde que a conheo que lhe dedico o mais profundo afecto e
o maior respeito e que s desejo a sua felicidade. Nunca desejei
outra coisa. V-la infeliz quase
me enlouquecia. Confesso, tambm, que considerei
Lennox culpado. Achava que ele no a merecia, visto
no saber atribuir um pouco mais de valor  sua felicidade. Agora
admito que, depois de os acompanhar a
Petra, pensei que talvez Lennox no fosse to culpado

como me parecia. No desejo dizer nada contra os
mortos, mas a sua sogra devia ser uma mulher muito
difcil.
 - Sim, tem razo - concordou Nadine.
 - Fosse como fosse, voc procurou-me, ontem, e
disse-me que decidira, definitivamente, deixar Lennox. Aplaudi
a sua deciso, pois a vida que levava no
estava certa. Foi sincera comigo, no pretendeu convencer-me de
que sentia por mim mais do que um
pouco de afecto. Eu s desejava ter ensejo de cuidar
de si, de a tratar como merecia ser tratada. Confesso
que a tarde de ontem foi uma das mais felizes da minha vida.
 - Lamento... lamento...
 - No vale a pena, minha querida. Tive, desde o
princpio, a sensao de que no era real o que sucedia, de que
voc mudaria, provavelmente, de opinio.
As circunstncias agora so diferentes, voc e Lennox
podero levar uma vida prpria.
 -  verdade - murmurou Nadine, baixinho. - No posso deixar
o meu marido. Perdoe-me.
 - No tenho nada que perdoar. Voltaremos a ser
bons e velhos amigos, esqueceremos a tarde de ontem.
 - Obrigada, querido Jefferson - agradeceu Nadine, e apertou-lhe
o brao. - Agora vou ter com
Lennox.
 Deixou-o e Mr. Cope continuou sozinho o seu caminho.
 Nadine encontrou o marido sentado no cimo do
Teatro Greco-Romano. Ele s deu pela sua presena
quando ela se sentou, ofegante, a seu lado.
 - Lennox... - O marido virou um pouco a cabea. - Ainda no
pudemos conversar, mas sabes que
no te deixarei, no sabes?
 - Tencionaste, realmente, deixar-me, Nadine?
 - Tencionei. Compreendes, parecia-me a nica
sada possvel. Esperava... esperava que me seguisses.
Como fui cruel para o pobre Jefferson!
Lennox soltou uma pequena gargalhada.
 - No foste tal! Uma pessoa to pouco egosta co mo o Cope
merece que se aproveite a sua excepcional
 nobreza de alma! E tu tens razo, Nadine, quando me
 disseste que partias com ele causaste-me o maior abalo
 da minha vida. Creio que, ultimamente, andava a ficar
 esquisito da cabea... Por que demnio no virei as
 costas  me e no parti contigo quando mo pediste?
 - No podias, meu querido.
 - A me era uma pessoa muitssimo estranha...
 Creio que nos tinha a todos meio hipnotizados.
' - Tinha, de facto.
 Seguiram-se alguns momentos de silncio.
 - Quando me confiaste a tua deciso... foi como
 se levasse uma pancada na cabea! Regressei ao acampamento meio
atordoado e, de sbito, compreendi o
 grandssimo idiota que fora e que s podia fazer uma
 coisa, se no te queria perder. - O tom da sua voz
! tornou-se mais tenso, ao acrescentar: - Fui ter com
 ela e...
 - No digas...
 Lennox lanou-lhe um olhar rpido e prosseguiu:
 - Discuti com ela. - Falava em voz absoluta mente diferente,
cuidadosa e inexpressiva. - Disse -lhe que tinha de escolher
entre as duas... e que te
 escolhia a ti.
 E acrescentou, num curioso tom de auto-aprovao:
 - Sim, foi isso que lhe disse.

XXI

 Poirot encontrou duas pessoas no seu caminho de
regresso. A primeira foi Mr. Jefferson Cope.
 - Monsieur Hercule Poirot? Chamo-me Jefferson
Cope.

 Os dois homens trocaram um cerimonioso aperto
de mo. Mr. Cope comeou a caminhar ao lado do detective e
explicou:
 - Acabo de ter conhecimento de que o senhor
procede a uma espcie de investigao de rotina acerca
da morte da minha velha amiga, Mistress Boynton.
Foi desagradvel o que sucedeu. A idosa senhora no
devia ter empreendido uma viagem to fatigante, mas
era obstinada, a sua famlia no a conseguia demover,
quando ela decidia qualquer coisa. Era a modos que
uma tirana domstica. O que dizia era lei!
 Seguiu-se uma pausa um pouco longa.
 - S lhe queria dizer, Monsieur Poirot, que sou
um velho amigo da famlia Boynton. Eles esto naturalmente, muito
transtornados, so um pouco nervosos, e por isso, se houver
quaisquer formalidades a
cumprir quanto ao funeral ou ao transporte do corpo
para Jerusalm, estou s ordens para tudo quanto os
possa poupar. Recorra a mim para o que for preciso.
 - Estou certo de, que a famlia apreciar a sua
oferta, Mister Cope. E, suponho, um amigo especial
de Mistress Lennox Boynton?
 Mr. Jefferson Cope corou um pouco.
 - No falemos muito a esse respeito, Monsieur
Poirot. Sei que teve uma entrevista com Mistress Lennox Boynton,
esta manh, e suponho que ela lhe ter
dado a entender o que se passava entre ns, mas tudo
isso acabou. Mistress Boynton  uma excelente mulher
e acha que os seus principais deveres so para com o
marido, nesta triste ocorrncia.
 Poirot acenou delicadamente com a cabea.
 -  desejo do coronel Carbury ter uma ideia clara
dos acontecimentos na tarde do falecimento de Mistress Boynton.
Importa-se de me contar o que se passou?
 - Da melhor vontade. Depois do almoo e de um
breve repouso, pusemo-nos a caminho, para darmos
uma volta pelas imediaes. Conseguimos escapar 
presena daquele pestilencial dragomano... Foi ento,
durante o passeio que falei com Nadine. Depois ela
quis ficar sozinha com o marido, para discutir o assunto com ele,
e eu regressei sozinho, e devagar, ao acampamento. Mais ou menos
a meio do caminho encontrei
as duas senhoras inglesas que tinham participado na
excurso da manh; creio que uma delas  uma lady
inglesa, metida em polticas...
 Poirot confirmou.
 -  uma mulher extraordinria, muito culta e
com uma excelente cabea. A outra, coitada, pareceu-me morta de
fadiga. A excurso matinal fora extenuante para a pobre senhora,
tanto mais que no suporta as alturas. Bem, encontrei essas duas
senhoras e
dei-lhes algumas informaes de carcter arquitectnico. Demos
uma volta e chegmos ao acampamento
cerca das seis horas. Lady Westholme insistiu em
mandar fazer ch e eu tive o prazer de beber uma chvena com ela.
Estava fraco, mas tinha um sabor interessante. Depois, os criados
puseram a mesa para o
jantar e um deles foi chamar a velha senhora, que encontrou
morta, na sua cadeira.
 - Reparou nela, quando regressou ao acampamento?
 - Reparei apenas que estava no seu poiso habitual, durante a
tarde e o anoitecer, mas no lhe dediquei ateno especial.
Explicava a Lady Westholme o
que acabramos de ver e no perdia de vista Miss Pierce, que mal
podia andar de to fatigada.
 - Obrigado, Mister Cope. Ser indiscrio da minha parte
perguntar se Mistress Boynton deixou uma
grande fortuna?
 - Sim, muito considervel. Mas, vistas bem as
coisas, no era dela. Cabia-lhe o usufruto, enquanto
vivesse, e por sua morte deveria ser repartida pelos filhos do
falecido Elmer Boynton. Agora ficaro numa
situao muito desafogada.
 - O dinheiro faz uma grande diferena - murmurou Poirot. -
Quantos crimes tm sido cometidos
por causa dele!
 - Sim,  verdade... - concordou o americano,
um pouco perturbado.
 - Mas h tantos motivos para assassinar, no h?
- perguntou o detective, a sorrir melifluamente.Obrigado, Mister
Cope, pela sua cooperao.
 - No tem de qu. E Miss King que est ali sentada, no ? Vou
conversar com ela.
 Poirot continuou a descer a encosta. Um pouco
abaixo, cruzou-se com Miss Pierce, que a subia.
 - Oh, Monsieur Poirot, estou to contente por o
encontrar! - exclamou, ofegante. - Estive a conversar com aquela
estranha pequena Boynton, a mais nova, e ela disse-me as coisas
mais mirabolantes acerca
de inimigos, de um xeque que a queria raptar, de espies que a
cercavam... Pareceu-me muito romntico,
mas Lady Westholme afirmou serem tudo tolices e
disse que, em tempos, teve uma criada de cozinha,
tambm ruiva, que dizia mentiras iguais... Creio que,
s vezes, Lady Westholme  muito dura. No fim de
contas, podia ser verdade, no podia, Monsieur Poirot? Li, h
anos, que uma das filhas do czar no foi
morta, durante a revoluo, e conseguiu fugir para a
Amrica. Seria to emocionante!
 Poirot redarguiu-lhe, sentencioso:
 -  verdade que na vida existem coisas muito estranhas.
 - Esta manh no compreendi bem quem o senhor era... - Miss
Pierce apertou as mos, num xtase. - Claro,  aquele famoso
detective! Li tudo acerca
do caso ABC To emocionante! Por sinal, nessa altura
trabalhava como governanta de meninos perto de
Doncaster.
 Poirot murmurou qualquer coisa e Miss Pierce
continuou, com crescente agitao:
 - Foi por isso que pensei que talvez me tivesse
enganado, esta manh. Devemos dizer sempre tudo,
no devemos? At o mais nfimo pormenor, mesmo
que parea no ter nada a ver com o assunto. Sim,
porque se o senhor est a investigar este caso, a pobre
Mistress Boynton deve ter sido assassinada! Compreendo-o agora.
Por isso perguntei a mim mesma se
lhe deveria dizer... enfim, pensando bem,  muito peculiar...
 - Portanto, o melhor  dizer-me.
 - Bem, no se trata de nada de importncia... Na
manh seguinte  morte de Mistress Boynton, levantei-me muito
cedo e espreitei para fora da tenda, a fim
de admirar o nascer do Sol...
 - Sim, sim. E que viu?
 - A  que est o pormenor curioso... embora na
altura no me parecesse ter qualquer significado. Vi a
pequena Boynton sair da sua tenda e atirar qualquer
coisa para o regato... Claro que isto no tem importncia
nenhuma... mas era um objecto que cintilava,
ao sol.
 - De que pequena Boynton se tratava?
 - Suponho que lhe chamam Carol.  uma jovem
muito interessante, to parecida com o irmo que dir-se-iam
gmeos. Mas tambm pode ter sido a mais nova, pois o sol batia-me
nos olhos e no me deixava ver
bem. No entanto, no me pareceu que o cabelo fosse
ruivo.
 - E ela atirou fora um objecto que brilhava?
 - Atirou. Mas, como disse, no liguei muita importncia ao
facto, naquela altura. Mais tarde, porm,
passeei ao longo do rio e Miss King estava l. Entre
uma quantidade de outras coisas muito pouco prprias
(at uma ou duas latas de conserva!), vi uma caixinha
de metal brilhante...
 - Oh, compreendo perfeitamente! Mais ou menos
deste comprimento?
 - Sim. Oh, como  inteligente! Pensei para comigo: Deve ter
sido aquilo que a pequena Boynton deitou fora... mas  uma
caixinha bonita... Apanhei-a,

por curiosidade, e abri-a. Continha uma seringa, igual
quela de que se serviram para me espetar quando me
vacinaram contra a febre tifide. Achei estranho que a
tivessem deitado fora, pois no parecia partida, mas,
de repente, Miss King falou atrs de mim, no dera
por ela chegar, e disse: Oh, obrigada!  a minha seringa
hipodrmica. Andava  procura dela. Entreguei-lha e ela
regressou ao acampamento com a caixa.
 Miss Pierce parou, para tomar flego, e depois
prosseguiu, a falar muito depressa:
 - Claro que no deve ter importncia nenhuma,
mas pareceu-me um pouco estranho que Carol Boynton deitasse fora
a seringa de Miss King. Evidentemente que deve haver uma boa
explicao... - Calou-se, a olhar, cheia de expectativa, para
Poirot.
 - Obrigado, mademoiselle - agradeceu o detective, muito srio.
- O que me contou pode no ser importante em si mesmo, mas
digo-lhe uma coisa: completa o meu caso! Agora est tudo claro
e em ordem.
 - Sim? - Miss Pierce corou, feliz como uma
criana, e Poirot acompanhou-a ao hotel.
 De novo no seu quarto, acrescentou uma linha ao
seu memorando: Ponto n.o 10. Eu nunca esqueo!
Lembre-se disso. Nunca esqueci nada...
 Acenou com a cabea e exclamou, em voz alta:
 - Mais oui! Agora est tudo esclarecido!

XXII

 - Os meus preparativos esto completos - declarou Hercule
Poirot, ao mesmo tempo que recuava um
passo, suspirava e admirava a disposio que dera a
um dos quartos desocupados do hotel.
 O coronel Carbury, indolentemente encostado  ca
ma que fora empurrada para a parede, sorriu.
- Voc  um tipo cmico, hem, Poirot? Gosta de
dramatizar.
 - Talvez... Mas no se trata de satisfazer um capricho pessoal.
Quando se representa uma comdia
deve-se comear por preparar o cenrio.
 - Mas isto  uma comdia?
 - Mesmo que seja uma tragdia, tambm precisa
de um cenrio.
 Carbury olhou-o com curiosidade.
 - Bem, isso  consigo. No sei aonde quer chegar,
mas suponho que descobriu qualquer coisa.
 - Terei a honra de lhe apresentar o que me pediu:
a verdade! - Poirot consultou o relgio. - So horas
de comearmos. O senhor, mon colonel, sentar-se-
aqui, a esta mesa, numa posio oficial.
 - Pois sim - resmungou Carbury.
 - Aqui - continuou Poirot, a modificar um pouco a posio das
cadeiras - instalaremos a famlia
Boynton. E aqui instalaremos as trs pessoas estranhas
 famlia, mas que esto relacionadas com o caso: o
doutor Gerard, de cujo depoimento depende a acusao; Miss Sarah
King, que tem dois interesses no caso, um pessoal e outro
profissional, e Mister Jefferson
Cope, que tinha relaes de amizade com os Boynton
e, portanto, pode ser considerado parte interessada...
Ah, a vm!
 Primeiro entraram Lennox Boynton e a mulher,
seguidos por Raymond e Carol. Ginevra chegou sozinha, com um leve
sorriso vago nos lbios, e o Dr. Gerard e Sarah King fecharam o
cortejo. Mr. Cope s
chegou passados alguns minutos.
 Depois de todos se encontrarem instalados nos
seus lugares, Poirot dirigiu-lhes a palavra:
 - Senhoras e senhores, esta reunio  absolutamente informal
e resultou da minha presena acidental
em Am. O coronel Carbury deu-me a honra de me
consultar...
 Poirot foi interrompido por quem menos se esperaria: Lennox
Boynton, que perguntou agressivamente:

 - Porqu? Por que demnio o meteu ele neste assunto?
 - Sou consultado com muita frequncia em casos
de morte sbita.
 - Os mdicos mandam-no chamar sempre que
algum morre de um colapso cardaco? - insistiu
Lennox.
 - Colapso cardaco  um termo to vago e to
pouco cientfico! - afirmou Poirot, docemente.
 O coronel Carbury pigarreou e interveio, no seu
tom mais oficial:
 - Acho melhor falarmos claro. As circunstncias
da morte foram-me comunicadas e pareceu-me tudo
muito natural. O tempo estava muito quente, a viagem fora
extenuante para uma senhora idosa e doente... At a, estava tudo
bem. Mas o doutor Gerard
procurou-me e deu-me uma informao... - Olhou
interrogadoramente para Poirot, que acenou com a cabea. - O
doutor Gerard  um mdico eminente, de
reputao mundial, e as suas opinies so, portanto,
dignas de receberem a devida ateno. O doutor Gerard
comunicou-me o seguinte: na manh imediata 
morte de Mistress Boynton, notou que faltava no seu
estojo de medicamentos uma certa quantidade de uma
droga potente, que actua sobre o corao. J na tarde
anterior dera pela falta de uma seringa hipodrmica, a
qual, no entanto, fora devolvida durante a noite. Alm
disso, no pulso da morta havia uma picada que correspondia 
deixada por uma agulha, ao aplicar uma injeco. - O coronel
Carbury fez uma breve pausa. - Nestas circunstncias, achei
dever das autoridades investigarem o assunto. Monsieur Hercule
Poirot era
meu convidado e teve a delicadeza de oferecer os seus
servios de especialista. Dei-lhe carta branca, para
proceder s investigaes que considerasse necessrias
e estamos agora aqui reunidos para tomar conhecimento das suas
concluses.
 Seguiu-se um silncio to total que, como se costuma dizer, se
poderia ouvir cair um alfinete. Por coincidncia, no quarto ao
lado algum deixou cair qualquer
coisa - talvez um sapato -, com um barulho semelhante ao de uma
bomba, na atmosfera silenciosa.
 Poirot olhou para o grupo de trs pessoas reunidas
 sua direita e depois observou as cinco sentadas  sua
esquerda.
 - Quando o coronel Carbury me falou deste assunto, dei-lhe a
minha opinio de perito - declarou o
detective. - Disse-lhe que talvez no fosse possvel
reunir provas capazes de serem aceites num tribunal,
mas acrescentei que estava convencido de que descobriria a
verdade e que, para tanto, me bastaria interrogar as pessoas
relacionadas com o caso. Deixem-me dizer-lhes, meus amigos, que
para investigar um crime
s  necessrio deixar o culpado ou os culpados falar.
No fim, ele ou eles dizem sempre o que queremos saber Assim,
neste caso, embora me tivessem mentido,
acabaram tambm por me dizer a verdade.
 Ouviu um leve suspiro, mas no se voltou para o
lado donde partira.
 - Primeiro, estudei a possibilidade de Mistress Boynton ter
morrido de morte natural, mas pu-la de parte.
O desaparecimento da droga, a seringa e, sobretudo, a
atitude da famlia da morta convenceram-me de que
tal suposio no tinha base. Mistress Boynton fora assassinada
a sangue-frio e todos os membros da sua famlia tinham
conscincia disso! Colectivamente, reagiram como culpados.
 Mas h graus de culpabilidade. Estudei cuidadosamente os
factos apurados, a fim de concluir se o assassnio (sim, foi
assassnio!) fora cometido pela famlia
da vtima, num plano de conjunto. Havia motivos sobejos para a
quererem liquidar. Todos lucravam com a
sua morte, tanto no sentido financeiro, pois conquistariam, acto
contnuo, independncia financeira e ficariam, at, ricos, como
no sentido de se libertarem do
que se transformara numa tirania quase insuportvel.

 Mas continuemos. Verifiquei, quase imediatamente, que o plano
de conjunto no tinha muitas probabilidades de existir. As
histrias da famlia Boynton no
se ajustavam muito bem umas s outras e no havia
indcio de qualquer sistema de libis aceitveis. Os
factos pareciam mais tendentes a sugerir que um ou,
talvez, dois membros da famlia tinham agido em conluio e que os
outros eram encobridores. Depois tentei
averiguar que membro ou membros pareciam mais indicados. Confesso
que, neste ponto, sofri a tentao de
me deixar influenciar por certo pormenor que s eu
conhecia.
 Poirot revelou o que se passara em Jerusalm, a
frase que tinha ouvido.
 - Naturalmente, essa frase fazia incidir as suspeitas em Mister
Raymond Boynton. Estudei a famlia e
cheguei  concluso de que a pessoa mais indicada
para sua confidente, naquela noite, era a sua irm,
Carol. Pareciam-se no aspecto e no temperamento e,
portanto, devia existir entre ambos um lao forte de
simpatia. Alm disso, possuam ambos, tambm, o
temperamento nervoso e rebelde necessrio para
a concepo de tal acto. O facto de os seus motivos
serem, em parte, altrustas (libertar toda a famlia e,
sobretudo, a irm mais nova), ainda tornava mais
plausvel o planeamento da aco.
 Poirot calou-se e Raymond Boynton entreabriu os
lbios, mas voltou a fech-los. Os seus olhos fitavam o
detective, cheios de angstia.
 - Antes de continuar a apresentar o caso contra
Raymond Boynton, gostaria de lhes ler uma lista de
factos significativos, que apresentei esta tarde ao coronel
Carbury:

1. Mistress Boynton tomava um remdio que continha Digitalis.
2. O doutor Gerard deu por falta de uma seringa hipodrmica.
3. Mistress Boynton sentia grande prazer em impedir a famlia de
 se divertir com as outras pessoas.
4. Na tarde em questo, Mistress Boynton encorajou a famlia a
 ir passear e a deix-la sozinha.
5. Mistress Boynton era uma sdica mental.
6. A distncia entre a tenda grande e o lugar onde Mistress
Boynton estava sentada era (aproximadamente) de cento e oitenta
 metros.
7. Mister Lennox Boynton disse, ao princpio, no saber a que
 horas regressara ao acampamento, mas depois admitiu ter
acertado o relgio da me.
8. O doutor Gerard e Miss Ginevra Boynton ocupavam tendas
 contguas.
9. s seis horas e trinta, quando o jantar estava pronto, um cria 
do foi anunciar esse facto a Mistress Boynton.
10. Em Jerusalm, Mistress Boynton empregou as palavras: Eu
 nunca esqueo! Lembre-se disso. Nunca esqueci nada.

 Embora tenha numerado os vrios pontos separadamente, alguns
podem ser reunidos aos pares. Acontece assim, por exemplo, com
os dois primeiros: Mistress Boynton tomava um remdio que
continha Digitalis.
O doutor Gerard deu por falta de uma seringa hipodrmica. Estes
dois pormenores foram os que primeiro me
impressionaram, no caso, e confesso que os achei muito
extraordinrios e absolutamente irreconciliveis.
No compreendem o que quero dizer? No importa.
Voltarei ao assunto mais adiante.
 Vou concluir o meu estudo das possibilidades de
culpa de Raymond Boynton. Fora ouvido a discutir a
hiptese de tirar a vida a Mistress Boynton. Encontrava-se num
estado de grande excitao nervosa. Acabava de passar, a
mademoiselle desculpar - inclinou a
cabea a Sarah -, acabava de passar por uma grande
crise emocional, isto , apaixonara-se. A exaltao dos
seus sentimentos podia lev-lo a agir de vrios modos.
Podia sentir-se inclinado a mostrar-se brando e condescendente
para com o mundo em geral, incluindo a
madrasta; podia sentir, finalmente, a coragem necessria para a
desafiar e libertar-se da sua influncia, ou
podia encontrar o incentivo para passar o seu crime da
teoria para a prtica. Esta  a psicologia. Examinemos
agora os factos.
 <<Raymond Boynton saiu do acampamento, com os

outros, cerca das trs e um quarto da tarde. Nessa altura,
Mistress Boynton estava viva e bem. Passado
pouco tempo, Raymond e Sarah King tiveram um tte--tte. Depois
ele deixou-a e, segundo declarou, regressou ao acampamento s
seis horas menos dez
minutos. Foi ter com a me, trocou algumas palavras
com ela, dirigiu-se  sua tenda e depois  tenda grande. Declarou
que s seis horas menos dez minutos
Mistress Boynton estava viva e bem. Mas eis que nos
surge um facto que contradiz directamente tal afirmao. s seis
e meia, um criado encontrou Mistress
Boynton morta. Miss King, que se bacharelou em Medicina, examinou
o corpo e jura que, embora no tivesse prestado especial ateno
a esse pormenor, a
morte ocorrera com certeza pelo menos uma hora antes
das seis horas.
 Como vem, temos duas declaraes contraditrias. Pondo de
parte a possibilidade de Miss King ter
cometido um erro...
 - No cometo erros - interrompeu-o Sarah. - Quero dizer, se
me tivesse enganado, admiti-lo-ia.
 Poirot fez-lhe uma vnia, cortesmente.
 - Nesse caso, s h duas possibilidades: Miss King
ou Mister Boynton mentem! Examinemos as razes
que Raymond Boynton poderia ter para mentir. Partamos do
princpio de que Miss King no se enganou e
no mentiu deliberadamente. Qual foi, ento, a sequncia dos
acontecimentos? Raymond Boynton regressou ao acampamento, viu a
me sentada  entrada
da caverna, foi ter com ela e encontrou-a morta. Que
fez? Pediu socorro? Comunicou imediatamente o que
acontecera? No. Aguardou um minuto ou dois, foi 
sua tenda e a seguir reuniu-se  famlia, na tenda grande, e no
disse nada. Semelhante conduta  muito
curiosa, no ?
 Raymond respondeu, em voz nervosa e irritada:
 - Seria, at, idiota. Isso deve demonstrar-lhe que a
minha me estava viva e bem, como eu disse. Miss King
enervou-se, ficou transtornada e cometeu um erro.
- Ocorre perguntar - prosseguiu Poirot, calmamente, como se no
o ouvisse - se haveria uma razo
para tal conduta.  primeira vista, parece que Raymond Boynton
no pode ser culpado, pois no nico momento em que se aproximou
da me, naquela tarde,
ela j estava morta havia algum tempo. Supondo, portanto, que
Raymond Boynton est inocente, poderemos
explicar a sua conduta?
 Respondo que, partindo do princpio da sua inocncia,
podemos! Recordo-me, mais uma vez, do fragmento de conversa que
ouvi: Compreendes que ela tem
de ser morta, no compreendes? Raymond Boynton regressou do seu
passeio, encontrou a me morta e, acto
contnuo, a sua memria culpada entreviu uma certa
possibilidade: o plano fora executado, no por ele,
mas por quem com ele o gizara! Tout simplement,
ele suspeitou que a sua irm, Carol Boynton, era culpada.
 -  mentira! - afirmou Raymond, em voz baixa
e trmula.
 - Estudemos, agora, a possibilidade de Carol
Boynton ser a assassina. Quais so as provas contra
ela? Possui o mesmo temperamento impetuoso, o gnero de
temperamento capaz de revestir de cores hericas semelhante acto.
Foi com ela que Raymond
Boynton falou, naquela noite, em Jerusalm. Carol
Boynton regressou ao acampamento s cinco e dez.
Segundo declarou, foi falar com a me, mas ningum
a viu. O acampamento estava deserto, os criados dormiam. Lady
Westholme, Miss Pierce e Mister Cope
andavam a explorar cavernas, fora do campo visual
do acampamento. No havia, portanto, testemunhas
da possvel aco de Carol e o tempo da morte estaria
certo. O caso contra Carol Boynton  perfeitamente
possvel.
 Calou-se. Carol levantara a cabea e fitava-o, triste
e firmemente.
 - H ainda outro ponto. Na manh seguinte,
muito cedo, algum viu Carol Boynton atirar qualquer
coisa para o regato. H razes para crer que esse
qualquer coisa era uma seringa hipodrmica.
 - Comment? - perguntou o Dr. Gerard, surpreendido. - Mas a
minha seringa foi devolvida! Foi,
eu tenho-a!
 Poirot acenou com a cabea, veementemente.
 - Sim, o aparecimento desta segunda seringa 
muito curioso, muito interessante. Deram-me a entender que a
seringa pertencia a Miss King.  verdade?
 Como Sarah hesitasse uma fraco de segundo, Carol
antecipou-se-lhe:
 - No era a seringa de Miss King; era a minha.
 - Admite, ento, que a atirou fora, mademoiselle?
 A jovem hesitou, apenas um instante.
 - Sim, com certeza. Porque no a atiraria fora?
 - Carol! - exclamou Nadine, inclinada para a
frente, de olhos dilatados e inquietos. - Carol... oh,
no compreendo!
 Carol virou-se para ela, com uma certa hostilidade.
 - No h nada que compreender! Atirei fora uma
seringa velha. No toquei no... no veneno.
 Sarah interveio:
 - O que Miss Pierce lhe disse  verdade, Monsieur Poirot. A
seringa era minha.
 Poirot sorriu.
 -  muito confuso, este caso da seringa, embora
eu creia que se pode explicar. Enfim, j estudmos
duas possibilidades: a da inocncia de Raymond Boynton e a da
culpabilidade da sua irm, Carol. Mas eu
sou escrupulosamente justo, procuro ver sempre os
dois aspectos de qualquer questo. Vejamos o que
aconteceria se Carol Boynton estivesse inocente.
 Ela chegou ao acampamento, foi ter com a madrasta e
encontrou-a (admitamos) morta. Qual foi a
primeira coisa que lhe acudiu ao esprito? Suspeitou
de que o irmo, Raymond, a matara. Sem saber que
fazer, resolveu calar-se. Pouco depois, passada cerca
de uma hora, Raymond Boynton chegou ao acampamento e, depois de
ter estado junto da me, no disse
nada, no comunicou que notara algo anormal. No lhes
parece que, perante tal procedimento, as suspeitas da
irm se tornariam certezas? Talvez ela tenha ido  tenda do irmo
e encontrasse a seringa... Ento, sim, teve
a certeza! Pegou na seringa, escondeu-a e de manh
muito cedo deitou-a fora.
 Mas h ainda outro indcio da inocncia de Carol
Boynton. Ela garantiu-me, quando a interroguei, que
nunca tinham pensado seriamente em pr em prtica o
plano. Pedi-lhe que jurasse e Miss Boynton jurou imediatamente,
e com a maior solenidade, que no era
culpada do crime. Foi assim que ela se exprimiu: no
jurou que eles - ela e o irmo - no eram culpados;
jurou que ela no era culpada e pensou que eu no
prestaria ateno ao pormenor.
 Eh bien, est demonstrada a inocncia de Carol
Boynton. Voltemos agora atrs e consideremos no a
inocncia, mas, sim, a possvel culpa de Raymond.
Suponhamos que Carol disse a verdade, que Mistress Boynton estava
viva s cinco e dez. Em que circunstncias poder Raymond ser
culpado? Podemos
supor que matou a madrasta s seis horas menos dez
minutos, quando foi falar com ela.  verdade que os
criados j andavam pelo acampamento, mas comeava
a escurecer. Podia, de facto, ser possvel, mas nesse
caso Miss King teria mentido. Lembremo-nos de que
ela chegou ao acampamento cinco minutos, apenas,
depois de Raymond. De longe, v-lo-ia ir ter com a
me. Mais tarde, quando a encontrou morta, Miss King
convenceu-se de que Raymond a matara e, para o salvar, mentiu,
sabendo como sabia que o doutor Gerard
estava de cama, com febre, e no poderia desmascarar
a sua mentira!
 - Eu no menti! - afirmou Sarah, com firmeza.
 - H ainda outra possibilidade. Miss King, como
j disse, chegou ao acampamento poucos minutos depois de Raymond.
Se este encontrou a me viva, pode
ter sido Miss King quem administrou a injeco fatal.
Estava convencida de que Mistress Boynton era fundamentalmente
m e talvez se tenha visto como uma justiceira. Isso explicaria,
tambm, a sua mentira acerca
da hora da morte.
 Sarah, que empalidecera muito, falou em voz baixa, mas firme:
 -  verdade que falei da aparente justia de uma
pessoa morrer para salvar muitas. O Lugar do Sacrifcio
inspirou-me essa ideia. Mas posso jurar que no fiz
mal nenhum quela velha revoltante nem tal ideia me
passou pela cabea!
 - E, no entanto, um dos dois deve estar a mentir
- comentou Poirot, em tom muito suave.
 Raymond Boynton mexeu-se na cadeira e exclamou, impetuosamente:
 - Venceu, Monsieur Poirot! O mentiroso sou eu.
Minha madrasta estava morta quando cheguei junto
dela. Fiquei... fiquei aparvalhado. Compreende, estava decidido
a esclarecer tudo com ela, a dizer-lhe que,
doravante, seria livre. Estava absolutamente decidido,
compreende? Mas cheguei e ela estava... morta! Tinha
a mo fria e inerte. Pensei... aquilo que o senhor disse...
pensei que talvez Carol... Enfim, vi a marca, no
pulso...
 - Ainda no estou completamente informado a esse respeito -
interrompeu-o, de sbito, Poirot. - Qual era o mtodo que
tencionavam empregar? Tinham um mtodo estudado, e relacionava-se
com uma
seringa hipodrmica.
 - Era uma coisa que tinha lido num livro... num
romance policial ingls - tartamudeou Raymond. - Espetava-se a
agulha de uma seringa vazia em algum... e bastava. Parecia...
parecia muito cientfico.
 - Ah! - exclamou Poirot. - Compreendo. E compraram uma seringa?
 - No. Roubmos a de Nadine.
- A seringa que est na sua bagagem em Jerusalm, madame? -
perguntou Poirot  visada.
 - No... no tinha a certeza do que lhe acontecera
- respondeu, um pouco corada, Nadine.
 - Possui uns reflexos to rpidos, madame! - elogiou o
detective.

XXIII

 Poirot pigarreou, com um bocadinho de afectao,
e prosseguiu:
 - Resolvemos o mistrio daquilo a que chamo a
segunda seringa. Uma seringa, que pertencia a Mistress Lennox
Boynton, foi subtrada por Raymond
Boynton antes de partirem de Jerusalm, foi tirada a
Raymond por Carol depois da descoberta do cadver,
atirada fora pela jovem, encontrada por Miss Pierce e
reclamada, como pertena sua, por Miss King. Suponho que Miss
King a tem?
 - Tenho.
 - Portanto, quando h pouco nos afirmou que era
sua, fez aquilo que disse no fazer: mentiu.
 - Trata-se de um diferente gnero de mentira. - redarguiu
Sarah, serenamente. - No ... no  uma
mentira profissional.
 - Sim, compreendo-a perfeitamente.
 - Obrigada.
 Poirot voltou a pigarrear.
 - Passemos agora em revista o nosso horrio:

Os Boynton e Jefferson Cope saram do acampamento
 (aprox.) .....................................
......................... ..... 3.05
Doutor Gerard e Sarah King saram do acampamento
 (aprox.) .....................................
....................... ....... 3.15
Lady Westholme e Miss Pierce saram do acampamento
 (aprox. ) 4.15

Doutor Gerard regressou ao acampamento (aprox.) 
 4.20
Lennox Boynton regressou ao acampamento................. 
 4.35
Nadine Boynton regressou ao acampamento e ,falou, com
Mistress Boynton ............................................. 
 4.40
Nadine Boynton deixou a "sogra, e foi para a tenda, grande
(aprox.) 
 4.50
Carol Boynton regressou ao acampamento ..................... 
 5.10
Lady Westholme, Miss Pierce e Mister Jefferson Cope regressaram
ao acampamento..............................."", 5.40
Raymond Boynton regressou ao acampamento............. 
 5.50
Sarah King regressou ao acampamento ...................... 
 6.00
0 corpo foi descoberto...................... """,""" "" "" 
 6.30

 H, como verificaro, um hiato de vinte minutos
entre as quatro horas e cinquenta, hora em que Nadine Boynton
deixou a sogra, e as cinco horas e dez, hora em que Carol
regressou. Portanto, se Carol diz a
verdade, Mistress Boynton deve ter sido morta nesses
vinte minutos. Quem a podia ter matado? Nessa altura, Miss King
e Raymond Boynton estavam juntos.
Mister Cope (embora no tenha qualquer motivo
aparente para a matar) possui um libi: estava com
Lady Westholme e Miss Pierce. Lennox Boynton estava com a mulher
na tenda grande. O doutor Gerard
debatia-se com um ataque de febre na sua tenda.
O acampamento estava deserto, os criados dormiam...
era, em suma, um momento propcio para o cometimento de um crime!
Mas estava presente algum que
o pudesse cometer?
 Os olhos do detective desviaram-se, pensativos, para Ginevra
Boynton.
 - Estava presente uma pessoa. Ginevra Boynton
esteve toda a tarde na sua tenda. Pelo menos foi isto
que nos disseram, mas na realidade existem provas de
que ela no esteve sempre na sua tenda. Ginevra fez
uma observao muito interessante: disse que o doutor
Gerard pronunciou o seu nome, enquanto dormia. Ora
o doutor Gerard tambm nos disse que, durante o seu
ataque febril sonhou com o rosto de Ginevra Boynton.
Mas no se tratou de um sonho! Foi realmente a cara dela que ele
viu, junto da sua cama. Sups tratar-se de
um efeito da febre, mas era a realidade. Ginevra foi 
tenda do doutor Gerard. No ser possvel que tenha
ido repor a seringa, depois de a haver utilizado?
 Ginevra levantou a cabea ruiva-dourada e os seus
belos olhos fitaram Poirot com uma singular falta de
expresso.
 - Ah, a non! - protestou o mdico.
 -  assim to psicologicamente impossvel? - indagou o
detective.
 O francs baixou os olhos, mas Nadine Boynton
afirmou, vivamente:
 -  impossvel!
 Poirot virou-se logo para ela.
 - Impossvel, madame?
 - Sim. - Nadine calou-se, mordeu os lbios e
prosseguiu: - No estou disposta a ouvir semelhante
acusao contra a minha cunhada! Todos ns sabemos
que  impossvel!
 Ginevra mexeu-se um pouco na cadeira e a sua boca
descontraiu-se num sorriso, no sorriso comovedor,
inocente e semi-inconsciente de uma rapariguinha
muito nova.
 - Impossvel! - repetiu Nadine.
 Poirot inclinou-se, quase numa vnia, e declarou:
 - Madame  muito inteligente.
 - Que quer dizer com isso, Monsieur Poirot?
 - Quero dizer, madame, que compreendi desde o
princpio que tem uma excelente cabea.
 - Lisonjeia-me.
 - No creio. Desde o princpio que encarou a situao calma e
serenamente. Manteve-se aparentemente em boas relaes com a me
do seu marido, pois
essa pareceu-lhe a melhor maneira de proceder, mas
intimamente julgou-a e condenou-a. Suponho que, h
algum tempo, compreendeu que a nica probabilidade
de o seu marido ser feliz era sair de casa, singrar por si
prprio, por muito difcil e modesta que fosse a vida
que poderiam levar nessas condies. Estava disposta
a correr todos os riscos e tentou convenc-lo, mas falhou,
madame. Lennox Boynton j no tinha vontade
de ser livre.
 Ora, eu no tenho dvida nenhuma de que a senhora ama o seu
marido. A sua deciso de o deixar
no foi inspirada por um amor maior por outro homem. Foi, creio,
uma ltima e desesperada tentativa.
Uma mulher na sua situao s podia tentar trs coisas. A splica
que, como disse, falhou. A ameaa de
abandono, mas creio que nem isso chegaria, j, para
despertar Lennox Boynton. Mergulh-lo-ia num sofrimento ainda
maior, mas no o incitaria a rebelar-se.
Havia s uma derradeira e desesperada tentativa: fugir
com outro homem. O cime e o instinto de posse so
dois dos instintos fundamentais mais profundamente
enraizados no homem. A senhora mostrou a sua inteligncia ao
tentar atingir esse instinto oculto e selvagem.
Se Lennox a deixasse partir com outro homem sem fazer um esforo,
ento estava, deveras, fora do alcance
de todo o auxlio humano e a si s lhe restava tentar
refazer a sua vida.
 "Suponhamos que at esse derradeiro e desesperado remdio
falhou. Seu marido ficou profundamente
transtornado com a sua deciso, mas apesar disso, e ao
contrrio do que a senhora esperara, no reagiu como
o homem primitivo reagiria, com uma exploso de instinto de
posse. Haveria alguma coisa capaz de salvar o
seu marido do rpido declnio das suas faculdades
mentais? S uma coisa. Se a madrasta morresse, talvez
no fosse ainda tarde de mais. Talvez ele fosse capaz
de recomear a viver como um homem livre, de recuperar a
independncia e a virilidade.
 Nadine, que no desviara os olhos dele, redarguiu,
em voz calma e imperturbvel:
 - Est a sugerir que ajudei a tornar esse facto realidade? No
pode, Monsieur Poirot. Depois de ter comunicado  Mistress
Boynton a iminncia da minha
partida, fui direita  tenda grande, onde me reuni a
Lennox, e no sa de l at encontrarem a minha sogra
morta. Posso ser culpada da sua morte no sentido de
lhe ter causado um abalo, o que pressupe uma morte
natural; mas se o senhor diz (embora at agora no tenha
quaisquer provas disso nem as possa ter enquanto
no for efectuada a autpsia), mas se diz que ela foi
deliberadamente morta, ento eu no tive oportunidade de a matar.
 - No saiu da tenda grande at a sua sogra ser encontrada
morta? - perguntou Poirot. - Esse, Mistress Boynton,  um dos
pontos deste caso que me tem
parecido muito curioso.
 - Que quer dizer?
 - Est aqui, na minha lista: Nove. s seis horas
e trinta, quando o jantar estava pronto, um criado foi
anunciar esse facto a Mistress Boynton.
 - No compreendo - disse Raymond.
 - Nem eu - confessou Carol.
 Poirot olhou-os, sucessivamente.
 - No compreendem, hem? Um criado foi anunciar... Porqu
um criado? No eram todos vocs de
uma grande assiduidade quando se tratava de cuidar
da velha senhora? No havia sempre um que se encarregava de a ir
buscar e de a acompanhar  mesa,  hora das refeies? Ela estava
doente, tinha dificuldade
em se levantar de uma cadeira sem auxlio. Um de vocs estava
sempre de servio, a seu lado. Parece-me,
portanto, que ao ser anunciado o jantar seria natural
uma pessoa da famlia ir ajud-la. Mas nenhum se
prontificou a faz-lo.
 - Tudo isso  absurdo, Monsieur Poirot! - exclamou Nadine,
irritada. - Estvamos todos fatigados.
Admito que devamos ter ido, mas naquela noite no
fomos!
 - Precisamente! Naquela noite especial! A senhora,
por exemplo, dispensava-lhe mais cuidados do que
qualquer dos outros, era um dever que aceitava maquinalmente. Mas
nessa noite no se levantou para a ir
ajudar. Porqu? Fiz essa pergunta a mim prprio, porqu?, e
vou-lhe dizer a resposta: porque sabia muito
bem que ela estava morta... No, no me interrompa,
madame! - Levantou a mo, imperioso. - Agora ouvir-me- a mim,
Hercule Poirot! Houve testemunhas
da sua conversa com a sua sogra, testemunhas que puderam ver, mas
no puderam ouvir. Lady Westholme e
Miss Pierce estavam muito longe. Viram-na, aparentemente, a
conversar com a sua sogra, mas que provas
concludentes existem do que se passou? Permito-me
apresentar uma teoriazinha. A senhora  inteligente.
Se,  sua maneira calma e lcida, decidisse... digamos,
decidisse eliminar a me do seu marido, procederia
com inteligncia e efectuaria os devidos preparativos.
Teria acesso  tenda do doutor Gerard, durante a sua
ausncia, na excurso matinal, convencida de que l
encontraria uma droga adequada. O seu treino de enfermeira
ajud-la-ia, nesse captulo. Escolheria a digitoxina, o mesmo
gnero de droga que a velha senhora
andava a tomar, e levaria tambm a seringa, visto que,
inexplicavelmente, a sua desaparecera. Esperaria poder repor esta
ltima, antes de o doutor dar pela sua
falta.
 Antes de pr em prtica o seu plano, resolveu
tentar uma ltima vez sacudir o seu marido da letargia
em que mergulhara e, por isso, falou-lhe da sua inteno de casar
com Jefferson Cope. Embora ficasse muito transtornado, seu marido
no reagiu como a senhora esperara, o que a obrigou a recorrer
ao plano do
assassnio. Regressou ao acampamento e, no caminho, trocou umas
palavras amveis e naturais com
Lady Westholme e Miss Pierce. Foi ter com a sua sogra, de seringa
preparada e, mais uma vez graas ao
seu treino de enfermeira, no teve dificuldade em a injectar. A
sua sogra nem teve conscincia do que se
passava. De longe, do vale, os outros s a viam inclinada para
ela, a falar. Depois, deliberadamente, foi
buscar uma cadeira e sentou-se, aparentemente entretida numa
conversa amena, durante alguns minutos.
A morte deve ter sido quase instantnea e, por isso,
era com uma morta que falava, mas quem o perceberia? A seguir
arrumou a cadeira e foi para a tenda
grande, onde encontrou o seu marido, a ler, e teve o
cuidado de no sair de l. Estava certa de que a morte
de Mistress Boynton seria atribuda a colapso cardaco
(como na realidade foi!). Os seus planos s falharam
num pormenor: no pde repor a seringa na tenda do
doutor Gerard, em virtude de ele l estar atacado de
malria... e, embora o ignorasse, ele j dera por falta
da seringa! Essa, madame, foi a falha num crime que,
de contrrio, seria perfeito.
 Seguiu-se um momento de silncio absoluto, pesado, e por fim
Lennox levantou-se e gritou:
 - No! Isso  uma grandssima mentira, Nadine
no fez nada! No podia ter feito, pois... pois a minha
me j estava morta.
 - Ah! - exclamou Poirot, e os seus olhos fitaram-no, suaves.
- Afinal, sempre foi o senhor que a
matou, Mister Boynton?
 Nova pausa. Depois Lennox deixou-se cair na cadeira e levou as
mos trmulas ao rosto.
 - Sim...  verdade. Matei-a.
 - Tirou a digitoxina da tenda do doutor Gerard?
 - Tirei.
 - Quando?
 - Como... como o senhor disse... de manh.
 - E a seringa?
 - A seringa? Sim.
 - Porque a matou?
 - Ainda o pergunta?
 - Estou a perguntar, Mister Boynton.
 - Mas j sabe... a minha mulher ia-me deixar... ia
partir com Cope...
 - Pois sim, mas o senhor s soube disso de tarde!
 - Claro. Quando samos...

 - Mas tirou o veneno e a seringa de manh, antes
de saber?
 - Por que diabo me atormenta com perguntas? - Calou-se e
passou a mo trmula pela testa. - Que
importncia tem isso, alis?
 - Tem muita, Mister Lennox Boynton. Aconselho-o a dizer-me a
verdade.
 - A verdade? - repetiu Lennox, a fit-lo.
 Nadine virou-se bruscamente na cadeira e olhou
para o marido.
 - Foi o que lhe pedi - disse Poirot. - Que dissesse a verdade.
 - Meu Deus, direi! - exclamou Lennox, muito
agitado. - Mas no sei se me acreditar. Naquela tarde, quando
deixei Nadine, estava verdadeiramente
desfeito. Nunca imaginara que ela me pudesse trocar
por outro. Sentia-me... sentia-me quase louco! Era como se
estivesse embriagado ou a refazer-me de uma
doena grave.
 - Lady Westholme achou estranho o seu andar,
quando passou por ela - observou Poirot, a acenar
com a cabea. - Foi por isso que compreendi que a
sua mulher mentia quando afirmou ter-lhe dito depois
de terem ambos regressado ao acampamento. Continue, Mister
Boynton.
 - Mal sabia o que fazia... mas quando me aproximei do
acampamento o meu crebro pareceu desanuviar-se. Compreendi, de
sbito, que a culpa era exclusivamente minha. Portara-me como um
verme! Devia
ter desafiado a minha madrasta e sado de casa anos
antes. Pensei que talvez ainda no fosse tarde de mais.
L estava ela, o velho demnio, sentada como um dolo obsceno,
defronte dos penhascos vermelhos! Fui
direito a ela, decidido a dizer-lhe o que pensava e a inform-la
de que me ia embora. No sei porqu, estava
convencido de que poderia partir naquela mesma noite, de que
poderia partir com Nadine e chegar a Maan
ainda naquela noite...
- Oh, Lennox, meu querido!
 - E depois, meu Deus!... Ela estava morta. Ali
sentada, morta! No soube que fazer, fiquei aparvalhado. Tudo
quanto decidira gritar-lhe estava fechado
dentro de mim, transformado em chumbo... no sei
explicar... Tive a sensao de me transformar em pedra.
Maquinalmente, peguei no relgio de pulso dela
(estava cado no colo) e pus-lho no brao... naquele
horrvel e inerte brao morto... - Estremeceu. - Meu Deus, foi
terrvel! Depois desci, como embriagado, para a tenda grande.
Suponho que devia ter chamado algum... mas no pude. Deixei-me
ficar sentado, a virar as pginas,  espera... - Fez uma pausa
longa. - No acredita, claro, no pode acreditar. Porque no
chamei ningum? Porque no disse a Nadine?
No sei.
 O Dr. Gerard pigarreou e intrometeu-se:
 - As suas declaraes so perfeitamente plausveis, Mister
Boynton. Encontrava-se num grave estado
de nervosismo e dois abalos fortes, sofridos um atrs
do outro, chegariam para o deixar como explicou.
Chama-se a isso a reaco de Weissenhalter, mais bem
exemplificada no caso de um pssaro que bate com a
cabea numa janela. Mesmo depois de se refazer do
choque, evita instintivamente qualquer aco, a fim
de dar aos centros nervosos o tempo necessrio para se
reajustarem. No me exprimo muito bem em ingls,
mas o que quero dizer  o seguinte: o senhor no podia
ter procedido de outro modo. Uma aco decisiva, de
qualquer espcie, ser-lhe-ia absolutamente impossvel!
Passou por um perodo de paralisia mental. - Voltou-se para
Poirot e acrescentou: - Garanto-lhe, meu
amigo, que  assim.
 - Oh, no duvido! Por sinal, j reparara num pequeno pormenor:
no facto de Mister Boynton ter reposto o relgio de pulso da me
no seu lugar. Esse
acto podia ter duas explicaes: ou tratar-se de um
disfarce do acto criminoso, ou ter sido observado e
mal interpretado por Mistress Lennox Boynton. Ela
regressou cinco minutos, apenas, depois do marido e
deve, portanto, ter visto essa aco. Quando chegou
junto da sogra e a encontrou morta, com a picada da
injeco no pulso; podia naturalmente concluir que
o marido a matara, que o anncio do seu intento de o
deixar produzira nele uma reaco diferente da que
pretendera. Em resumo, Nadine Boynton podia ter-se
convencido de que incitara o marido a cometer um assassnio. -
Olhou para Nadine e perguntou-lhe: - Foi isso que sucedeu,
madame?
 Nadine baixou a cabea e depois perguntou:
 - Suspeitou realmente de mim, Monsieur Poirot?
 - Pensei que era uma possibilidade, madame.
 - E agora? Que aconteceu de facto, Monsieur Poirot?

XXIV

 - Que aconteceu de facto? - repetiu Poirot, ao
mesmo tempo que puxava uma cadeira e se sentava,
agora com uma atitude amigvel e cordial. -  uma
pergunta com toda a razo de ser, no ? No h dvida de que a
digitoxina foi roubada, de que a seringa
desapareceu temporariamente e de que no pulso de
Mistress Boynton havia a picada de um injeco. Dentro de poucos
dias saberemos definitivamente, graas 
autpsia, se Mistress Boynton morreu ou no em consequncia de
uma dose excessiva de Digitalis. Mas ento talvez j seja tarde
de mais. Seria melhor descobrir
a verdade esta noite, enquanto o assassino est aqui,
ao nosso alcance.
 Nadine levantou vivamente a cabea e perguntou:
 - O qu, ainda acredita que um de ns...
 Calou-se, ao ver Poirot acenar, lentamente, com a
cabea.
- A verdade, eis o que prometi ao coronel Carbury. Depois de
desbravarmos o nosso caminho, voltamos ao princpio, a uma lista
de factos e a duas grandes incoerncias.
 - E se nos dissesse quais elas so? - perguntou o
coronel.
 -  o que tenciono fazer - declarou Poirot, com
dignidade. - Vejamos, mais uma vez, aqueles dois
primeiros factos da minha lista: Mistress Boynton tomava um
remdio com Digitalis e o doutor Gerard deu por
falta de uma seringa. Confrontem estes dois factos com
o facto inegvel que me saltou imediatamente aos
olhos: a famlia Boynton teve inequvocas reaces de
culpa. Assim, pareceria lgico pensar que um dos
Boynton cometera o crime. E, contudo, os dois primeiros factos
que mencionei opem-se a tal teoria.
Utilizar uma soluo concentrada de Digitalis seria,
sem dvida, uma ideia inteligente, em virtude de Mistress Boynton
j andar a tomar a droga. Mas que faria,
depois de se apoderar do veneno, um dos membros da
famlia? Ah, ma foi! S havia uma coisa sensata a fazer: meter
o veneno no frasco do remdio que ela tomava! Seria assim que
procederia qualquer pessoa com
um pouco de bom senso e com acesso ao remdio.
 "Mais cedo ou mais tarde, Mistress Boynton tomaria uma dose do
remdio e morreria, e mesmo que se
descobrisse a digitoxina no frasco poder-se-ia atribuir
o facto a um erro do farmacutico. Nada se poderia
provar. Porqu, ento, o roubo da seringa?
 S pode haver duas explicaes. Ou o doutor Gerard no viu
a seringa e esta nunca foi roubada, ou a
seringa foi roubada porque o assassino no tinha acesso ao
remdio, isto , o assassino no era um membro
da famlia Boynton. Os dois factos apontados indicam,
fortemente, que foi uma pessoa de fora quem cometeu
o crime.
 Compreendi isso, mas senti-me intrigado com os
sintomas de culpabilidade evidenciados pela famlia

Boynton. Seria possvel que, apesar desse ar culpado, os
Boynton estivessem inocentes? Resolvi, por isso, provar
no a culpa, mas a inocncia da famlia.  nesse ponto
que nos encontramos. O assassnio foi cometido por
uma pessoa de fora, isto , por algum que no tinha suficiente
intimidade com Mistress Boynton para entrar na
caverna e mexer no frasco do seu remdio.
 Fez uma pausa.
 - Encontram-se nesta sala trs pessoas que, tecnicamente, so
estranhas  famlia, mas que esto, de
modo definido, ligadas ao caso. Mister Cope, que consideraremos
em primeiro lugar, estava estreitamente
relacionado com a famlia havia algum tempo. Poderemos descobrir
motivo e oportunidade da sua parte?
Parece que no. A morte de Mistress Boynton foi-lhe
prejudicial, pois dela resultou a frustrao de certas
esperanas por ele acalentadas. A no ser que o mbil
de Mister Cope fosse um desejo quase fantico de beneficiar
outras pessoas, no encontraremos qualquer
razo para ele desejar a morte de Mistress Boynton. S
se existe um motivo acerca do qual nada saibamos...
 - Parece-me que est a ir um pouco longe de
mais, Monsieur Poirot - declarou Mr. Cope, muito
digno. - Deve lembrar-se de que no tive oportunidade
absolutamente nenhuma de cometer o crime... e,
alm disso, tenho opinies muito vincadas acerca da
santidade da vida humana.
 - A sua posio parece, sem dvida, impecvel. - declarou
Poirot, em tom muito grave. - Num romance policial, tornar-se-ia
muito suspeito por isso. Chega, agora, a vez de Miss King. Ela
tem certa dose de
motivo, possui os conhecimentos mdicos necessrios
e  uma pessoa de carcter forte e determinao, mas
como saiu do acampamento antes das trs e meia, com
os outros, e s voltou s seis horas, parece difcil que
tenha tido oportunidade.
 Falta considerar o doutor Gerard. Devemos ter
em conta a hora em que o crime foi cometido. De
acordo com as declaraes de Mister Lennox Boynton,
a sua me j estava morta s quatro horas e trinta e
cinco. Segundo Lady Westholme e Miss Pierce, ainda
estava viva s quatro horas e quinze, quando iniciaram
o seu passeio. Ficam, portanto, vinte minutos exactos
por explicar. Quando estas duas senhoras se afastavam
do acampamento, o doutor Gerard cruzou-se com elas,
ao regressar. No h ningum que possa dizer quais foram os
movimentos do doutor Gerard quando chegou ao
acampamento, pois as costas das duas senhoras estavam
voltadas para ele. Elas afastavam-se. Portanto, teria sido
perfeitamente possvel ao doutor Gerard cometer o crime. Como
mdico, saberia imitar os sintomas da malria. E nem falta um
motivo possvel: o doutor Gerard
podia querer salvar certa pessoa cuja razo (talvez uma
perda mais vital do que a da vida) estava em perigo e
achar que, para isso, valia a pena sacrificar uma vida
j condenada.
 - As suas ideias so fantsticas! - exclamou o
mdico.
 Poirot prosseguiu, sem fazer caso:
 - Mas, se foi isso que sucedeu, porque chamou Gerard a ateno
para a possibilidade de jogo sujo?  quase
certo que, se no fossem as declaraes por ele prestadas ao
coronel Carbury, a morte de Mistress Boynton
teria sido atribuda a causas naturais. Foi o doutor Gerard quem
primeiro assinalou a possibilidade de ter
havido assassnio. Isto, meus amigos, no faz sentido.
 - Quanto a mim, pelo menos, no faz - resmungou o coronel.
 - H ainda outra hiptese - continuou o detective. - Mistress
Lennox Boynton negou com veemncia a possibilidade de a sua
cunhada mais nova ser culpada. A veemncia da sua objeco
baseava-se no facto
de ela saber que a sogra estava morta mais cedo do
que se supunha. Mas lembremo-nos de que Ginevra
Boynton esteve toda a tarde no acampamento. Houve
um momento, quando Lady Westholme e Miss Pierce

se afastavam do acampamento e antes de o doutor Gerard
regressar...
 Ginevra estremeceu, inclinou-se para a frente, fitou Poirot e
perguntou-lhe:
 - Fui eu? Pensa que fui eu?
 De sbito, num movimento de rpida e incomparvel beleza,
levantou-se da cadeira, atravessou o aposento, ajoelhou-se ao
lado do doutor Gerard, agarrou-o
e fitou-o apaixonadamente.
 - No! No! No os deixe dizer isso! Esto outra
vez a erguer as paredes  minha volta! No  verdade
 ,
eu no fiz nada! So meus inimigos, querem meter-me
na priso! Tem de me ajudar!
 - Calma, minha filha, calma! - O mdico dirigiu-se a Poirot e
afirmou: - O que disse  um disparate,  absurdo.
 - Mania da perseguio? - murmurou o detective.
 - Sim... mas ela no o faria assim... procederia
dramaticamente. Um punhal, qualquer coisa espectacular, mas nunca
esta calma fria e lgica. Garanto-lhes
que tenho razo, meus amigos. Este crime foi pensado, foi um
crime de uma mente na plena posse das
suas faculdades.
 Poirot sorriu e inclinou inesperadamente a cabea.
 - Concordo inteiramente consigo - declarou,
suavemente.

XXV

 - Ainda temos um certo caminho a percorrer. - prosseguiu
Poirot. - J que o doutor Gerard invocou
a psicologia, estudemos o lado psicolgico do caso.
Examinmos os factos, estabelecemos uma sequncia
cronolgica dos acontecimentos, ouvimos os vrios depoimentos.
Resta a psicologia. E a prova psicolgica mais
importante diz precisamente respeito  vtima,  psicologia de
Mistress Boynton.
 "Vejamos, na minha lista de factos especficos, os
pontos trs e quatro: Mistress Boynton sentia grande
prazer em impedir a famlia de se divertir com as outras
pessoas e na tarde em questo, Mistress Boynton encorajou
a famlia a ir passear e deix-la sozinha. Estes dois factos
contradizem-se flagrantemente! Por que motivo,
naquela tarde, Mistress Boynton mudaria por completo de tctica?
Teria sentido uma ternura sbita, um
inesperado desejo de benevolncia? A julgar por tudo
quanto ouvi, isso parece-me muito pouco provvel.
No entanto, deve ter havido uma razo. Qual ter
sido?
 "Examinemos com mincia o carcter de Mistress Boynton. So
muitas as descries que temos
dela: era uma velha tirana; era uma sdica mental; era
a maldade em pessoa; era louca. Qual destas opinies
 a verdadeira? Pessoalmente, creio que Sarah King se
aproximou mais da verdade quando, num momento de
inspirao, em Jerusalm, viu a velha como um ser
intensamente pattico. Mas no s pattico: ftil,
tambm.
 "Tentemos colocar-nos no estado mental de Mistress Boynton. Um
ser humano nascido com imensa
ambio, com um desejo incontido de dominar e de
impor a sua personalidade aos outros. No sublimou
essa fome intensa de poder nem tentou domin-la.
No, senhoras e senhores! Alimentou-a! Mas no fim
 ,
ouam bem, no fim, a que se resumia tudo? No era
uma grande fora, no era receada e odiada numa
grande rea! Era a miservel tirana de uma famlia isolada! E,
como o doutor Gerard me disse, aborreceu-se, como qualquer outra
velha, com o seu passatempo
e procurou alargar as suas actividades e divertir-se,
tornando para isso o seu domnio mais precrio! Mas
esse procedimento desvendou-lhe um aspecto inteiramente
diferente. No estrangeiro compreendeu pela
primeira vez como era insignificante.
 "E agora chegamos ao ponto nmero dez, s palavras que disse
a Sarah King em Jerusalm. Sarah King
pusera o dedo na ferida, compreendem? Revelara totalmente, sem
subterfgios, a triste futilidade do plano
de existncia de Mistress Boynton. E agora escutem
todos com ateno quais foram as exactas palavras ditas por ela
a Miss King. Esta disse que Mistress Boynton falou "com tanta
malevolncia, sem olhar sequer para
mim. E o que a velha senhora disse foi: Nunca esqueci
nada, nem uma aco, nem um nome, nem uma cara.
 "cEstas palavras impressionaram muito Miss King,
sobretudo pela sua intensidade e pelo tom em que foram
proferidas. Foi to grande a impresso que causaram no seu
esprito que, parece-me, ela nem compreendeu o seu extraordinrio
significado. Mas, mes
amis, no compreendem que tais palavras no eram
uma resposta razovel ao que Miss King dissera? Nunca
esqueci nada, nem uma aco, nem um nome, nem uma
cara. No faz sentido! Se ela tivesse dito nunca esqueo a
impertinncia... Mas no, ela disse que nunca esquecia uma
cara...
 "Ah, mas salta aos olhos! Aquelas palavras, ostensivamente
ditas a Miss King, no se destinavam a
Miss King! Destinavam-se a algum que estava atrs
dela.
 Calou-se, a observar a expresso dos ouvintes.
 - Sim, aquele foi um momento psicolgico na
vida de Mistress Boynton! Uma jovem inteligente
mostrara-lhe como ela era! Estava cheia de fria, de
perplexidade... e nesse momento reconheceu algum,
reconheceu um rosto do passado!
 "Voltamos, como vem,  pessoa de fora. E agora
torna-se evidente o significado da inesperada amabilidade de
Mistress Boynton na tarde da sua morte. Queria ver-se livre da
famlia porque, para usar uma expresso vulgar, tinha outro peixe
na rede! Queria ficar com o
campo livre para uma entrevista com uma nova vtima...
Consideremos agora, deste novo ponto de vista,
os acontecimentos daquela tarde. A famlia Boynton
partiu e Mistress Boynton ficou sentada  entrada da
sua caverna. Observemos com ateno os depoimentos
de Lady Westholme e de Miss Pierce. A ltima  uma
testemunha pouco digna de crdito, muito sugestionvel e
desprovida de poder de observao. Lady Westholme, pelo
contrrio, tem perfeito conhecimento dos
factos e  meticulosamente observadora. Ambas as senhoras esto
de acordo num pormenor: um rabe, um
dos criados, acercou-se de Mistress Boynton, irritou-a e
retirou-se apressadamente. Lady Westholme afirma peremptoriamente
que o criado esteve primeiro na tenda
ocupada por Ginevra Boynton, mas lembremo-nos de
que a tenda do doutor Gerard era contgua  da jovem.
E possvel que tenha sido na deste ltimo que o rabe
entrou.
 - Pretende dizer-me que um dos bedunos assassinou uma velha
com uma injeco? - perguntou o
coronel Carbury. - Fantstico!
 - Um momento, coronel; ainda no acabei. Admitamos que o rabe
podia ter sado da tenda do doutor Gerard e no da de Ginevra
Boynton. Que se segue? Ambas as senhoras declaram que no puderam
ver a cara do homem com clareza suficiente para o
identificar e que no ouviram o que ele disse. E compreensvel,
alis, pois a distncia entre a tenda grande
e a plataforma rochosa era de cerca de cento e oitenta
metros. Lady Westholme descreveu, no entanto, o indivduo muito
pormenorizadamente, indo at ao pormenor dos cales remendados
e rotos e do seu desleixo geral.
 Poirot inclinou-se para a frente e prosseguiu:
 - E isso, meus amigos, foi muito estranho! Pois se
ela no lhe pde ver a cara nem ouvir o que se disse,
possivelmente tambm no poderia reparar no estado dos
seus cales e das suas grevas! A cerca de cento e oitenta

metros de distncia?! Foi um erro, um erro que me
sugeriu uma ideia curiosa. Porque insistiu ela tanto nos
cales rotos e nas grevas mal enroladas? Seria porque
os cales no estavam rotos e as grevas no existiam?
Lady Westholme e Miss Pierce viram ambas o homem, mas donde
estavam no se podiam ver uma  outra. Demonstra-o o facto de
Lady Westholme ter ido
ver se Miss Pierce estava acordada e hav-la encontrado sentada
 entrada da tenda.
 !
 - Meu Deus - exclamou, de sbito, o coronel, e
sentou-se muito direito. - Est a insinuar...
 - Estou a insinuar que, depois de verificar o que
Miss Pierce (a nica testemunha susceptvel de estar
acordada) estava a fazer, Lady Westholme regressou 
sua tenda, vestiu uns cales de montar, calou umas
botas, enfiou um casaco cor de caqui e improvisou um
toucado rabe com o pano do p e um novelo de l.
Depois, assim disfarada, foi ousadamente  tenda do
doutor Gerard, escolheu uma droga adequada no seu
estojo de remdios, apoderou-se da seringa, encheu-a
com o veneno e dirigiu-se com igual ousadia  sua vtima.
Mistress Boynton talvez estivesse a dormitar.
Lady Westholme foi rpida. Agarrou-lhe no pulso e
injectou-lhe a droga. Mistress Boynton deu um grito,
tentou levantar-se e voltou a cair na cadeira. O rabe
afastou-se apressadamente, com todos os indcios de se
sentir envergonhado. Mistress Boynton agitou a bengala, tentou
de novo levantar-se e caiu para sempre.
 Cinco minutos depois, Lady Westholme foi ter
com Miss Pierce e falou-lhe da cena que acabara de
observar, tendo o cuidado de apresentar  outra a sua
verso. Depois foram passear, pararam sob a plataforma e Lady
Westholme disse qualquer coisa  velhota.
No recebeu resposta, pois Mistress Boynton estava
morta, mas disse a Miss Pierce: Que grosseria, rosnar-nos
apenas daquela maneira! Miss Pierce aceitou a
sugesto, tanto mais que j ouvira vrias vezes Mistress Boynton
responder com um rosnido a qualquer
observao. Se for preciso, jurar com toda a sinceridade que
ouviu. Lady Westhohne tem presidido tantas
vezes a comisses em que participam mulheres do tipo
de Miss Pierce que sabe perfeitamente como a sua eminncia e
personalidade forte as pode influenciar.
O nico ponto onde os seus planos se desviaram do
caminho traado foi na reposio da seringa. O regresso
inesperado do doutor Gerard transtornou-lhe os
planos, mas ela esperou que a ausncia da seringa no
tivesse sido notada e rep-la no seu lugar, durante a
noite.
 - Mas porqu? - perguntou Sarah. - Porque
quereria Lady Westholme matar Mistress Boynton?
 - No me disse que Lady Westholme estava perto
de si quando, em Jerusalm, falou com Mistress Boynton? Pois era
a Lady Westholme que as palavras de
Mistress Boynton se destinavam: Nunca esqueci nada,
nem uma aco, nem um nome, nem uma cara. Junte isso
ao facto de Mistress Boynton ter sido carcereira de uma
priso e ter uma ideia muito aproximada da verdade.
Lorde Westholme conheceu a mulher numa viagem de
regresso da Amrica. Antes de casar, Lady Westholme
fora uma criminosa e cumprira uma pena de cadeia.
 Compreende o terrvel dilema em que ela se encontrou? A sua
carreira, as suas ambies, a sua posio social, tudo isso
estava em jogo! Ainda no sabemos a natureza do crime pelo qual
esteve presa
(embora em breve saibamos), mas deve ter sido qualquer coisa
capaz de lhe destruir por completo a carreira poltica, se se
tornasse pblico. E lembrem-se do
seguinte: Mistress Boynton no era uma vulgar chantagista. Ela
no queria dinheiro; queria o prazer de torturar a sua vtima
durante algum tempo e, depois, o
gozo supremo de revelar a verdade do modo mais espectacular
possvel! No, enquanto Mistress Boynton
vivesse, Lady Westholme no estaria em segurana.
Obedeceu s instrues de Mistress Boynton para se
encontrar com ela em Petra (sempre me pareceu estranho que uma
mulher com um sentido to apurado da
sua importncia, como Lady Westholme, preferisse
viajar como simples turista), mas mentalmente pensava na maneira
de a assassinar. Viu a sua oportunidade
e aproveitou-a sem hesitar. S cometeu dois deslizes:
falou de mais, ao descrever os cales rotos, e foi isso
que primeiro chamou a minha ateno para ela, e confundiu a tenda
do doutor Gerard com a de Ginevra,
pois primeiro espreitou na desta. Da a histria da jovem, meio
verdadeira, meio fantasiosa, de um xeque
disfarado. Ginevra obedeceu ao seu instinto de deformar a
verdade para a tornar mais dramtica, mas a indicao que me deu
bastou-me.
 Fez uma pausa prolongada, antes de acrescentar:
 - Em breve saberemos tudo, pois hoje obtive as
impresses digitais de Lady Westholme sem ela dar
por isso. Se as mandarmos para a priso onde Mistress Boynton foi
carcereira, saberemos a verdade.
 Um estampido forte quebrou o momentneo silncio.
 - Que foi isto? - perguntou o doutor Gerard.
 - Pareceu-me um tiro - disse o coronel Carbury,
ao mesmo tempo que se levantava, muito depressa. - No quarto ao
lado... A propsito, quem est no quarto ao lado?
 Poirot murmurou:
 - Tenho a impresso de que  Lady Westholme...

XXVI

Excerto do Evening Shout:

 Lamentamos anunciar a morte de Lady Westholme,
M. P., em consequncia de um trgico acidente. Lady Westholme,
que gostava de viajar por pases longnquos, levava
sempre consigo um pequeno revlver. Estava a limp-lo
quando a arma se disparou acidentalmente e a matou.
A morte foi instantnea. Apresentamos as maiores condolncias a
Lorde Westholme, etc., etc.

 Numa noite de Junho, cinco anos depois, Sarah
Boynton e o marido estavam sentados num teatro londrino, a ver
representar o Hamlet. Sarah apertou o
brao de Raymond.
 Aquela voz suave, dramtica, sempre bela em tonalidade, mas
agora disciplinada e modulada para se
transformar num instrumento perfeito! Sarah exclamou, com
firmeza, quando o pano desceu, no fim do
primeiro acto:
 - Jinny  uma grande actriz!
 Mais tarde, foram cear ao Savoy. Ginevra, sorridente e
distante, voltou-se para o homem de barba,
sentado a seu lado:
 - Fui bem, no fui, Theodore?
 - Foste maravilhosa, chrie.
 Um sorriso feliz entreabriu os lbios da jovem, que
murmurou:
 - Acreditou sempre em mim... soube sempre
que seria capaz de fazer grandes coisas, de arrebatar
multides...
 Nadine, que estava sentada defronte de Ginevra,
exclamou por sua vez:
 -  emocionante estar aqui em Londres, com a
Jinny a representar o papel de Oflia e a ser famosa!
 - Foram muito amveis em vir - redarguiu a jovem, docemente.
 - Uma autntica reunio de famlia! - comentou
Nadine, a sorrir e a olhar  sua volta. - Lennox, no
achas que os pequenos podiam ir  matine? J tm
idade suficiente e esto to interessados em ver a tia
Jinny no palco!
 Lennox - um Lennox saudvel, feliz e de olhar
sorridente -, ergueu a taa e brindou:
- Aos recm-casados, Mister e Mistress Cope!
 Jefferson Cope e Carol agradeceram o brinde.
 - O gal infiel! - exclamou Carol, a brincar. - Jeff, devias
brindar ao teu primeiro amor, que est
sentado  tua frente.
 - Jeff corou! - exclamou Raymond, alegremente. - No gosta que
lhe recordem os velhos tempos.
- E o seu prprio rosto se ensombrou.
 Sarah tocou-lhe na mo e as nuvens dissiparam-se.
 - Parece que foi tudo um pesadelo, um sonho
mau - murmurou ele, a sorrir.
 Um homem baixo parou junto da mesa. Hercule
Poirot, impecavelmente vestido, como sempre, e com
o bigode muito torcido, fez uma vnia corts e majestosa.
 - Mademoiselle, mes hommages! - disse a Ginevra. - Foi soberba.
 Cumprimentaram-no todos afectuosamente e arranjaram-lhe lugar
ao lado de Sarah. O detective sorriu-lhes e, quando estavam todos
entretidos a conversar,
inclinou-se um pouco e perguntou a Sarah:
 - Eh bien, parece que tudo corre bem, agora, com
a famlia Boynton?
 - Graas a si!
 - Seu marido est a tornar-se muito famoso. Li
hoje uma excelente crtica ao seu ltimo livro.
 - , de facto, muito bom... embora eu seja suspeita. Sabia que
Carol e Jefferson acabaram por casar?
E Lennox e Nadine tm dois garotos encantadores.
Quanto  Jinny... bem, acho que  um gnio.
 Olhou, atravs da mesa, para o rosto encantador e
para os maravilhosos cabelos vermelhos-dourados da
cunhada e, de sbito, estremeceu. Por momentos, o
seu rosto tornou-se grave. Levantou a taa, devagar.
 - Vai fazer um brinde, madame?
 - Pensei, de sbito, nela. Ao olhar para Jinny vi,
pela primeira vez, a... a semelhana.  a mesma coisa,
com a diferena de que Jinny  luz e ela era negrume.
Do outro lado da mesa, Jinny disse, inesperada- O Autor e a Obra
mente:
 - Pobre me, ela era estranha... Agora que somos
todos to felizes sinto certa pena dela. No obteve o
que queria da vida. Deve ter sido duro...

***

 Agatha Christie, romancista e autora dramtica inglesa, de seu
nome completo, Agatha Mary Clarissa
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro
de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez os
seus estudos em casa, educada por professores.
 Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na
Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro marido, o coronel
Archibald Christie, de quem tomou o
clebre apelido, que manteve apesar da separao em
1926. A sua experincia com venenos nos hospitais
onde trabalhou est na origem do profundo conhecimento sobre a
matria, utilizado em muitos dos seus
romances. Foi nesta poca que escreveu A Primeira
Investigao de Poirot ( 1920), com que deu incio  sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros policiais.
Coincidiu a obra com a apresentao da personagem Hercule Poirot,
o detective belga que se tornaria
quase to conhecido como a sua autora e que na resoluo dos
enigmas policiais ser concorrente da amvel
Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha
Christie.
 Depois do segundo casamento, em 1930, com o arquelogo Max
Mallowan, a escritora, apaixonada por
viagens, passou a dividir o tempo entre a estruturao dos
crimes e as escavaes arqueolgicas.
 Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assassinato
de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao
longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumesas
caractersticas que identificariam o seu estilo: a investigao
racional e a psicologia; o mistrio denso e a
variedade de personagens e ambientes; o emaranhado
de indcios e a soluo imprevista.
 Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca
de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem s
centenas de milho. No entanto, no foram s os livros policiais
a proporcionar-lhe a admirao do pblico, pois Agatha Christie
tambm  autora de peas de
teatro - refere-se A Ratoeira (1951), mantida em cena
durante vinte e cinco anos -, histrias para crianas e
romances psicolgicos publicados sob o pseudnimo
de Mary Westmacott.
 Membro da Real Sociedade de Literatura e distinguida com um
grau honorfico em Letras, atribudo
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de Dama
do Imprio Britnico, pelo conjunto da
sua obra.
 Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a
12 de Janeiro de 1976.
